Liberdade de imprensa: 'A luta por justiça depois do assassinato de minha mãe'

Daphne Caruana Galizia em 2011 Direito de imagem Reuters
Image caption Daphne Caruana Galizia publicou relatórios contundentes alegando corrupção do primeiro-ministro

Uma vez a cada alguns meses preciso sentar em um sala com a pessoa que está investigando o assassinato da minha mãe. Nossa família o viu pela primeira vez há seis anos, quando ele veio a nossa casa para prendê-la.

Minha mãe havia publicado uma postagem em seu blog sobre um candidato a primeiro-ministro no dia da eleição em Malta, e um dos apoiadores desse candidato fez um boletim de ocorrência.

Foi quando o investigador foi enviado a nossa casa no meio da noite, com um mandado para prendê-la pelo crime que só pode ser chamado de "expressão ilegal".

Eu estava trabalhando do outro lado do mundo e as pessoas me enviavam vídeos dela sendo liberada da delegacia às 01:30, vestindo uma camisa do meu pai.

Algumas horas depois, ela estava novamente online, escrevendo sobre esse abuso em seu site, dividida entre zombar das inseguranças do novo primeiro-ministro e ridicularizar sua própria aparência.

"Peço desculpas por estar numa bagunça total, mas quando o esquadrão de homicídios aparece à noite na sua casa para te prender...escovar o cabelo, passar pó e blush e encontrar algumas roupas atraentes são a última coisa na sua cabeça", ela escreveu.

Agora, o mesmo investigador que prendeu minha mãe naquela noite se vê encarregado da investigação de seu assassinato.

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Image caption Matthew quando criança com sua mãe, Daphne

No dia em que foi morta, em 16 de outubro de 2017, minha mãe, Daphne Caruana Galizia, dirigiu até o banco para retomar o controle de sua conta, que havia sido congelada a pedido de um ministro do governo.

Ela havia acabado de completar 53 anos e estava no auge de sua carreira de 30 anos como jornalista.

Meio quilo de explosivos embalados em um dispositivo que estava sob o assento do seu carro foi detonado remotamente.

Apoiadores do governo celebraram abertamente o assassinato, o que me lembrou das cenas de comemoração com tiros ao ar na Turquia, após o assassinato do jornalista turco-armênio Hrant Dink.

Outros insinuaram que eu mesmo planejara o assassinato de minha mãe, ou que ela havia arriscado sua vida de bom grado - a mesma calúnia que se repetiu em relação a James Foley, o correspondente americano que foi sequestrado e decapitado na Síria.

O assassinato de Daphne Caruana Galizia

  • Outubro de 2017: a jornalista investigativa Daphne Caruana Galizia é morta por um carro-bomba em Bidnija, Malta
  • O primeiro-ministro Joseph Muscat descreve o assassinato como "bárbaro". A família barra líderes de Malta no funeral
  • Dezembro de 2017: três homens são presos e promotores investigam a possibilidade de que o crime fora cometido por assassinos de aluguel
  • Julho de 2018: inquérito organizado pelo governo maltês e chefiado por um magistrado livra o primeiro-ministro e sua esposa de acusações de corrupção alegadas por Daphne Caruana Galizia
  • Agosto de 2018: família de Daphne Caruana Galizia exige um inquérito público completo, para verificar se Malta poderia ter impedido sua morte

Por que esses assassinatos importam tanto?

"O livre fluxo de fatos e opiniões, a atuação e o trabalho de jornalistas, criam sociedades mais justas e livres", meu irmão disse em uma reunião com diplomatas europeus, enquanto ainda nos recuperávamos de nossa perda.

"Isso cria sociedades mais ricas e mais resilientes: em outras palavras, sociedades em que vale a pena viver."

Depois do assassinato de nossa mãe, nossa única luz foi a demonstração efusão de apoio, remorso, tristeza e pesar vindos de todos os tipos de pessoas.

Isso me surpreendeu e trouxe à mente algo que um amigo me disse uma vez: "Boas pessoas estão em toda parte; você precisa encontrá-las".

O desejo de viver em uma sociedade que é livre e aberta, onde a lei é a mesma para todos e os direitos humanos são respeitados, é universal. Mas como acontece com a maioria dos desejos, ele oscila.

Muitas vezes é tarde demais quando percebemos que algumas pessoas más - que, como doenças humanas, sempre estarão por perto - assumiram o controle.

A tarefa que meus irmãos, meu pai e eu estabelecemos para nós mesmos desde o assassinato de nossa mãe é enorme: conseguir justiça por seu assassinato, justiça por suas investigações e garantir que nada disso aconteça novamente.

Agora há pouco tempo para qualquer outra coisa.

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Image caption Matthew (esq.) e seu irmão estão lutando por justiça em nome de sua mãe

Na minha família, às vezes conversamos sobre a pouca paciência que temos para a inação e a indiferença dos outros, especialmente daqueles em posições de autoridade.

Achamos difícil não atacar seu cinismo e sua preguiça.

Os filhos do jornalista investigativo turco Ugur Mumcu me disseram que, depois que seu pai foi assassinado com um carro-bomba, o chefe de polícia desculpou-se por seu fracasso ao investigar o caso dizendo: "Não podemos fazer nada, há uma parede à nossa frente."

A resposta de sua mãe foi: "Então tire um tijolo, depois outro, até derrubar a parede inteira".

Isso é o que temos feito desde que nossa mãe foi assassinada.

Meu princípio guia no início era fazermos nosso melhor, independentemente do que viesse. Agora acho que o processo é quase tão importante quanto nossos objetivos.

Estamos forçando uma mudança cultural e gerando mais respeito pela liberdade de expressão pelo simples ato de pressionar o Estado a cumprir seu dever e fazer justiça.

Nós nos unimos a outros que estão erradicando a doença da "falta de liberdade" e ensinando ao mundo um novo respeito pelos direitos humanos no processo.

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Image caption Um protesto pedindo por justiça depois do assassinato da jornalista de Malta Daphne Caruana Galizia

"A liberdade começa com a liberdade de consciência", nos disse o escritor Yameen Rasheed cinco dias antes de ser esfaqueado até a morte do lado de fora de sua casa, nas Maldivas, em 2017.

"Sem essa liberdade fundamental da mente, o que você faria com as outras liberdades?"

Como o de minha mãe, seu assassinato mostrou que não havia respeito por essas liberdades em nossos países.

Não cabe apenas a nós, os que ficaram para trás, assumir a luta pela liberdade: os membros da família, namoradas, namorados e amigos de jornalistas assassinados e presos.

Essa grande responsabilidade caiu sobre nossos ombros, mas não podemos carregá-la sozinhos. Precisamos de pessoas boas de todos os lugares para se juntar a nós.

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

  • O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa foi estabelecido pela ONU em 1993 e é comemorado em 3 de maio de cada ano
  • O tema para 2019 é jornalismo e eleições em tempos de desinformação
  • O objetivo da data é celebrar, defender e avaliar o estado da liberdade de imprensa em todo o mundo, além de prestar homenagem aos jornalistas que morreram no cumprimento de seu dever
  • No ano passado, 95 jornalistas e profissionais da mídia morreram em assassinatos dirigidos, atentados a bomba ou incidentes de fogo cruzado, de acordo com a Federação Internacional de Jornalistas.

Eu sei que há mais de nós. Lembre-se que o colunista saudita Jamal Khashoggi era amado por pessoas de todos os lugares.

Foi apenas uma pessoa que o odiou o suficiente para matá-lo.

Em todos esses assassinatos, incluindo o de minha mãe, há pouco ou nenhum indício de que o Estado esteja fazendo um esforço significativo para condenar as pessoas responsáveis.

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Image caption O jornalista saudita Jamal Khashoggi foi morto em outubro de 2018

Então, começamos removendo o primeiro tijolo: exigir que Malta lance um inquérito público para descobrir o que deu errado na prevenção do assassinato de sua jornalista mais importante.

Depois, vamos passar para o próximo tijolo.

Todos os dias, desejo que minha mãe nunca tivesse feito esse sacrifício em nome de seu país - preferiria que ela ainda estivesse viva.

Mas como Khadija Ismailova, um jornalista azeri cuja prisão foi descrita como "ultrajante" por grupos de direitos humanos, disse: "se realmente amamos, queremos que nossos entes queridos sejam quem são. E é isso que Daphne era - uma lutadora e heroína".

O que minha mãe nunca saberá é que sua morte inspirou milhares de atos de heroísmo em Malta e além.

E gosto de pensar que cada um desses atos, de uma forma ou de outra, protegeu outros jornalistas corajosos de ter o mesmo destino que ela.

*Sobre este texto

Matthew Caruana Galizia é jornalista investigativo e filho da jornalista Daphne Caruana Galizia, que foi morta em outubro de 2017. Você pode segui-lo no Twitter aqui.

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