Ilhan Omar: a deputada muçulmana, Trump, o 11 de Setembro e a polêmica da vez nos EUA

Deputada Ilhan Omar em frente à bandeira americana Direito de imagem Getty Images
Image caption Segundo apoiadores da deputada Ilhan Omar, declarações dela compartilhadas por Trump foram retiradas de contexto

Um vídeo de 43 segundos postado pelo presidente Donald Trump no Twitter colocou a deputada democrata Ilhan Omar no centro de uma grande polêmica envolvendo os ataques de 11 de setembro e lhe renderam até o rótulo de "antiamericana".

O vídeo mostra cenas dos ataques combinadas com trechos de um discurso que ela fez e que, segundo colegas de partido, foi retirado de contexto.

"Algumas pessoas fizeram alguma coisa", é o que ela diz, entre uma imagem e outra de aviões atingindo as Torres Gêmeas e de pessoas fugindo dos prédios.

Junto ao vídeo, que até a manhã desta segunda-feira acumulava mais de 250 mil curtidas e havia sido retuitado quase 92 mil vezes, Trump postou "NÓS NUNCA ESQUECEREMOS!"

Republicanos acusaram a deputada de minimizar os ataques, mas democratas partiram amplamente em sua defesa. Alguns deles acusaram o presidente de incitar a violência contra ela e os muçulmanos.

Omar, por sua vez, disse que "não vai se calar".

A seguir veja como essa história ganhou corpo:

Quem é a deputada Ilhan Omar?

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Image caption Deputada diz estar sendo ameçada; ela vem sendo chamada por alguns compatriotas americanos de "terrorista" e antiamericana"

Omar ganhou assento na Câmara dos Representantes em novembro passado, ao se eleger por Minnesota, se tornando uma das duas primeiras mulheres muçulmanas já eleitas para o Congresso dos EUA.

Sua família chegou originalmente aos EUA como refugiada da Somália e ela é a primeira congressista a usar hijab - o véu de mulheres muçulmanas.

Apesar de ser novata em Washington, esta não é a primeira vez que Omar vira manchete.

Ela foi acusada de antissemitismo por comentários que fez sobre Israel e lobistas pró-Israel. Depois de ser repreendida no mês passado, inclusive por democratas, acabou pedindo desculpas e disse estar "ouvindo e aprendendo".

A deputada também alertou sobre a retórica antimuçulmana em torno dela, em resposta a um cartaz republicano que a exibia junto às Torres Gêmeas.

Na semana passada, a polícia prendeu um homem de 55 anos no Estado de Nova York por supostamente ligar para o escritório dela com uma clara ameaça de morte em que a teria rotulado de "terrorista".

O que ela disse?

O trecho do vídeo em que aparece dizendo "algumas pessoas fizeram alguma coisa" é de um discurso que Omar fez para um grupo de direitos civis, o Conselho de Relações Americano-Islâmicas (Cair, da sigla em inglês), em 23 de março.

No discurso de 20 minutos, ela abordou questões que afetam a comunidade, como a islamofobia e o recente ataque às mesquitas na Nova Zelândia.

Os comentários dela que são mostrados no vídeo de Trump foram retirados de um ponto em que ela ressaltou o tratamento dado aos muçulmanos nos EUA após os ataques de 11 de setembro de 2001:

"Aqui está a verdade. Nós temos vivido durante muito tempo com o desconforto de sermos cidadãos de segunda classe e, francamente, eu estou cansada disso, assim como todo muçulmano neste país deveria estar. O Cair foi fundado depois do 11 de setembro porque eles reconheceram que algumas pessoas fizeram alguma coisa e que todos nós estávamos começando a perder o acesso às nossas liberdades civis."

Depois que o jornal Washington Post fez a checagem da declaração para esclarecer que o Cair foi fundado, na verdade, em 1994, um porta-voz de Omar disse ao jornal que ela se enganou e quis dizer dizer que o tamanho da organização tinha dobrado após os ataques.

Como a briga ganhou corpo?

Seu discurso começou a chamar a atenção em 9 de abril, quando um clipe foi compartilhado pelo deputado republicano do Texas Dan Crenshaw, que o descreveu como "inacreditável".

A mídia conservadora, incluindo a Fox News, começou então a abordar a história em profundidade.

Ronna McDaniel, presidente do Comitê Nacional Republicano, descreveu a deputada como "anti-americana".

Omar respondeu chamando alguns dos comentários de "incitação perigosa, pelas ameaças de morte que eu enfrento" e comparando comentários feitos por ela aos que foram feitos pelo ex-presidente George Bush.

Na quinta-feira, o jornal New York Post publicou uma imagem do ataque na capa, juntamente com o trecho do discurso da deputada em que diz que "algumas pessoas fizeram algo" e estampando a manchete "Aqui está o seu algo", sobre a foto das torres gêmeas em chamas.

A capa gerou reações divergentes. Alguns a elogiaram nas redes sociais, mas outros criticaram duramente o uso de imagem do ataque de 11 de setembro.

Então, na sexta-feira, o presidente Trump postou o vídeo de Omar. O tuíte com o vídeo foi compartilhado dezenas de milhares de vezes.

Qual foi a resposta?

Muitos usuários da rede social responderam com a hashtag #IStandWithIlhan (que, em tradução literal, quer dizer "Eu estou com Ilhan") - que chegou a ficar entre as mais usadas mundialmente no Twitter sexta-feira.

A CNN usou o vídeo em debates, mas o apresentador Chris Cuomo se desculpou por veiculá-lo. A apresentadora da rede de TV MSNBC Joy Reid se recusou a exibi-lo.

Diversos democratas de alto escalão, incluindo muitos candidatos à candidatura presidencial de 2020, criticaram Trump e defenderam Omar.

Elizabeth Warren acusou o presidente de "incitar a violência contra a congressista".

Bernie Sanders chamou os episódios de "ataques repugnantes e perigosos" contra a deputada Omar.

Os senadores Amy Klobuchar e Kamala Harris acusaram Trump de disseminar o ódio.

Kirsten Gillibrand não chegou a defender os comentários de Ilhan Omar, mas chamou a retórica de Trump de "repugnante".

Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados, disse que Trump errou em usar as imagens, mas também afirmou que Omar desdenhou dos ataques.

Uma resposta a Pelosi, da diretora de cinema e crítica frequente de Trump, Ava DuVernay, que disse que o comentário feito por Pelosi "não era suficiente", foi curtido milhares de vezes.

Rashida Tlaib, a outra deputada muçulmana no Congresso, e a também democrata Alexandria Ocasio-Cortez, pediram aos outros congressistas do partido que não ficassem em silêncio e manifestassem seu apoio a Amar.

Respondendo diretamente em uma série de tuítes no sábado, a deputada Omar agradeceu às pessoas pelo apoio e afirmou que "não concorreu ao Congresso para ficar calada".

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