Avicii: os últimos anos de DJ morto em 2018 que mudou a indústria da música eletrônica

Avicii luta para passar por meio dos fãs Direito de imagem BBC THREE
Image caption Um ano após a morte de Avicii, saúde mental se tornou um tema central na indústria da música eletrônica

É 2006 e em um quarto na capital sueca, Estocolmo, um adolescente loiro chamado Tim Bergling come fast food e joga videogames com seus amigos. Ele cresceu em uma comunidade muito unida em sua cidade natal. A vida é boa, e todos os amigos concordam: Tim é um garoto doce e tímido com um alegre senso de descoberta.

Como muitos jovens da sua idade, esse senso se estende à música. Ele ama os números de dança technicolor de Daft Punk, Swedish House Mafia e Eric Prydz. Curioso sobre esse pop eletrônico de alta energia, ele começa a fazer suas próprias batidas e percebe que tem talento para melodias cativantes. Depois de enviar essas músicas para grandes figuras do ramo como Laidback Luke, que ama o que ouve, sua vida muda para sempre.

Apenas cinco anos depois, aos 21 anos, Tim Bergling é conhecido mundialmente como Avicii - o DJ e produtor superstar, uma marca que vale milhões, e o rosto instantaneamente reconhecível de um gênero explosivo. Quando ele é perguntado: "Você fez isso?" durante uma entrevista de bastidores na TV, age de maneira humilde. "Acho que você conseguiu", continuou o apresentador de TV sorridente. Tim sorri de volta e apenas diz: "Você acha? Tudo bem, que bom."

Avicii dominou os anos 2010 com faixas como Levels, Wake Me Up e Sunshine, abrindo caminho para uma nova era de colaborações intergêneros com grandes nomes como os super DJs David Guetta e Tiesto, além de Nile Rodgers, Coldplay e Madonna, que falavam com carinho desse jovem entusiasmado.

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Image caption Avicii dominou os anos 2010 com faixas como Levels, Wake Me Up e Sunshine

Ele tomou conta das paradas: sua música de 2013 Wake Me Up era (na época) a música mais transmitida da história do Spotify. Entre 2012 e 2016, Avicii ganhou quase US$ 90 milhões. Em meados de 2018, seu catálogo de músicas atingiu 1,7 bilhão de reproduções em serviços de streaming (áudio e vídeo) e ele vendeu 11,6 milhões de faixas de música pela internet.

O EDM - Electronic Dance Music - é um híbrido de house francês, techno americano e rave britânico que se desenvolveu num estilo de pop eletrônico, inspirando-se no ethos do PLUR (Peace Love Unity Respect). Um fenômeno global da década de 2010, o EDM gerou uma apropriação cultural de festivais americanos antes dedicados exclusivamente ao rock, hip hop e pop, e se tornou uma indústria multibilionária por si só - o Ultra Music Festival, em Miami, e o Electric Daisy Carnival, em Las Vegas, tiveram uma participação combinada de mais de meio milhão de pessoas em 2018.

DJs no mundo EDM são comparáveis, em termos de riqueza e fama, a jogadores de basquete e atores de Hollywood - muitos se tornaram superstars ricos, alguns ganhando mais de US$ 30 a 40 mihões por ano. Com fãs apaixonados, grandes recompensas financeiras e o estilo de vida extravagante que vem com essa fama, não é surpresa que muitos jovens DJs desejem se juntar a essa poderosa liga de celebridades. Nesse cenário, poucos pregavam o amor e o respeito dentro e fora do mundo da EDM como Avicii - mas o preço pessoal que ele pagava por tal sucesso global era enorme.

Depois de tocar centenas de shows e desenvolver problemas relacionados à ansiedade e ao abuso de álcool, Avicii foi hospitalizado durante uma turnê na Austrália em 2014. Diagnosticado com pancreatite aguda, que teria sido causada por excesso de bebida, ele fez uma cirurgia para remover a vesícula biliar e recebeu um coquetel de medicamentos, incluindo o viciante opióide Percocet.

Depois de mais dois anos initerruptos de turnê, lutando com dor física, pressão emocional e dependência de drogas prescritas, Avicii anunciou sua aposentadoria em 2016 e saiu dos holofotes para se concentrar em um novo capítulo de sua vida, mais pacífico e dedicado à composição.

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Image caption Avicii foi hospitalizado durante uma turnê na Austrália em 2014 e foi diagnosticado com pancreatite aguda

Algo poderia ter sido feito?

Infelizmente, este novo capítulo nunca foi escrito. Em abril de 2018, Avicii foi encontrado morto em seu quarto de hotel em Muscat, Omã. Na época, sua família deu uma declaração emotiva à imprensa: "Ele não poderia continuar por mais tempo. Ele queria encontrar a paz." A causa da morte foi mais tarde confirmada como suicídio. Ele tinha apenas 28 anos. A morte de Avicii abalou a cena global de EDM e perguntas começaram a ser feitas: como ninguém reconheceu a dor dessa figura tão pública? A própria indústria da dance music foi responsável pela morte? E o que poderia ter sido feito para salvar sua vida?

As pistas são fornecidas no filme Avicii: True Stories, que acompanha o DJ durante seus últimos anos de vida. Como em grande parte de sua carreira, ele tinha uma visão clara sobre o filme e o viu como uma extensão de seu legado criativo, financiando-o parcialmente e aprovando seu lançamento antes de sua morte. O diretor Levan Tsikurishvili trabalhou em estreita colaboração com ele, com acesso dentro e fora do palco. Ao lado da euforia inebriante de seus shows, vemos a confusão de Avicii enquanto ele está em uma cama de hospital, com sua saúde seriamente comprometida pela vida de DJ.

"Todo mundo conhece Avicii, mas poucas pessoas conhecem Tim", disse Levan na época do lançamento original do filme, em 2017. "Ser um artista superstar mundial não é tão fácil quanto parece no Instagram." Avicii também usou o filme para jogar luz sobre como ele achava que a indústria da dance music tratava do bem-estar físico e mental dos artistas - algo que, segundo fontes, está mudando desde sua morte.

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Image caption Músicas de Avicii tomaram conta das paradas nos começo dos anos 2010

Em 2016, a organização Help Musicians UK publicou um relatório intitulado "Can Music Make You Sick?" (A música pode te deixar doente?, em tradução livre) e os resultados foram alarmantes: mais de 71% dos músicos entrevistados sofreram de ansiedade ou tiveram ataques de pânico, e 68,5% disseram ter problemas com depressão.

Na dance music, "a morte de Avicii levou a saúde mental para os holofotes", diz Tristan Hunt, da Associação de Música Eletrônica (AFEM, na sigla em inglês). Posteriormente, a saúde mental e o bem-estar foram os principais tópicos das conferências Amsterdam Dance Event (ADE) e International Music Summit (IMS), em 2018.

Realizada anualmente, a ADE e a IMS são os mais prestigiados eventos internacionais da indústria da dance music, e seus discursos principais podem definir o tom do debate para o próximo ano. Durante a palestra principal na IMS, Pete Tong, disc jockey da BBC Radio 1, falou sobre Avicii. "Nós [os DJs] não deveríamos morrer perseguindo nosso sonho", lamenta. "Nos meus 40 anos ao redor do mundo da dance music, não consigo pensar em uma única pessoa que tenha alcançado sucesso e não tenha pago um preço pessoal por meio da saúde, relacionamentos, divórcio, lares desfeitos, vício, depressão e ansiedade."

É uma conversa que está acontecendo também no cenário underground da dance music, não apenas em Ibiza. Em Tottenham, no norte de Londres, a casa de techno The Cause atua em conjunto com a instituição de saúde mental Mind e a organização de combate do suicídio masculino CALM, dividindo seus lucros e usando sua programação para aumentar a conscientização sobre esses problemas.

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Image caption Avicii escreve carta para fã para explicar aposentadoria; ele falou de seus problemas de saúde mental ao anunciar decisão

Em uma entrevista, o co-fundador do The Cause, Stuart Glen, citou a história de Avicii como um exemplo de como a indústria da dance music pode exacerbar uma doença. "A indústria é trabalho duro", ele diz, "com muitas madrugadas insones e pressões sociais. Isso pode colocar muita pressão sobre as pessoas. Avicii é um excelente exemplo, um homem no topo da carreira, que por fora parecia ter tudo, mas claramente precisava de ajuda."

Diagnóstico e tratamento

Um momento revelador em Avicii: True Stories começa logo após sua primeira hospitalização em 2014. Recebendo a notícia dos médicos de que sentirá uma dor considerável, Avicii e sua equipe discutem como continuar a turnê mundial apesar do diagnóstico. Depois de receber alta do hospital, ele é encaminhado para o próximo compromisso. Como ele visivelmente luta contra os efeitos da medicação, um membro de sua equipe pergunta se faria algumas entrevistas por telefone naquela tarde - eles precisam promover seu próximo show. Um Avicii aparentemente exausto olha pela janela, com dificuldades para acompanhar a conversa, mas concorda com as entrevistas.

Clare Scivier é uma ex-gerente de artistas que deixou a indústria musical britânica em 1997 para se tornar uma psicóloga comportamental, trabalhando em estreita colaboração com gravadoras e empresas de gestão para abordar questões relacionadas ao bem-estar dos músicos.

"Temos visto casos recentes em que deveria haver mais conscientização", disse ao site de notícias dos Emirados Árabes Unidos The National, em 2018. "E isso se resume à falta de educação. Agora talvez precisemos discutir um plano de longo prazo para um artista."

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Image caption Ao longo do filme, Avicii aparece em momentos de exaustão

Quando Avicii anunciou sua aposentadoria, foi aberto com os fãs sobre seus problemas. "Eu sei que sou abençoado por viajar ao redor do mundo e me apresentar", ele escreveu em seu site em 2016, "mas muito pouco sobra para a vida da pessoa real por trás do artista… Meu caminho foi preenchido com sucesso, mas não chegou sem seus solavancos".

Antes de fazer esse anúncio, Avicii é visto no filme viajando e gravando músicas com seus amigos ao redor dos EUA. Em um momento de silêncio no ônibus da turnê, ele fala sobre o que aprendeu com o trabalho do psicanalista Carl Jung. Em particular, sobre como diferentes personalidades são mais adequadas para diferentes tipos de situações e relacionamentos. Ele diz que isso o fez perceber que é um introvertido - odeia conversa fiada, mas "sofreu" para manter as aparências em uma indústria cheia de relacionamentos periféricos. Ele agora está em paz com o fato de que não pode mais fingir ser um extrovertido.

O estilo de vida festeiro que caracteriza a indústria da dance music é descrito como a causa de um conflito entre a personalidade original de Avicii e a personalidade do DJ superstar que ele achava que esperavam dele.

Estrelato x bem-estar

Falando com a Associated Press após a morte do amigo, o produtor e guitarrista Nile Rodgers - que teve uma estreita relação musical e pessoal com Avicii - refletiu sobre a perda do artista que chamava de seu "irmãozinho". Enquanto prestava homenagem ao talento do DJ, que considerou "um dos maiores escritores natos de melodias com quem já trabalhei", a memória de sua última apresentação juntos - cerca de três anos antes da entrevista - foi prejudicada pelo hábito de bebida de Avicii.

"Foi um pouco triste para mim porque ele me prometeu que ele iria parar de beber, e quando eu o vi naquela noite ele estava bêbado. E eu fiquei tipo 'Ei, cara, vamos lá. O que você está fazendo? O que você está fazendo? Você disse que isso tinha acabado'", lembrou Nile. "Nós fizemos o show e eu fiquei um pouco chateado. Eu nem sequer fiquei por perto para ver o show dele porque estava partindo meu coração. Mas nós ainda nos divertimos muito. Foi maravilhoso - nós éramos muito próximos."

Em uma entrevista pouco antes do lançamento do filme, o próprio Avicii disse que não tinha prazer em assistir a outros músicos tocando, muito menos vontade de compor ou tocar suas próprias melodias. "Eu ainda estou traumatizado", admitiu.

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Image caption "Tim foi tão honesto sobre si mesmo", diz diretor de documentário sobre Avicii

É um dos muitos momentos em Avicii: True Stories que mostra a luta entre o estrelato e o bem-estar, e como Avicii foi aberto sobre sua vida durante as filmagens. "Tim foi tão honesto sobre si mesmo", diz Levan. "Todos nós, de uma forma ou de outra, queremos compartilhar as histórias sobre quem somos e de onde viemos."

No primeiro aniversário de sua morte, a história da Avicii começará um novo capítulo. Continuando seu trabalho filantrópico - que durante sua vida doou milhões para organizações que combatem a pobreza e a Aids - a família Bergling lançará neste mês a The Tim Bergling Foundation, uma organização dedicada à prevenção do suicídio e ao combate de doenças mentais.

Em uma declaração pública, a família escreveu: "Tim queria fazer a diferença - começar uma fundação em seu nome é a maneira de honrar sua memória e continuar a agir em seu espírito". Por meio do filme, tanto fãs quanto pessoas que desconhecem sua trajetória podem vir a conhecer seu espírito.

No futuro, a indústria de EDM pode aprender lições com a morte desse jovem tímido e talentoso, que ajudou a transformar o gênero.

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*Este artigo é baseado no documentário Avicii: True Stories, que conta a história de Tim Bergling. Feito a partir de imagens de arquivo e gravações de bastidores, o filme retrata a vida do DJ sob sua própria perspectiva.

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