O papa quer acabar com a tradição de fiéis beijarem sua mão?

Papa Francisco recebe seu anel Direito de imagem Reuters
Image caption O anel papal é confeccionado especialmente para cada papa e destruído após sua morte

Como se deve cumprimentar um papa? Por séculos, foi uma tradição católica beijar o pé do pontífice. Hoje em dia, muitos fiéis preferem curvar-se e beijar a mão que ostenta o anel papal.

Os católicos conservadores, que costumam acusam o atual papa de se desviar da doutrina e da tradição da Igreja Católica, agora suspeitam que ele queira dar fim a este rito.

Um sinal disso seria um vídeo feito na última segunda-feira na cidade italiana de Loreto, em que o papa recolhe sua mão quando católicos tentam beijá-la.

Mas o vídeo que viralizou é apenas um trecho de uma gravação bem mais longa, que mostra uma história diferente.

Imagens oficiais da TV do Vaticano mostram que Francisco passou 13 minutos em uma recepção, quando foi cumprimentado por ao menos 113 monges, freiras e paroquianos - individualmente ou em pares.

Ninguém dá qualquer instrução sobre como cumprimentá-lo. Durante os primeiros dez minutos, 14 pessoas apertaram a mão de Francisco sem se inclinar para beijar a mão, enquanto 41 pessoas se curvaram em direção às suas mãos e fizeram o gesto simbólico - e o papa não protestou.

Nove pessoas foram ainda mais longe. Eles se curvaram e beijaram o anel e depois também abraçaram o papa. Um monge particularmente devoto superou todos os outros da fila de cumprimentos ao beijar ambas as mãos do papa.

Mas, após os primeiros dez minutos, o comportamento do papa mudou. A fila de saudação pareceu se acelerar, e, durante 53 segundos, Francisco recolheu a mão quando 19 pessoas tentaram se curvar e beijar sua mão.

Um homem acabou beijando a própria mão depois que o papa retirou a sua de repente. E é este trecho que tem sido amplamente compartilhado na internet.

Pode ser que o papa estivesse com pressa de chegar ao final da fila de recepção - e deve ser ressaltado que, depois, ele ficou mais algum tempo cumprimentando pessoas, muitas delas em cadeiras de rodas, em frente à igreja.

Francisco pode até não gostar do "beija mão", mas não se pode dizer que ele rejeitou todos aqueles que tentaram fazer isso naquele dia.

A importância da joia

O anel papal, usado no terceiro dedo da mão direita, é provavelmente o símbolo mais poderoso da autoridade de um pontífice. Assim que um papa morre, a joia é imediatamente destruída para indicar o fim de seu papado.

Beijar um anel papal é um gesto que carrega em si séculos de significado político e religioso.

Direito de imagem Bettmann / Getty
Image caption Em 1963, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy optou deliberadamente por não beijar a mão do papa Paulo 6º

Em 1963, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy (1917-1963), que era católico, optou deliberadamente por não beijar o anel do papa Paulo 6º quando se encontraram no Vaticano - por medo de dar munição aos críticos que diziam que um presidente católico seria sempre subserviente a Roma.

O atual papa tem plena consciência do significado do gesto - e pode ser que pode ser que ele prefira fazer o contrário.

Durante uma visita a Jerusalém em maio de 2014, Francisco se esforçou para beijar a mão do líder da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu 1º, como sinal de reconciliação entre os dois ramos do cristianismo. O líder ortodoxo tentou resistir, mas o embate amigável foi vencido pelo papa.

Na mesma viagem, no Memorial do Holocausto de Israel, Francisco foi convidado a apertar a mão de sobreviventes do Holocausto. Para a surpresa dos presentes, ele se curvou e beijou suas mãos - um gesto que é ainda lembrado anos depois.


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