Bolsonaro nos EUA: o que esperar do primeiro encontro do presidente brasileiro com Trump

Jair Bolsonaro discursa nos EUA Direito de imagem Reuters
Image caption Antecessores de Bolsonaro prestigiaram vizinhos sul-americanos em visitas oficiais

"Pela primeira vez em muito tempo, um Presidente brasileiro que não é antiamericano chega a Washington. É o começo de uma parceria pela liberdade e prosperidade, como os brasileiros sempre desejaram", tuitou o presidente Jair Bolsonaro (PSL) neste domingo (17), ao desembarcar em Washington (EUA).

O político do PSL é o primeiro mandatário a abrir as visitas a outros chefes de Estado com os EUA em muito tempo: isto não acontecia desde 1962, quando o dono da cadeira era João Goulart, o Jango (1919-1976).

Bolsonaro se encontrará nesta terça-feira (19) com o presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump. Esta será a principal atividade da viagem de três dias aos EUA. É a primeira visita oficial de Bolsonaro a outro chefe de Estado desde que ele tomou posse. No fim de janeiro, o presidente brasileiro foi a Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial.

Considerado de esquerda e derrubado pelo golpe militar de 1964, João Goulart não escolheu os EUA para sua primeira viagem oficial, em 1962, apenas por mera afinidade com o presidente norte-americano da época, o democrata John Kennedy. Jango foi aos EUA também pedir dinheiro emprestado - o Brasil vivia então uma grave crise econômica. João Goulart foi acompanhado do então ministro da Fazenda, Walther Moreira Salles, e foi bem tratado pelos americanos, mas voltou praticamente de mãos abanando: o governo dos EUA emprestou ao Brasil um valor considerado insuficiente (cerca de US$ 1 bilhão, em valores corrigidos).

Pouco depois, a situação mudou e o governo de John Kennedy chegou a cogitar uma ação armada contra Goulart.

Segundo o historiador Carlos Fico, especializado no período, Jango recebeu do governo dos EUA um tratamento poucas vezes visto por um presidente brasileiro. O próprio John Kennedy foi recebê-lo no aeroporto em sua chegada; e ele teve a oportunidade de discursar em uma sessão conjunta de deputados e senadores dos EUA.

"O governo americano avaliava que Jango era influenciado pela esquerda. Então, da perspectiva deles, a visita tinha este propósito de tentar manter o João Goulart na órbita de influência dos EUA. Todas essas mesuras e gestos diplomáticos tinham este objetivo, de tentar manter o presidente brasileiro alinhado. Coisa que acaba depois de 1963, quando os EUA passam a conspirar para derrubá-lo", diz Carlos Fico à BBC News Brasil.

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Image caption John Kennedy (dir.) foi ao aeroporto recepcionar Jango (centro), honraria que não foi mais dispensada a nenhum presidente brasileiro

Desde Jango, quase todos os presidentes brasileiros abriram seus mandatos com viagens a países latino-americanos - inclusive os do período militar. Dilma Rousseff (PT) foi à Argentina (janeiro de 2011), e Lula (PT) foi ao Equador (janeiro de 2003). Fernando Collor e Emílio Médici foram ao Paraguai; e Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Arthur da Costa e Silva foram ao Uruguai. João Figueiredo visitou primeiro a Venezuela, em 1979; e Ernesto Geisel prestigiou a Bolívia, em 1974.

As exceções são dois vices, que assumiram a Presidência da República após o impeachment dos titulares. Michel Temer teve como destino de sua primeira visita oficial a China, em 2016 - ele foi ao país asiático para uma reunião da cúpula do G20, e reuniu-se com o líder chinês Xi Jinping. Itamar Franco (1930-2011), que assumiu após a queda de Collor, debutou nas viagens oficiais com uma ida à capital do Senegal, Dacar. As informações são da Biblioteca da Presidência da República.

Alguns presidentes brasileiros incluíram os EUA em viagens como presidentes eleitos, antes de tomar posse - gesto feito tanto por Lula (PT) em 2002 quanto por Fernando Collor. Como os dois não eram presidentes ainda, não foram visitas oficiais.

Cristina Soreanu Pecequilo é professora do curso de Relações Internacionais da Unifesp. Segundo ela, a "tradição" de prestigiar países latino-americanos na primeira viagem dos presidentes brasileiros está relacionada aos interesses regionais do país.

"O Brasil é um país latino, obviamente. Então, geralmente o que se faz é privilegiar o nosso espaço geopolítico. Principalmente Argentina, Uruguai, Paraguai. Isto sempre foi valorizado", diz ela à BBC News Brasil.

Para a professora, a política externa de Bolsonaro remete àquelas dos governos de Fernando Collor (1990-1992) e de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), quando o Brasil buscava se aproximar dos Estados Unidos.

"Historicamente, todas essas épocas de alinhamento se mostraram equivocadas. O Brasil obtém mais êxito na política externa quando adota uma política mais pragmática, baseada na barganha (...). Não necessariamente alinhar-se a outro país é algo que trará benefícios imediatos. Em períodos anteriores, essas estratégia de alinhamento não tiveram sucesso", avalia ela.

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Image caption Historicamente, Brasil ganhou mais quando se manteve pragmático, diz especialista

Bolsonaro e Trump: Venezuela e China na pauta

O encontro dos dois presidentes deve começar no fim da manhã desta terça-feira (19) - antes, Bolsonaro se encontra com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro.

Na Casa Branca, Bolsonaro deve assinar o livro de visitas no Salão Roosevelt; em seguida, terá um encontro a portas fechadas com Donald Trump no Salão Oval. Depois, os dois participarão de um almoço de trabalho. Declarações a jornalistas estão previstas para um dos jardins da Casa Branca.

A crise na Venezuela e os atritos comerciais dos EUA com a China deverão estar no cerne da conversa entre Trump e Bolsonaro - é possível ainda que os dois presidentes tratem de questões como a parceria militar entre os EUA e o Brasil e a situação de países como Cuba e a Nicarágua.

Durante a visita, os EUA devem conceder ao Brasil o status de "aliado preferencial fora da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)" - na América Latina, é o mesmo status da Argentina.

A Venezuela enfrenta uma grave crise econômica e política nos últimos anos. De 2013 a 2017, o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu 37%, e a inflação atingiu a impressionante marca de 1,3 milhão por cento em 12 meses, no fim de 2018. Quase três milhões de venezuelanos já deixaram o país, a maioria após 2015. No fim de janeiro, o então presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente da República. Ele acusa Nicolás Maduro de ter fraudado as últimas eleições venezuelanas. EUA e Brasil e reconhecem como o atual presidente do país caribenho.

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Image caption Venezuela e China serão os temas principais da conversa de Bolsonaro e Trump nesta terça

Michael Shifter é mestre em sociologia pela universidade de Harvard e professor da Georgetown University, em Washington. É também o atual presidente do Diálogo Inter-Americano, um think-tank de relações internacionais sediado na capital norte-americana. Segundo ele, Trump e Bolsonaro compartilham a mesma posição "linha dura" em relação à Venezuela - mas Trump já desistiu de uma possível ação militar em relação ao regime de Nicolás Maduro.

"Além disso, parece haver pouco apetite da parte dos militares brasileiros para seguir este curso de ação. Parece também que o vice-presidente (brasileiro) Hamilton Mourão possui uma posição um pouco diferente da expressada por Bolsonaro e pelo ministro das Relações Exteriores (Ernesto Araújo). Podemos esperar uma boa dose de retórica agressiva contra Maduro e demonstrações de apoio ao (líder opositor e presidente autoproclamado da Venezuela, Juan) Guaidó, mas sem compromissos firmes", disse ele à BBC News Brasil, por e-mail.

Shifter também avalia que o status de "aliado preferencial" pode representar uma mudança "significativa" para o Brasil. "Há apenas alguns anos atrás, o Brasil teria resistido a uma aliança deste tipo. Em termos concretos, o novo status significa o fortalecimento dos laços militares entre os dois países. Também poderá ampliar a cooperação em inteligência e na luta contra o crime transnacional. Apesar disso, a expectativa de uma mudança radical das relações entre os dois países são modestas", diz.

Jantar com Steve Bannon e reunião na CIA

O encontro com Trump ocorre no terceiro dia da visita oficial. Bolsonaro chegou aos EUA no domingo (17), e já teve seu primeiro compromisso: um jantar com jornalistas, influenciadores e acadêmicos na residência oficial do embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Amaral. Sete ministros do governo participaram do jantar, que contou ainda com as presenças do escritor conservador Olavo de Carvalho e do ex-estrategista político de Trump, Steve Bannon.

Na segunda-feira (18), Bolsonaro discursou no encerramento do evento "Dia do Brasil em Washington, organizado pelo Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos - onde tratou da crise na Venezuela. Segundo Bolsonaro, os dois países estão trabalhando em conjunto no tema.

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Image caption Steve Bannon e Olavo de Carvalho participaram do jantar com Bolsonaro no domingo (17)

"Aquele povo (da Venezuela) tem que ser libertado e acreditamos e contamos, obviamente, com o apoio norte-americano para que esse objetivo seja alcançado", disse. "Temos alguns assuntos que estamos trabalhando em conjunto, reconhecendo obviamente, a capacidade bélica, entre outras, dos Estados Unidos", disse o presidente brasileiro. À noite, Bolsonaro e os ministros participaram de um jantar com empresários dos EUA.

Ao longo da segunda-feira, Bolsonaro também teve uma reunião, fora da agenda oficial, com a direção da agência de inteligência dos EUA, a CIA. Horas depois do encontro, o Palácio do Planalto disse que o encontro serviu para discutir "questões de combate ao crime organizado e ao narcotráfico". O presidente também assinou um acordo para eliminar a necessidade de vistos a turistas americanos no Brasil, e outro para permitir que os EUA utilizem a base de Alcântara (MA) para lançar satélites - este último precisa ser ratificado pelo Congresso Nacional, em Brasília.

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