Derrota do Estado Islâmico é anunciada na Síria

Combatentes sírios erguem bandeira amarela para celebrar derrota do EI Direito de imagem AFP
Image caption Mesmo derrotado na Síria, EI continua a ter integrantes disciplinados e com experiência de combate

As Forças Democráticas Sírias (FDS), que são apoiadas pelos Estados Unidos, disseram ter dado fim ao "califado" criado pelo grupo extremista autoproclamado Estado Islâmico (EI).

"As Forças Democráticas Sírias declaram a total eliminação do chamado califado e a total derrota territorial do EI", disse Mustafa Bali, porta-voz da FDS, pelo Twitter. "Neste dia único, celebramos os milhares de mártires que tornaram essa vitória possível."

Em seu auge, o EI controlou uma área de 88 mil km² no norte da Síria e do Iraque, governou quase 8 milhões de pessoas, ganhou bilhões de dólares com a exploração de petróleo, extorsões, roubos e sequestros, e usou seu território como base para ataques em outros países.

Mas o grupo ainda é considerado uma grande ameaça global por ainda deter uma presença significativa na região e ter afiliados em diversos outros países, como Nigéria, Iêmen, Afeganistão e Filipinas.

A aliança de forças representada pela FDS, lideradas pelos curdos, começou sua ofensiva final contra o EI no início de março, contra militantes que estavam encurralados no vilarejo de Baghuz, no leste sírio.

A FDS teve de conter seus esforços após ser revelado que um grande número de civis se encontrava ali, abrigados em edifícios, tendas e túneis. Milhares de mulheres e crianças fugiram rumo aos campos de refugiados controlados pela aliança.

Combatentes do EI também abandonaram Baghuz, mas aqueles que permaneceram ofereceram uma grande resistência, com o uso de homens e carros bomba no conflito.

O presidente americano, Donald Trump, havia dito que o EI estava derrotado no fim do ano passado e anunciado planos de retirar suas tropas, uma medida que deixou seus aliados no conflito preocupados - a Casa Branca anunciaria depois que suas forças permaneceriam na região.

Como começou a guerra contra o Estado Islâmico

O EI surgiu a partir de um braço da Al-Qaeda no Iraque após a invasão do país por uma coalização liderada pelos Estados Unidos em 2003. O grupo se juntou em 2011 à rebelião contra o presidente Bashar al-Assad na Síria, onde encontrou proteção e fácil acesso a armas.

Ao mesmo tempo, tirou proveito da retirada de tropas americanas do Iraque, assim como da revolta entre os sunitas contra as políticas sectárias do governo do país liderado por xiitas.

Em 2014, há havia assumido o controle de grandes áreas na Síria e no Iraque e proclamado a instauração de um "califado" nesta região. Foi quando mudou de nome. Antes conhecido como Estado Islâmico do Iraque e do Levante, passou a se autointitular apenas Estado Islâmico, refletindo suas ambições expansionistas.

Um avanço subsequente sobre áreas controladas pela minoria curda no Iraque e o assasinato ou escravização de milhares de membros do grupo religioso yazidi levou à formação de uma coalização internacional liderada pelos Estados Unidos, com ataques aéreos a posições do EI a partir de agosto daquele ano.

A batalha para expulsar o EI da Síria e do Iraque tem sido sangrenta, com milhares de vidas perdidas e milhões de pessoas forçadas a deixar seus lares.

Na Síria, tropas leais a Assad batalharam contra os extremistas com a ajuda de ataques aéreos russos e milícias apoiadas pelo Iraque. Por sua vez, a coalização liderada por americanos deu apoio à FDS, uma aliança de curdos sírios e combatentes árabes, além de facções rebeldes sírias. No Iraque, forças de segurança locais foram apoiadas tanto pelos Estados Unidos quanto por grupos paramilitares.

Desde então, já foram realizados mais de 33 mil ataques aéreos na região pela coalização. A Rússia não fez parte destes esforços, mas começou a promover ataques aéreos contra o que chamou de "terroristas" na Síria em setembro de 2015 para fortalecer o governo de Assad.

A campanha logo começou a dar sinais de progresso, com a recaptura da cidade de Ramadi, capital da província iraquiana de Anbar, e, depois, da segunda maior cidade do país, Mosul, em julho de 2017 - considerado um marco dos esforços da coalização, em uma batalha de dez meses que matou milhares de civis e deixou 800 mil refugiados.

Em outubro de 2017, a FDS reassumiu o controle da cidade de Raqqa, na Síria, capital do autoproclamado "califado", após três anos sob o comando do EI. No mês seguinte, foram retomadas as cidades de Deir al-Zour e Al-Qaim.

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Image caption Em seu auge, o EI controlou uma área de 88 mil km² no norte da Síria e do Iraque

Os números exatos de vítimas da guerra contra o EI é desconhecido. O Observatório de Direitos Humanos da Síria, organização que monitora o conflito baseada em Londres, diz mais de 371 mil pessoas - entre elas, 112,6 mil civis - morreram desde o início da guerra civil na Síria em 2011.

A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que ao menos 30.912 civis foram mortos em atos de terrorismo e violência e pelo conflito armado no Iraque entre 2014 e 2018, mas acadêmicos e ativistas dizem que este número pode chegar a 70 mil.

Ao menos 6,6 milhões de sírios se transformaram em refugiados em seu próprio país, enquanto outros 5,6 milhões fugiram para o exterior, principalmente para Turquia, Líbano e Jordânia.

Por que o EI ainda é uma ameaça preocupante?

A queda de Baghuz representa um momento chave da campanha contra o EI. O governo iraquiano havia declarado a vitória sobre o grupo em dezembro de 2017. Mas o EI está longe de estar derrotado.

Autoridades americanas dizem existir de 15 mil a 20 mil combatentes armados do grupo em atividade na região e que o EI retornará às suas raízes de insurgência enquanto tenta se reerguer.

Mesmo diante de uma derrota iminente em Baghuz, os extremistas divulgaram um áudio que seria supostamente de seu porta-voz, Abu Hassan al-Muhajir, dizendo que seu califado não estava acabado.

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Image caption A queda do EI em Baghuz representa um momento chave da campanha contra o grupo extremista

Apesar do anúncio da FDS, o EI continua a ter integrantes disciplinados e com experiência de combate, o que não permite dizer que sua "derrota definitiva" está garantida.

O chefe do Comando Central das Forças Armadas americanas, o general Joseph Votel, responsável pelas operações militares do país no Oriente Médio, disse em fevereiro que será necessário manter uma "ofensiva vigilante contra o agora disperso e desagregado EI, que continua a ter líderes, combatentes, recursos e uma ideologia profana para levar à frente seus esforços".

E que, se a pressão sobre o grupo não for mantida, ele "pode ressurgir na Síria dentro de seis a 12 meses e reconquistar território no vale do rio Eufrates", conforme disseram autoridades militares americanas.

Estes alertas aparentemente dissuadiram Trump de retirar 2 mil soldados da Síria, como havia prometido fazer em dezembro. A medida levou à renúncia do secretário de Defesa Jim Mattis. A Casa Branca afirmou no mês passado que manterá 400 "agentes de paz" na Síria por "algum tempo".

Quais serão os próximos passos do EI?

No Iraque, onde o governo declarou vitória contra estes extremistas no fim de 2017, eles já "evoluíram para se transformar em uma rede subterrânea", disse o general americano António Guterres em um relatório em fevereiro.

"Eles estão em uma fase de transição, adaptação e consolidação. Estão se organizando em células nas províncias, replicando funções chave de liderança", acrescentou.

Militantes do EI continuam ativos em zona rurais, em áreas remotas e de terreno acidentado, o que lhes dá liberdade para se movimentar e planejar ataques a partir de regiões como os desertos das províncias de Anbar e Nineveh e as montanhas de Kirkuk, Salah al-Din e Diyala.

Células do grupo parecem "estar planejando atividades para minar a autoridade do governo, criar uma atmosfera de 'terra sem lei' na região, sabotar uma reconciliação social e elevar o custo de reconstrução regional e do contraterrorismo", segundo Guterres. Estas atividades incluem sequestros, assassinatos de líderes locais e ataques contra instalações estatais e de serviços.

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Image caption O paradeiro do líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, é desconhecido

A expectativa é que a rede do EI na Síria se torne algo semelhante ao que ocorre no Iraque atualmente. Além do vale do rio Eufrates, o grupo está presente na província de Idlib, no noroeste do país, e ao sul da capital Damasco, além de na região de Badiya, um grande trecho de deserto no sudeste da Síria.

Os militantes têm acesso a armamento pesado e são capazes de realizar ataques a bomba e assassinatos em todo o país, disse Guterres. Seus líderes também mantêm uma "capacidade de controle e comando". A localização do líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, é desconhecida, apesar de haver poucos locais onde ele ainda possa se esconder.

O grupo continua a obter uma receita significativa com atividades criminosas e a receber doações. Estima-se que o EI tenha recursos da ordem de US$ 50 milhões (R$ 195,3 milhões) a US$ 300 milhões (R$ 1,17 bilhão) em dinheiro.

Quantos militantes ainda restam?

O EI sofreu perdas consideráveis, mas Guterres diz que o grupo ainda tem sob seu comando entre 14 mil e 18 mil combatentes no Iraque e na Síria, entre eles 3 mil estrangeiros.

O enviado especial americano da Coalização Global para Derrotar o EI, James Jeffrey, disse neste mês que os Estados Unidos estimam haver entre 15 mil e 20 mil "membros armados ativos" do grupo na região.

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Image caption Os EUA dizem que derrota definitiva do EI em toda a região não está garantida e que grupo exige 'vigilância constante'

A FDS capturou cerca de 1 mil combatentes estrangeiros do EI. Centenas de mulheres e mais de 2,5 mil ligadas a estes estrangeiros estão vivendo em campos para refugiados em áreas controladas pela aliança, que informou haver ainda mais 1 mil combatentes estrangeiros detidos no Iraque.

Os Estados Unidos querem que eles sejam enviados para seus países de origem para serem processados criminalmente, mas estas nações manifestaram preocupações em receber estes extremistas e disseram ser difícil conseguir provas para sustentar ações judiciais.

Estima-se que 40 mil estrangeiros tenham se juntado ao EI na Síria e no Iraque, e o número de pessoas que ainda estão viajando para lá para fazer isso é desconhecido, ainda que este fluxo tenha se reduzido significativamente. A Coalização Global calcula que "provavelmente 50 pessoas por mês" chegam à região para se unir ao grupo.

Ao mesmo tempo, há um contingente significativo de afiliados do EI em países como Afeganistão, Egito e Líbia e no Sudeste Asiático e na África Ocidental. Indivíduos inspirados pela ideologia do grupo também continuam a realizar ataques em outras regiões.

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