Ciclone em Moçambique: 'Vi a cidade onde nasci sendo destruída', conta sobrevivente

Inundação nas imediações de Beira, em Moçambique Direito de imagem ADRIEN BARBIER/AFP/Getty Images
Image caption Imagens aéreas mostram que 90% da cidade de Beira, onde Moda mora, foi destruída

Na quinta-feira, quando o ciclone Idai se aproximava da cidade portuária de Beira, em Moçambique, os moradores seguiram a orientação do governo: ficar em casa. Foi o que fez Nelson Moda, de 34 anos, com sua esposa e seus três filhos. Mas quando o ciclone chegou, até as casas deixaram de ser locais seguros.

"Fomos nos mudando de um cômodo para o outro. A situação só piorava. Então, nos escondemos no banheiro e descobrimos que era o lugar mais seguro da casa", relatou Moda, professor de ensino médio e funcionário da organização católica Comunidade de Sant'Egídio, em entrevista ao programa Outside Source, do BBC World Service Radio.

A família passou a noite em claro, mas lá fora Moda ouvia gritos e choro de crianças. "O meu impulso era pular para o lado de fora e ajudar as pessoas, oferecer abrigo, mas era impossível. A situação não permitia. Mas me sinto culpado", diz.

Moda chegou a Roma na terça-feira desta semana para pedir apoio internacional e buscar conscientizar o mundo da dimensão da tragédia causada pelo ciclone, que atingiu Moçambique, Malauí e Zimbábue.

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Image caption Família de Nelson Moda passou noite em claro dentro do banheiro da casa; ele diz que podia ouvir gritos e crianças gritando do lado de fora

Especialistas da ONU classificaram o ciclone como um dos piores desastres climáticos já registrados no hemisfério sul. Beira, a segunda maior cidade moçambicana, foi uma das regiões mais afetadas. Imagens aéreas mostram que 90% da cidade foi destruída.

"Eu vi a cidade onde nasci sendo destruída diante dos meus olhos", descreve Moda. "As lágrimas não param de escorrer, pelas pessoas que não podiam se defender, se proteger, especialmente crianças e idosos. Dói muito."

Formado no Oceano Índico, o ciclone Idai chegou a Moçambique e deixou um rastro de destruição e morte, com ventos de até 177 km/h. Até agora, mais de 200 mortes foram confirmadas em Moçambique, mas o número pode passar de mil. Outras cem mortes foram confirmadas no Zimbábue, de onde o ciclone se dirigiu para Malauí, causando mais devastação.

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Image caption Ciclone Idai deixou rastro de destruição e morte na África

"O vento destruiu casas, carros e derrubou árvores. Parecia uma cena de guerra", descreve Moda. Sua família escapou ilesa. "Mas eu penso nas outras famílias, nossos amigos, nas crianças. Eu vivo a serviço da Comunidade de Sant'Egídio há 15 anos, eu vivo a serviço dessas pessoas. Elas são parte da minha família. Eu sinto elas e minha cidade destruídas", diz Moda.

Moda dá aulas para meninos em uma escola de ensino médio e trabalha no complexo da Sant'Egídio em Beira, que oferece assistência e tratamento para pessoas infectadas pelo HIV - adultos e crianças. A sede também teve sua estrutura danificada pela chuva. Entretanto, as paredes de alvenaria resistiram, e mais de 400 pessoas se refugiaram sob as partes cobertas que resistiram ao ciclone, segundo a ONG.

Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Moda diz que cidade parecia uma 'cena de guerra', com destruição de casas e carros

Situação de emergência

Após a passagem do ciclone, a tragédia continua a se agravar em Beira e outras áreas de Moçambique, com acessos terrestres bloqueados por causa dos alagamentos e devastação, falta de eletricidade e dificuldades para enviar ajuda.

Equipes da BBC em Beira relatam que os moradores mal tiveram chance de lidar com o luto, estando desesperados por comida, abrigo e roupas. "Precisamos urgentemente de alimentos, água e medicamentos", diz Moda.

Direito de imagem Josh Estey/Care International/REUTERS
Image caption Equipes da BBC em Beira relatam que moradores mal tiveram chance de lidar com o luto, porque estão desesperadas por comida, abrigo e roupas

O trabalho de resgate de pessoas ainda ilhadas continua. "As pessoas não têm saída. Passaram dias sobre árvores, sobre os telhados de suas casas. Não me lembro de uma escola que não tenha sido destruída. O principal hospital da cidade foi destruído", conta Moda.

O professor pretende voar de volta para seu país no dia 25 "para trabalhar duro ajudando as pessoas da minha cidade".

Para ele, ajuda internacional será essencial para a reconstrução. "Isso está muito além da capacidade do nosso município, província ou do governo nacional. Vamos precisar de meses, anos para reerguer a cidade. Beira está completamente destruída. Parece que uma bomba caiu sobre a cidade."

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