Rival reconhece vitória de Netanyahu, que irá para quinto mandato em Israel

Netanyahu em evento de campanha Direito de imagem EPA
Image caption Netanyahu poderá se tornar o político a ocupar o cargo de premiê por mais tempo na história israelense

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu provavelmente conquistará um quinto mandato, conforme apontam os resultados da eleição de Israel até agora.

A contagem dos votos só deve se encerrar de fato na quinta-feira, mas, com quase todas as urnas contabilizadas, seu principal rival, o ex-militar Benny Gantz, já admitiu a vitória de Netanyahu.

O partido do premiê, o Likud, terá provavelmente o mesmo número de assentos da aliança centrista Azul e Branco de Gantz. Mas Netanyahu, que é alvo de acusações de corrupção, e seus aliados de direita formarão o maior bloco do Parlamento, com 65 dos 120 assentos.

O primeiro-ministro, de 69 anos, irá para seu quarto mandato consecutivo. Ele ocupou o cargo entre junho de 1996 e julho de 1999. Depois, voltou ao poder em março de 2009 e não saiu mais.

Assim, ele poderá se tornar no fim deste ano o político de Israel que ocupou o cargo de primeiro-ministro por mais tempo, ultrapassando a marca anterior estabalecida pelo fundador e primeiro premiê do país, David Ben-Gurion, que governou entre maio de 1948 e janeiro de 1954 e, depois, entre novembro de 1955 e junho de 1963.

Netanyahu é, junto com o presidente americano, Donald Trump, um dos principais aliados internacionais do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PSL). Os dois se reuniram na semana passada em Israel, quando Bolsonaro anunciou a criação de um escritório comercial em Jerusalém - ele disse ainda ter planos de mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para a cidade, como prometeu durante a campanha eleitoral.

Decisão apertada

As pesquisas previam uma disputa acirrada entre Netanyahu e Gantz, sem que um partido obtivesse maioria no Parlamento. Historicamente, nenhuma legenda jamais conseguiu esta maioria sozinha, e sempre foi necessário formar governos de coalizão.

Sob a lei israelense, o presidente, Reuven Rivlin, consultará os partidos políticos antes de designar um candidato considerado mais capaz de formar um governo apoiado por uma maioria parlamentar. O processo pode levar várias semanas.

Netanyahu prometeu montar rapidamente uma coalizão com seus "parceiros naturais". Alguns analistas israelenses preveem que isso pode levar a um governo que impulsionará as políticas nacionalistas e conservadoras adotadas pela administração de Netanyahu até agora.

O premiê já celebrava sua vitória na noite de terça-feira. "Será um governo de direita, mas serei o primeiro-ministro de todos", disse Netanyahu a apoiadores.

"Estou muito emocionado, porque o povo de Israel me deu seu voto de confiança pela quinta vez e um voto de confiança ainda maior do que as eleições anteriores. Pretendo ser o primeiro ministro de todos os cidadãos de Israel. Direita, esquerda, judeus, não-judeus. Todos os cidadãos de Israel."

Como foi a campanha?

Netanyahu fez declarações duras sobre segurança antes da votação, e logo esta se tornou uma das principais questões desta eleição.

Ele também fez um anúncio importante nos últimos dias da campanha, indicando que anexaria os assentamentos judaicos na Cisjordânia, que são considerados ilegais pelo direito internacional, embora Israel conteste isso.

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Image caption Gantz representou a maior ameaça a Netanyahu em uma década no poder

Em outro ponto polêmico, políticos árabe-israelenses criticaram na terça-feira o Likud por enviar 1,2 mil observadores equipados com câmeras ocultas para locais de votação nas comunidades árabes.

A aliança árabe, a Hadash-Taal, disse que foi uma ação "ilegal" que tentou intimidar os árabes. O Likud afirmou que queria garantir que apenas "votos válidos" fossem dados.

Principal concorrente de Netanyahu, Gantz é um tenente-general aposentado de 59 anos. Como líder do partido Resiliência Israel, ele formou com as legendas Yesh Atid, do ex-ministro de Finanças Yair Lapid, e Telem, do ex-ministro de defesa Moshe Yaalon, a coalização Azul e Branco em fevereiro, prometendo unir um país que "perdeu seu rumo".

Ele contrapôs a postura dura de Netanyahu em relação à segurança e prometeu fazer política "mais limpa". Sua plataforma de campanha fez referências à "separação" dos palestinos, mas não mencionou especificamente que eles deveriam ter um Estado independente. Ele também pediu um controle contínuo sobre o Vale do Jordão e a manutenção dos assentamentos da Cisjordânia.

Quais são as acusações contra Netanyahu?

No fim de fevereiro, o procurador-geral Avichai Mandelblit informou a Netanyahu que pretendia indiciá-lo por suborno, fraude e quebra de confiança em relação a três casos, com uma audiência final ainda pendente.

Agora que a eleição acabou, as provas nestes casos devem ser entregues aos advogados das várias partes envolvidas.

O primeiro-ministro supostamente aceitou presentes de empresários ricos e distribuiu favores para tentar obter uma cobertura mais positiva da imprensa. Netanyahu negou qualquer irregularidade e disse ser vítima de uma "caça às bruxas" política.

Uma data para a audiência final, na qual ele e seus advogados poderão refutar as alegações, ainda não foi definida. Mandelblit disse que a Suprema Corte determinará se Netanyahu deve renunciar se for indiciado.

Há relatos de que o premiê tentará persuadir seus potenciais parceiros de coalizão a aprovar uma legislação que garanta a imunidade de primeiros-ministros enquanto estiverem no cargo.

O jornal Jerusalem Post informa que o Likud e outros quatro partidos aliados, que juntos controlarão 61 cadeiras no Parlamento, deixaram claro que não vão exigir que Netanyahu renuncie se ele for indiciado.

Por que Netanyahu venceu?

Apesar das acusações e a forte concorrência de uma aliança de centro-direita formada por três ex-generais, Netanyahu conseguiu mobilizar sua base de direita para conseguir os votos necessários.

Durante a campanha, o premiê disse que seus oponentes criariam um governo "esquerdista" com o apoio de partidos árabe-israelenses que permitiria a criação de um Estado palestino, o que, segundo ele, representaria uma "ameaça fatal para Israel".

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Image caption Netanyahu é um dos principais aliados internacionais do presidente Jair Bolsonaro

Ele reforçou suas credenciais para conduzir a política externa do país nas semanas que antecederam as eleições ao se encontrar com o presidente americano, Donald Trump, e o russo, Vladimir Putin, além de receber Bolsonaro.

Para atrair os eleitores mais radicais, Netanyahu se inclinou mais à direita ao prometer anexar os assentamentos na Cisjordânia, e, em um esforço final no dia da eleição, alertou incessantemente que seus oponentes poderiam vencer se seus apoiadores preferissem ficar em casa.

Tanto o partido de Gantz quanto o de Netanyahu garantiram 35 assentos no Parlamento cada um, mas, graças às suas alianças, o atual premiê está em clara vantagem para formar um governo de coalizão.

"É uma vitória confortável para Bibi", diz a jornalista Anshel Pfeffer, autora de uma biografia de Netanyahu. "Há um grande número de israelenses que acreditam que ele é o mais capaz de ser primeiro-ministro, de garantir sua segurança, apesar das acusações de corrupção."

No entanto, o desempenho de Gantz representou a mais séria ameaça a Netanyahu em uma década no poder, diz o correspondente da BBC para o Oriente Médio, Tom Bateman.

O presidente do Instituto Democracia Israel, um centro de estudos não partidário, destaca que, mesmo com a economia e a segurança nacional em uma boa fase, um novo político conseguiu se apresentar como uma alternativa legítima e competitiva ao partido que está no poder - e fez isso em questão de meses, partindo praticamente do zero.

"Ainda assim, o resultado representa um apoio renovado a Netanyahu, e esta eleição foi vista como um referendo de sua liderança e prioridades para a nação."

O que isso significa para o processo de paz?

Nas últimas semanas, houve tensões entre Israel e militantes palestinos na Faixa de Gaza, e os Estados Unidos, sob o comando de Trump, devem divulgar em breve um plano para tentar resolver o conflito de longa data.

No entanto, as possíveis formas de retomar um processo de paz moribundo não fizeram parte do debate eleitoral. Muitos israelenses parecem ter pouca esperança na antiga fórmula internacional para a paz - a "solução de dois Estados" - com a criação de um Estado palestino independente ao lado de Israel, a oeste do rio Jordão.

O Partido Trabalhista, que já foi dominante em Israel e selou um acordo de paz inovador com os palestinos nos anos 1990, conseguiu conquistar apenas seis assentos no Parlamento - seu pior desempenho de todos os tempos.

"A aliança Azul e Branco é o novo Partido Trabalhista", diz a ex-trabalhista Einat Wilf. "É um feito considerável."

O secretário-geral da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Saeb Erekat, tuitou uma visão pessimista das perspectivas de paz.

"O que os primeiros resultados sugerem é que os israelenses votaram para preservar o status quo, eles disseram não à paz e sim à ocupação quando apenas 14 dos 120 membros eleitos do parlamento israelense apoiam a solução dos dois Estados de 1967".


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