Trump e Netanyahu: os desafios nas urnas de dois dos principais aliados internacionais de Bolsonaro

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Image caption Trump e Netanyahu "encaram desafios internos consideráveis" com proximidade de eleições, diz cientista político

Em uma campanha eleitoral considerada a mais acirrada dos últimos tempos, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, aproveitou a visita do presidente Jair Bolsonaro, nesta semana, para ressaltar aos eleitores sua experiência diplomática e proximidade com líderes mundiais.

A mesma mensagem já havia sido reforçada com uma visita do premiê israelense aos Estados Unidos no mês passado, quando o presidente Donald Trump assinou uma proclamação formalmente reconhecendo a soberania de Israel sobre as Colinas de Golã - tomadas da Síria em 1967 e anexadas em 1981, em decisão que não é reconhecida pela comunidade internacional. Nesta semana, Netanyahu também foi recebido na Rússia pelo presidente Vladimir Putin.

Netanyahu e Trump, dois dos principais aliados internacionais de Bolsonaro, se preparam para enfrentar testes nas urnas. Enquanto o líder israelense entra na reta final para a votação de terça-feira, a corrida pela Casa Branca começa a esquentar, com duas dezenas de pré-candidatos democratas em busca de uma vaga para desafiar a reeleição de Trump no pleito de 2020.

"Tanto Trump quanto Netanyahu encaram desafios internos consideráveis", diz à BBC News Brasil o cientista político Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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Image caption Netanyahu aproveitou a visita do presidente Jair Bolsonaro para ressaltar aos eleitores sua experiência diplomática

Israel

Depois de 10 anos consecutivos no poder (além de um mandato anterior de 1996 a 1999), Netanyahu vê sua continuidade no cargo ameaçada em meio a acusações de corrupção e com um adversário de centro-direita que vem ganhando força.

Pesquisas de intenção de voto mostram Netanyahu praticamente empatado com Benny Gantz, um general da reserva e ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (de 2011 a 2015) que, ao lado do ex-âncora de TV e ex-ministro das Finanças Yair Lapid formou a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, as cores da bandeira israelense).

Gantz se apresenta como centrista e pode conquistar eleitores decepcionados tanto com os partidos de direita quanto com a esquerda. Em um país onde a segurança é uma das principais preocupações dos eleitores, o general tem a seu favor o histórico militar e a experiência em comando no campo de batalha. Mas críticos e analistas observam que Gantz é vago em suas propostas de governo.

O surgimento de um adversário forte ocorre em um momento em que o premiê israelense se vê mergulhado em um escândalo de corrupção. No fim de fevereiro, o procurador-geral de Justiça, Avichai Mandelblit, indicado por Netanyahu, anunciou a intenção de indiciar o premiê em três casos criminais por fraude, suborno e quebra de confiança.

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Image caption Netanyahu vê continuidade no cargo ameaçada em meio a acusações de corrupção

A decisão é resultado de mais de dois anos de investigação. Entre as acusações estão a de que Netanyahu teria oferecido favores à maior empresa de telecomunicações do país, afrouxando regulações em troca de cobertura favorável em um portal de notícias controlado pela empresa. Em outro caso, Netanyahu teria tentado influenciar a cobertura de um jornal diário em seu favor. O premiê também é acusado de receber presentes luxuosos de um bilionário.

Netanyahu nega as acusações e diz ser vítima de uma caça às bruxas promovida pela esquerda, pela mídia, juristas e acadêmicos para tirá-lo do governo. Uma decisão final sobre o indiciamento só será tomada após uma audiência, que será realizada depois das eleições.

O público israelense já sabia das acusações, noticiadas pela imprensa ao longo das investigações. Além disso, o premiê conta com uma base de apoio poderosa. Mas resta saber se o escândalo irá influenciar os eleitores.

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Image caption Nas pesquisas de intenção de voto, Netanyahu está praticamente empatado com Benny Gantz, um general da reserva

Coalizão

O cientista político Mark Tessler, professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, observa que o surgimento de partidos de centro que se destacam em determinadas eleições não é novo no cenário político israelense.

"Esses partidos de centro costumam vir e ir. Às vezes, quando se saem bem nas urnas, acabam se unindo ao governo", diz Tessler à BBC News Brasil.

Tessler ressalta ainda que o fato de receber mais votos não é garantia de que o candidato consiga formar um governo. Para ser bem-sucedido, é necessário compor uma coalizão que garanta pelo menos 61 das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento de Israel.

As pesquisas mais recentes apontam para cerca de 30 cadeiras tanto para o Likud, partido de Netanyahu, quanto para o Azul e Branco, o que significa que partidos menores terão grande influência ao decidir a quem se aliar.

"Nenhum deverá conquistar cadeiras suficientes no Parlamento para formar um governo. Eles terão de formar uma coalizão", salienta Tessler.

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Image caption Trump conta com a vantagem de um alto índice de aprovação entre os eleitores republicanos, que varia de 80% a 90%

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, com a aproximação das primárias para definir quem serão os candidatos na eleição de 2020, Trump conta com a vantagem de um alto índice de aprovação entre os eleitores republicanos, que varia de 80% a 90%. Ao contrário de 2016, quando enfrentou resistência de outros republicanos, ele agora tem poder consolidado sobre seu partido.

"Trump não deve enfrentar nenhum adversário com chances de vencer a disputa pela candidatura republicana", diz à BBC News Brasil o analista Aaron Kall, diretor de debates da Universidade de Michigan.

"Além disso, ele tem uma capacidade formidável de captar recursos para financiar a campanha e já arrecadou mais de US$ 100 milhões", ressalta.

Enquanto isso, ainda não há um favorito do lado democrata. Quase 20 nomes já anunciaram candidatura oficialmente, e vários outros podem decidir entrar na disputa. "Será uma batalha interna difícil", prevê Kall.

Os democratas enfrentam o que muitos analistas caracterizam como uma crise de identidade. Enquanto uma ala busca levar o partido mais para a esquerda, outros dizem que é necessário um candidato moderado para reconquistar eleitores decepcionados que abandonaram a legenda em 2016 para votar em Trump.

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Image caption Para analista, Trump não deve enfrentar adversários com chances de vencer disputa entre republicanos

Kall lembra ainda que, historicamente, presidentes que buscam reeleição para um segundo mandato costumam se sair bem. Mas salienta que ainda é cedo para fazer previsões. Entre as variáveis, Kall cita uma possível desaceleração econômica e a provável divulgação da versão mais completa do relatório da investigação do promotor especial Robert Mueller sobre interferência russa na eleição de 2016.

Em um resumo de quatro páginas apresentado ao Congresso, o secretário de Justiça disse que a investigação concluiu que não houve conluio com a campanha de Trump e que as evidências não foram suficientes para uma acusação de obstrução de justiça por parte de Trump. Mas os parlamentares e o público ainda não viram a versão completa, de quase 400 páginas.

Kall lembra ainda que, em dois anos de governo, o presidente não conseguiu ampliar sua base de apoio, e mantém seu índice de aprovação em torno de 40% a 45%. Mas como a eleição americana é decidida por um colégio eleitoral, é possível conquistar a presidência mesmo sem vencer o voto popular. Em 2016, Trump saiu vitorioso apesar de ter recebido quase 3 milhões de votos a menos do que a candidata democrata, Hillary Clinton.

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Image caption EUA e Israel foram os primeiros destinos interacionais de Bolsonaro em busca de aproximação com líderes de direita

Simbolismo

Estados Unidos e Israel estiveram entre os primeiros destinos internacionais (junto com Chile e Davos, na Suíça) do governo de Bolsonaro, que busca uma aproximação com os dois líderes de direita. Ambas as viagens tiveram simbolismo não apenas em termos de política externa, mas também para o público doméstico.

Para Stuenkel, da FGV, uma possível derrota de Netanyahu ou de Trump poderia criar o risco de que os novos governos nesses países adotassem uma postura diferente em relação ao Brasil.

O cientista político avalia que as viagens fizeram parte da construção de uma narrativa sobre o novo governo. "O fato de viajar para os Estados Unidos faz parte de uma comunicação para dentro de que as políticas do governo se orientarão no exemplo americano", observa Stuenkel.

"No caso israelense, tem a função de agradar a uma parcela muito específica do eleitorado, que é a parcela evangélica. Mas também é uma tentativa de se aproximar ainda mais do governo Trump por meio dessa visita."

Stuenkel diz que, caso um desses líderes deixe o poder, isso poderia dificultar a construção dessa narrativa. "Netanyahu pode deixar de ser primeiro-ministro. Ou, mesmo se ganhar, pode chegar a ser processado. Então isso pode ser um obstáculo para a estratégia brasileira", afirma.

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