O que é o Poder Judeu, grupo punido por ‘incitar racismo’ que pode chegar ao governo de Israel

Michael Ben-Ari (no centro) com outros dois líderes do partido Poder Judeu durante coletiva Direito de imagem Reuters
Image caption Michael Ben-Ari, líder do partido Poder Judeu, foi impedido de disputar as eleições marcadas para 9 de abril por ter feito cometários racistas

O rabino Meir Kahane, assassinado em Nova York em 1990, morreu quatro anos antes de ver o movimento antiárabe encabeçado por ele ser proibido em Israel. Mas o nome dele sempre esteve associado à direita radical impulsionada por religião e táticas violentas.

Agora, quase três décadas depois, o legado de Kahane pode ser restaurado nas próximas eleições em Israel, marcadas para 9 de abril, em especial por meio da atuação do partido Poder Judeu.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que tenta a reeleição numa disputada campanha, se aproximou do Poder Judeu e de outros dois partidos reconhecidos como de ultradireita para aumentar as chances de se eleger e de ajudar essas legendas a ganharem assentos no Knesset, o parlamento israelense.

Netanyahu também prometeu a eles dois cargos em um futuro gabinete, caso seu partido Likud precise deles para formar uma coalizão de governo.

Pesquisas indicam que juntos, os partidos Poder Judeu, Casa Judaica e União Nacional, têm chance de ganhar mais de 3,35% dos votos, o suficiente para lhes garantir espaço no Legislativo e na base do governo.

Mas por que isso gera controvérsia?

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Image caption Rabino Meir Kahane, assassinado em 1990, era defensor do uso da violência para tirar árabes de Israel

Além de membros do Poder Judeu se descreverem como sucessores do Meir Kahane, as legendas que se associaram a Netanyahu compartilham posicionamentos ultranacionalistas similares aos que o rabino defendeu no passado.

Políticos radicais

Nos anos 1970, o rabino Kahane formou o partido nacionalista Kach cuja principal bandeira era tirar os árabes de Israel e de áreas ocupadas por israelenses usando violência se necessário.

Nascido em Nova York em 1932, Kahane se juntou, ainda na adolescência, a movimentos paramilitares de direita. Aos 25 anos, virou rabino.

Em 1968, ele formou a Liga de Defesa Judaica, mandando patrulhas de jovens judeus armados a áreas predominantemente ocupadas por negros e hispânicos nos EUA. Três anos depois, foi condenado por conspiração e envolvimento com fabricação de explosivos.

Mudou-se para Israel enquanto ainda estava em liberdade condicional. Em Israel, foi detido muitas vezes. Passou temporadas na cadeia, mas também liderou seu movimento e, em 1984, conseguiu ser eleito, levando o partido Kach ao parlamento.

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Image caption Meir Kahane levou o próprio partido ao parlamento de Israel em 1984

Seus discursos eram boicotados por outros parlamentares, que deixavam o Knesset enquanto ele falava.

O partido acabou banido das eleições seguintes por incitar a violência.

Ira e morte

Kahane foi assassinado em 1990, nos EUA. Levou um tiro de um cidadão americano nascido no Egito. Mas isso não interrompeu seu legado.

Uma multidão em fúria – cerca de 15 mil pessoas – apareceu no velório de Kahane e saiu às ruas gritando "morte aos árabes". A ira tomou conta dos simpatizantes do rabino, quebram lojas e espancaram árabes que passavam pelo local.

Binyamin, filho do rabino, fundou o movimento Kahane Vive, que acabou banido em 1992. Já o partido Kach foi considerado ilegal em 1994. Ambos foram impedidos de atuar por serem considerados organizações terroristas.

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Image caption Seguidores do rabino levaram fúria e violência ao funeral de Kahane em novembro de 1990 em Nova York

Binyamin e a esposa, Talia, foram mortos numa emboscada na Palestina em 2000.

Mas os seguidores do rabino continuaram a planejar atos violentos e, em 2001, o líder da Liga de Defesa Judaica dos EUA foi preso, acusado de construir bombas para atacar mesquitas na Califórnia.

Simpatizantes das ideias de Kahane se reorganizaram e, em 2013, fundaram o Poder Judeu (Otzma Yehudit), que defende os ensinamentos do rabino.

No entanto, o Poder Judeu sempre foi considerado uma legenda nanica em Israel. Nunca ganhou uma eleição nem parecia ter chances reais de ocupar uma cadeira no Legislativo – até agora.

'KKK israelense'

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Image caption Manifestante anti-Kahanista israelense segura uma placa em hebraico que diz para não colocar o racismo nas urnas

O recém-criado bloco União dos Partidos de Direita, que une o Poder Judeu, Casa Judaica e União Nacional, tem atraído desconfiança não apenas em Israel mas também no exterior.

O jornalista Barak Ravid afirma que a iniciativa de Netanyahu foi "projetada para colocar os equivalentes israelenses de David Duke no Knesset" – Duke é o ex-líder do movimento supremacista branco dos EUA, o Ku Klux Klan.

Batya Ungar-Sargon, editor de opinião do site judaico americano Forward, também compara os "kahanistas" à KKK. "Eles são os David Dukes e Richard Spencers do Estado Judeu. São pessoas que acreditam que a soberania judaica depende da opressão, limpeza étnica e até na morte da população árabe israelense", afirma.

As duas mais importantes organizações judaica-americanas, American Jewish Committee (AJC) e American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), têm dito que os pontos de vista do partido do Poder Judeu são "repreensíveis" e "não refletem os valores centrais nos próprios alicerces do Estado de Israel".

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Image caption Especialistas acreditam que bloco de partidos de direita vão pressionar para o governo expandir os assentamentos israelenses

No mês passado, a Suprema Corte de Israel impediu o líder do partido, Michael Bem-Ari, de concorrer nas eleições por comentários que foram considerados sendo uma "incitação ao racismo".

E, em seguida, Bezalel Smotrich, co-líder da coalização de partidos da ultradireita e autodeclarado "homofóbico com orgulho", começou a estabelecer condições para entrar na base de um possível novo governo Netanyahu.

Smotrich defendeu legislação permitindo que o parlamento anule as decisões da Suprema Corte.

O jogo do primeiro-ministro

Se esses partidos forem convidados para fazer parte do governo, é provável que a vida de Netanyahu fique mais difícil, afirma Reuven Hazan, professor de ciência política na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Para o professor, essas legendas podem demandar dinheiro para construir novos assentamentos israelenses, complicando ainda mais os planos para um acordo apoiado pelos EUA para a região, além de aumentar a pressão por mais financiamento religioso.

Mas o professor acredita que as ideias desses partidos são controversas o suficiente para mantê-los fora do governo – isso se o partido Likud, do primeiro-ministro, "entender que eles não podem pagar um preço tão alto para ter partidos extremistas" na coalizão.

"Netanyahu não está enamorado por completo pelos partidos de extrema direita. Mas, apesar de estar distante deles ideologicamente, matematicamente percebeu que tinha que fazer isso ou suas chances de formar um governo seria significativamente menor", explica o professor Hazan.

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Image caption Netanyahu, que enfrenta sérias acusações por corrupção, se aproximou da ultradireita durante a campanha de olho na reeleição

Para Noga Tarnopolsky, jornalista baseada em Jerusalém que cobre temas relacionados à disputa entre israelenses e palestinos, a União dos Partidos de Direita está no limiar eleitoral para conquistar assentos no parlamento e "não está claro que a aposta de Netanyahu vai compensar".

Ela explica que a decisão de Netanyahu de acalmar a ultradireita pode acabar afastando eleitores e aliados que, embora conservadoras, "não querem se associar a pessoas assim (como os militantes do Poder Judeu)".

"Há pessoas que mantêm posições de direita centradas na segurança israelense e que acreditam que Israel não deveria desistir da Cisjordânia, mas não querem ter nada a ver com pessoas racistas que acreditam que não-judeus não deveriam viver aqui", afirma Tarnopolsky.

Batalha por sobrevivência

Nas eleições do dia 9, estão em jogo 120 cadeiras do parlamento de Israel. De olho na reeleição, Netanyahu tem explorado a questão da segurança no país, exacerbando a polarização. Passou a classificar seus principais rivais, o partido centrista Azul e Branco, de "esquerdistas fracos".

Ao mesmo tempo em que aposta na radicalização do discurso, a campanha do primeiro-ministro tem se visto obrigada a se defender das acusações de corrupção que pesam sobre o governo e sobre Netanyahu.

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Image caption Nas disputadas eleições em Israel, estão em jogo 120 cadeiras no parlamento

"Ele (Netanyahu) percebeu que está numa batalha pela sobrevivência", avalia o professor Reuven Hazan.

A legislação Israelense permite que um primeiro-ministro seja indiciado por crimes durante o exercício do mandato. Mas a jornalista Noga Tarnopolsky acredita que Netanyahu vai tentar passar uma lei que mude isso.

No entanto, se ele vencer, muitos se questionam como ele vai atuar como primeiro ministro e, ao mesmo tempo, se defender nos tribunais.

"Ele está tratando sua reeleição como uma questão existencial", observa Tarnopolsky. Ela acrescenta que uma aliança fraca poderia trazer ainda mais instabilidade ao seu governo.

Ainda não se sabe, contudo, se partido Likud sairá vitorioso ou não tampouco se o novo guarda-chuva de partidos de direita chegará ao parlamento. Mas, ao dar oxigênio a legendas como Poder Judeu, a eleição em Israel sinaliza que a ultradireita inspirada nas ideias radicais do rabino Kahane está viva.

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