A mulher que não sente dor

Jo Cameron Direito de imagem Peter Jolly/REX/Shutterstock
Image caption Especialistas acreditam que estrutura genética de Jo Cameron pode ajudar outras pessoas a lidar com a dor de forma diferente

Jo Cameron tem 71 anos e praticamente não sente dor alguma. Também não tem medo ou fica ansiosa.

Ela vive em Iverness, na Escócia, e é uma das duas pessoas no mundo diagnosticadas com uma rara mutação genética.

Há seis anos, quando foi submetida a uma cirurgia, descobriu que era diferente. Os médicos não acreditaram que ela não precisava de analgésicos no pós-operatório.

Ela operou a mão e não sentiu necessidade de tomar remédio para dor.

Como ela dispensou os analgésicos, o anestesista Devij Srivastava decidiu levar o caso a geneticistas especializados em dor das universidades britânicas UCL (University College London) e Oxford.

"Quando ficou sabendo que eu não estava tomando (anestésicos), o médico checou meu prontuário e descobriu que eu nunca havia pedido analgésicos", conta Jo Cameron. Foi quando ela foi encaminhada para se consultar com especialistas na Inglaterra.

Ao ser diagnosticada com a mutação, Jo percebeu que ela, na verdade, não estava "incrivelmente saudável" como achava.

Direito de imagem Jo Cameron
Image caption Jo Cameron (esquerda) só descobriu que era diferente aos 65 anos, depois de uma cirurgia

Perigos no dia a dia

Jo sempre soube que não precisava de remédios para dor, mas nunca se perguntou o porquê disso.

"Eu era apenas uma pessoa feliz, não percebi que havia algo diferente em mim", diz.

Ela não percebia, mas sempre tolerou a dor numa escala muito maior que as outras pessoas. Até mesmo no parto. "Foi estranho, não doeu. Foi bem prazeroso, na verdade", conta.

Na cozinha, com frequência, Jo queima o braço no fogão. Só percebe quando a pele começa a cheirar a carne chamuscada. Nem assim notou que era insensível à dor.

Ela garante que não tem vontade de mudar, mas reconhece que a dor tem sua importância. "A dor existe por uma razão, para te avisar. É um alerta", avalia.

"Seria bom ter um aviso quando algo está errado", afirma, dizendo que não "sabia que o quadril tinha ido embora até que ele foi embora". "Não poderia andar com o tipo de artrite que tenho".

Médicos acreditam que ela também consegue se curar mais rápido que o normal. Os especialistas dizem que Jo tem uma combinação muito específica de genes que a torna mais esquecida e a faz se sentir menos ansiosa.

Direito de imagem Jo Cameron
Image caption Jo Cameron (à direita) teve sinais durante a vida, mas nem ela nem a família perceberam que a tolerância dela em relação à dor era maior que o comum

"É chamado o gene feliz ou do esquecimento. Eu venho incomodando as pessoas por ser feliz e esquecida o tempo todo. Agora, tenho uma desculpa", observa.

Jo também não tem medo. Recentemente, ela bateu o carro. Nem ligou para o episódio, que deixaria muita gente chateada.

"Não tenho adrenalina. Todo mundo deveria ter aquele aviso, faz parte de ser humano".

Depois da batida, conta Cameron, a outra motorista estava tremendo. Já ela, estava calma. "Não tenho esse tipo de reação. Não é ser corajoso, é que o medo simplemente não vem".

Rastreando a condição

Pesquisadores acreditam que haja mais pessoas como Jo Cameron no mundo.

"Um em cada dois pacientes após cirurgias ainda experimentam dor de moderada a grave, apesar de todos os avanços no desenvolvimento de analgésicos. Resta saber se novos tratamentos poderiam ser desenvolvidos com base em nossos resultados", disse o anestesista Devij Srivastava.

Há pesquisas de novos medicamentos que poderiam oferecer alívio da dor pós-cirúrgica e também acelerar a cicatrização de feridas. "Esperamos que isso ajude os 330 milhões de pacientes que se submetem a cirurgias no mundo a cada ano", disse o médico.

O caso de Jo vai virar artigo acadêmico na publicação British Journal of Anaesthesia, assinado pelo médico Srivastava and James Cox, da UCL.

Cox diz que pessoas com insensibilidade rara à dor podem ser valiosas para pesquisas médicas.

O caso de Jo pode ajudar outros pacientes a lidar melhor com a dor. "Aprendemos como suas mutações genéticas afetam a forma como as pessoas experimentam a dor, por isso encorajamos qualquer um que não sinta dor a se manifestar. Esperamos que, com o tempo, nossos achados possam contribuir para a pesquisa clínica para dor e ansiedade no pós-operatório, e potencialmente dor crônica, e cicatrização de feridas", explica Cox.


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