Akihito, o imperador que tentou curar cicatrizes da guerra e humanizou trono do Japão

Akihito em 1990. Direito de imagem AFP
Image caption Akihito, um pacifista convicto, adotou uma postura mais humanizada durante 30 anos de reinado e tentou curar feridas deixadas pelo pai

Na semana passada, numa bela manhã de primavera, eu estava parado numa esquina na região oeste dos arredores de Tóquio. Em todas as direções, por centenas de metros, observava rostos ansiosos.

Foi quando, de repente, uma enorme limusine preta acompanhada por motocicletas em ambos os lados se aproximou por uma ponte. Quando o carro passou, foi possível avistar, por um breve momento, o imperador japonês Akihito e a imperatriz Michiko, acenando de dentro do carro.

Pouco depois, ouvi uma onda de aplausos e vi bandeiras de plástico sendo balançadas pela multidão. Akihito e Michiko já tinham passado.

Para mim, tudo pareceu meio decepcionante. E não fui a único a sentir isso.

Uma senhora estava reclamando com um policial. "Por que eles passaram tão rápido?", questionou. "Normalmente eles dirigem bem mais devagar. A gente mal pode vê-los", lamentou. O policial sorriu pacientemente. Ele não tinha controle da velocidade da comitiva.

Eu esperava ver centenas de fãs mais entusiasmados na última visita oficial do casal aos túmulos imperiais – depois de 30 anos no poder, Akihito abdicou nesta terça-feira ao trono do Japão em favor do filho Naruhito, em uma cerimônia histórica no Palácio Imperial, em Tóquio.

Mas cerca de 5 mil pessoas foram ao evento. Muitos choravam; aos poucos, a multidão se dispersou.

"Eu sou muito grata pelo que eles fizeram para o povo japonês", disse uma mulher que vestia um belo quimono primaveril. "Eu acenei pra eles com uma enorme gratidão por todos esses anos".

"Eu estou emocionada", disse a amiga dela. "Espero que possam descansar e ter paz depois de tantos anos de serviço".

Kaoru Sugiyama, com um enorme chapéu de verão, também foi ao último evento do imperador japonês com um grupo de amigos.

"Não sou de uma geração que experimentou a guerra, mas quando olhamos para trás, foi o imperador que manteve a paz no Japão durante seu reinado. Então, eu queria vir e vê-lo na última visita, para mostrar minha gratidão. Queria dizer a ele: obrigada."

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Image caption Muitos choraram ao ver o imperador Akihito no último compromisso oficial antes de abdicar ao trono

Mas o que imperador Akihito fez no Japão para despertar esses sentimentos?

Em janeiro de 1989, Akihito chegou ao trono de Crisântemo, após a morte de seu pai.

Eram tempos de otimismo no Japão. O país estava no auge do boom econômico do pós-guerra. A Sony estava prestes a comprar a Columbia Pictures e a Mitsubishi a arrematar o Rockefeller Center em Nova York.

Grande parte do mundo via o Japão como a nova "superpotência".

Mas, após um ano de reinado, Akihito viu o país mergulhar numa profunda crise. A bolha de ativos estourou e a bolsa de valores de Tóquio entrou em colapso, desvalorizando em 35%. Quase 30 anos depois, as ações e preços de terras continuam abaixo dos níveis registrados em 1990.

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Image caption Imperador Akihito e imperatriz Michiko foram, num gesto inédito para a família real japonesa, falar com vítimas do terremoto e tsunami que atingiram o Japão em 2011

Para muitos japoneses, a era Heisei, palavra que significa "atingindo a paz", foi uma de estagnação econômica. Também foi uma marcada por tragédias.

Em janeiro de 1995, um terremoto de magnitude de 6.9 varreu a cidade de Kobe, derrubando prédios e viadutos da autoestrada e causando incêndio que duraram dias, tornando negro o céu acima da cidade. Cerca de 6 mil pessoas morreram.

Em 2011, um terremoto ainda mais devastador atingiu a costa noroeste japonesa. Dessa vez, de magnitude 9, o quarto mais forte terremoto já registrado. O terremoto provocou um tsunami gigante, que causou um rastro de destruição em várias cidades e matou cerca de 16 mil pessoas.

Após o segundo desastre, o imperador japonês fez algo que nenhum ocupante do trono havia feito antes: se sentou em frente uma câmera de televisão e falou diretamente ao povo.

Duas semanas depois, o imperador e a imperatriz chegaram a um centro para desabrigados, em um estádio nos arredores de Tóquio.

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Image caption Hirohito e o então príncipe Akihito lendo o jornal

As pessoas estavam acampadas no chão, com poucos pertences empilhados em volta deles. A maioria havia fugido da nuvem de radiação da usina nuclear de Fukushima, que ficou comprometida com o terremoto.

Eram pessoas que haviam deixado quase tudo para trás, incertos de quando, ou se, seriam capazes de retornar a suas cidades natais. O imperador e a imperatriz se ajoelhavam no chão com cada família, conversando com eles em voz baixa, fazendo perguntas, expressando preocupação.

Os japoneses jamais viram um imperador agir assim.

Os mais conservadores ficaram em choque. Não era como o descendente direto do deus do sol Amaterasu deveria se comportar, diziam eles. Mas muitos outros japoneses ficaram profundamente comovidos com a demonstração pública, e muito humana, de empatia.

"Ele tinha autoridade moral", explica o professor Jeff Kingston, da Universidade Temple, em Tóquio. "E ele ganhou isso. Ele era o chefe que dava o consolo. Ele conecta com o público de uma forma que o pai dele jamais foi capaz", diz Kingston.

"Quando vai aos abrigos, não é como um político em busca da oportunidade de tirar uma foto, de acenar e partir. Ele senta com as pessoas, bebe chá e se envolve em conversas de uma forma que era inimaginável na era pré-1945."

Os 'pecados' do pai

O imperador Akihito não tem aparência de revolucionário. Ele é franzino, modesto e tem fala macia.

Suas palavras e ações são fortemente limitadas pela Constituição pós-guerra do Japão e, ao contrário da rainha Elizabeth 2ª, do Reino Unido, ele não é o chefe de Estado do Japão.

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Image caption Michiko é a principal companheira e assessora do imperador japonês

Seu papel é bem mais vago e definido como "símbolo de um estado e da unidade do povo". Ele é proibido de expressar qualquer opinião política.

E mesmo preso ao seu papel cerimonial, Akihito conseguiu fazer algumas coisas notáveis.

A primeira coisa que é preciso lembrar é que Akihito é o filho de Hirohito, o imperador tido como um deus no Japão durante os quase 15 anos em que o país, sob seu comando, ocupou grande parte da Ásia, nos anos 1930 e 1940. Akihito tinha 12 anos quando a Segunda Guerra terminou, após as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Em algum momento de sua formação - alguns dizem que sob a influência da tutora norte-americana Elizabeth Gray Vining -, Akihito se transformou num pacifista convicto. E permanece assim até hoje. Ele diz a pessoas mais velhas que a maior alegria dele vem de saber que durante seu reinado nenhum soldado japonês morreu numa guerra ou conflito armado.

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Image caption O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe tem posições diferentes das que o imperador Akihito defende

O imperador assumiu o papel de se aproximar de ex-inimigos e vítimas do Japão. De Pequim a Jacarta, de Manila (Filipinas) a Saipan (nas Ilhas Marianas do Norte, dos EUA), ele procurou curar as feridas abertas pelo pai dele.

"Ele criou um novo papel para o imperador, e foi o principal emissário da nação pela reconciliação, cruzando a região, fazendo gestos de compensação e pedindo desculpas. Basicamente, tentando curar as cicatrizes do passado da guerra", diz Kingston.

Nos anos 1990s, esse comportamento não causava controvérsias. Políticos japoneses até encorajavam o imperador, organizando uma histórica viagem à China em 1992.

Mas à medida que ele envelhecia, a política japonesa foi dando uma guinada à direita.

A velha "diplomacia da desculpa" caiu em desuso, assim como o pacifismo.

O atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, prometeu livrar o Japão de sua Constituição pacifista. Ele e outros políticos de direita querem trazer de volta a educação patriótica e por um fim ao que chamam de "masoquismo histórico" do pós-guerra.

De forma sutil, mas determinada, o imperador Akihito tem, reiteradamente, demonstrado desdém com revisionistas. Em 2015, no aniversário de 70 anos do fim da guerra, o primeiro-ministro fez um discurso, em que, segundo Kingston, "basicamente disse que a paz e a prosperidade que desfrutamos hoje se deve ao sacrifício dos três milhões de japoneses que morreram na guerra".

"No próximo dia, Akihito respondeu, com um discurso dizendo que a prosperidade que desfrutamos hoje se deve ao trabalho duro e sacrifício do povo japonês após a guerra".

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Image caption Imperatriz Michiko se casou com Akihito em abril de 1959

Para milhões de pessoas assistindo à TV, foi uma dura reprimenda.

Em outra ocasião, numa festa no jardim real em Tóquio, um integrante de direita do governo metropolitano de Tóquio disse com orgulho ao imperador que era o responsável por garantir que todos os professores ficassem de pé e olhassem para a bandeira enquanto cantavam o hino nacional.

O imperador gentilmente advertiu o burocrata de forma enfática. "Sou a favor da escolha individual", disse ele.

A longa despedida

Durante seu reinado, Akihito sempre teve ao seu lado sua companheira e principal conselheira, a imperatriz Michiko. Ela nasceu plebeia e, às vezes, achou a vida na casa imperial extremamente difícil. Em 1993, a imperatriz entrou em colapso por exaustão mental e, por dois meses, perdeu a capacidade de falar.

Num texto recente, ela falou sobre sua admiração pela determinação do marido.

"Seus deveres exigem prioridade todo o tempo e questões pessoais sempre ocupam o segundo lugar", escreveu ela. "E é exatamente assim que ele viveu esses quase 60 anos".

Mas há algum tempo, a saúde do imperador Akihito tem ficado cada vez mais frágil. Ele teve câncer e foi submetido a uma cirurgia cardíaca importante. Os mais próximos dizem que ele teme cada vez mais que a saúde debilitada o incapacite e impossibilite de desempenhar suas funções oficiais.

Desde 2009, o imperador vinha articulando nos bastidores para que pudesse passar o trono a seu filho. Não foi uma tarefa fácil.

A Constituição pós-guerra do Japão deixa claro que imperadores devem servir a vida toda. Segundo Takeshi Hara, da Universidade Aberta do Japão, os políticos ignoraram os pedidos do imperador.

"Durante nove anos, nenhum dos governos mostrou simpatia com os sentimentos do imperador", diz Hara. "Eles achavam que, se aceitassem o desejo do imperador de abdicar (ao trono), estariam dando um sinal de que o imperador tem poder para tomar decisões importantes, e isso é contra a Constituição."

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Image caption Prestes a assumir o trono: príncipe Naruhito e a princesa Masako com o cão Yuri

Foi uma questão complicada, bem japonesa. Hara diz que, cada vez mais desesperada, a corte imperial teve de armar um esquema.

"O imperador e a Agência Imperial estavam ficando cada vez mais impacientes", diz ele. "Foi quando alguém da Agência vazou a informação para a NHK (emissora nacional do Japão). A NHK então deu a notícia sobre o pedido do imperador."

Foi um grande furo jornalístico da emissora e acabou quebrando o impasse. Um mês depois, o imperador foi à televisão para fazer um apelo direto ao povo japonês, explicando seu desejo de deixar o trono para o filho.

Pesquisas de opinião mostraram que a esmagadora maioria dos japoneses apoiava o desejo do imperador.

Abe e os conservadores não tiveram escolha senão aceitar. Demorou quase dois anos, mas agora o imperador Akihito finalmente poderá desfrutar de sua aposentadoria.

Aos 85 anos de idade, ele recebeu permissão para abdicar depois de dizer que se sentia incapaz de cumprir seu papel por causa de sua idade e saúde em declínio. Ele é o primeiro monarca japonês a se afastar do cargo em mais de 200 anos.

'Paz e prosperidade'

O país começará oficialmente uma nova era em 1º de maio, quando o príncipe herdeiro Naruhito ascenderá ao trono do Crisântemo como novo imperador.

Em seu último discurso público como imperador, nesta terça-feira, Akihito entregou os símbolos do poder e agradeceu ao público por seu apoio durante seu reinado.

Pela manhã, ele participou de uma cerimônia xintoísta – crença religiosa que surgiu no Japão, formada por uma série de lendas e mitos que explicam a origem do mundo – para relatar seus planos aos ancestrais mitológicos da família imperial do Japão.

A principal "cerimônia de abdicação" ocorreu em um salão do Palácio Imperial, diante de cerca de 300 pessoas, incluindo o primeiro-ministro Shinzo Abe, o príncipe herdeiro Naruhito e a princesa herdeira Masako.

Numa breve cerimônia, o primeiro ministro Shinzo Abe dirigiu-se ao imperador, dizendo: "Mantendo em nossos corações o caminho que o imperador tem percorrido, faremos os maiores esforços para criar um futuro brilhante para um Japão cheio de paz e esperança. "

Em seu discurso final, Akihito, vestindo um casaco matinal ao estilo ocidental, disse que "desejava ao Japão e ao mundo paz e prosperidade".

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