A democracia liberal está obsoleta, como diz Putin?

Vladimir Putin na cúpula do G20 no Japão em junho de 2019 Direito de imagem EPA
Image caption Putin: 'O ideal liberal entrou em conflito com os interesses da esmagadora maioria da população'

O presidente russo, Vladimir Putin, acredita que o liberalismo "se tornou obsoleto" e afirmou que ideiais liberais sobre refugiados, imigração e questões LGBTs são agora combatidas pela "maioria esmagadora da população".

Até mesmo algumas potências ocidentais admitiram em âmbito privado que o multiculturalismo "não é mais sustentável", disse ele ao jornal britânico Financial Times.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, foi um dos que criticaram seus comentários.

"Quem afirma que a democracia liberal está obsoleta também afirma que as liberdades inidividuais estão obsoletas, que o Estado de Direito está obsoleto e que os direitos humanos estão obsoletos."

Então, por que Putin está dizendo isso agora?

O que é liberalismo

Antes de mais nada: o que define o liberalismo? É complicado determinar isso, porque o termo significa coisas diferentes para pessoas diferentes - mas, em linhas gerais, há três definições.

Há o liberalismo econômico, que, de acordo com o dicionário Merriam-Webster, enfatiza a "livre concorrência" e o "mercado auto-regulado" -, e está associado à globalização e a menos intervenção estatal na economia.

Há o liberalismo político, que o mesmo dicionário define como "baseado na crença no progresso, na bondade essencial da raça humana e na autonomia do indivíduo e na defesa da liberdade política e civil".

E há o liberalismo social, que, de acordo com a Enciclopédia Britânica, está ligado à proteção de grupos minoritários e à promoção de questões como os direitos LGBTs e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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Image caption Putin defende que o multiculturalismo 'não é mais sustentável'

O termo "liberal" também é usado por alguns com sentido pejorativo - embora, novamente, seu significado varie.

Nesse caso, Putin criticou a abordagem de alguns governos ocidentais e mencionou especificamente questões de imigração, multiculturalismo e LGBTs - por isso, ele parece estar se concentrando no liberalismo social e político.

Ele não é o único líder mundial que também não gosta do termo - o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, disse especificamente que quer criar um "estado iliberal" porque acredita que sistemas autoritários, como os da China e da Rússia, funcionam melhor que as democracias liberais ocidentais.

O liberalismo está obsoleto?

O liberalismo era visto como a "norma" em muitos países até recentemente. O Financial Times o descreveu como "a ideologia ocidental dominante desde o fim da Segunda Guerra Mundial".

No entanto, muitas pessoas acreditam que pode estar em declínio - como evidenciado pelo apoio à saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, ou apoio a líderes populistas, incluindo Donald Trump, nos Estados Unidos, ou Matteo Salvini, na Itália.

"Claramente, o tipo de ordem liberal que tivemos até 2008 está em apuros", diz Michael Cox, professor de Relações Internacionais da London School of Economics, à BBC.

Ele diz que a desaceleração financeira em 2008 foi um "grande ponto de virada", e a globalização e o fato de que "foi permitido ao mercado determinar tudo" também trouxeram "questões maiores de identidade e cultura, com pessoas sentindo que seus países não eram mais delas".

Mas ele argumenta que, em geral, "ainda vivemos numa economia global liberal", e "a maioria dos países do mundo são democracias liberais, não autoritárias" - embora ele acredite que o liberalismo precise resolver problemas como a estagnação salarial e perda de um senso de comunidade.

Putin está certo sobre a imigração?

Putin disse que a chanceler alemã, Angela Merkel, cometeu um "erro crucial" ao permitir a entrada de mais de um milhão de refugiados, principalmente da Síria.

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Image caption Para Putin, Angela Merkel, cometeu um 'erro crucial' ao permitir a entrada de mais de um milhão de refugiados

"Essa ideia liberal pressupõe que nada precisa ser feito. Que os imigrantes podem matar, saquear e estuprar com impunidade, porque seus direitos têm de ser protegidos. Isso entrou em conflito com os interesses da maioria esmagadora da população", disse ele.

Pesquisas de opinião pública indicam uma situação com mais nuances. Segundo o instituto de pesquisa Pew, dos Estados Unidos, a maioria das pessoas nos países da União Europeia pesquisados ​​- incluindo Alemanha, Suécia, França, Reino Unido, Grécia e Itália - defende receber refugiados que fogem da violência e da guerra - embora a Polônia e a Hungria sejam exceções.

Outra pesquisa mostra que a maioria das pessoas nos países que recebem mais imigrantes os vêem como algo que os fortalece, e não como um fardo.

No entanto, a maioria em muitos dos mesmos países - incluindo Alemanha, Suécia e Grécia - também acredita que os imigrantes aumentam o risco de terrorismo ou crime. E, em todos os países europeus que o Pew pesquisou, foi desaprovada a forma como a União Europeia lidou com a questão dos refugiados.

Parece que há muita insatisfação com o establishment político da UE - e algumas questões práticas relacionadas à imigração - mas a maioria dos entrevistados ainda apoia, em princípio, receber refugiados.

E quanto a questões LGBTs?

Putin também disse que os governos liberais gostavam de "ditar" valores LGBT e que "as milhões de pessoas que compõem a maioria da população principal" se opunham a isso.

"Não temos problemas com pessoas LGBTs, mas algumas coisas parecem excessivas para nós. Eles alegam agora que as crianças podem desempenhar cinco papéis de gênero", disse Putin.

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Image caption Governos liberais gostavam de 'ditar' valores LGBTs, disse o presidente russo

A opinião pública sobre questões LGBTs varia bastante dependendo de país para país. Por exemplo, um estudo do Pew descobriu que a maioria dos europeus ocidentais é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto a maioria dos europeus da Europa Central e do Leste Europeu se opõem.

Enquanto isso, uma pesquisa do instituto Ipsos Mori em 16 países, incluindo França, Alemanha, Reino Unido, Hungria, Polônia, Itália, Espanha e Estados Unidos, descobriu que a maioria acha que as pessoas devem ter o direito de "se vestir e viver de acordo com um gênero diferente do seu sexo biológico".

A pesquisa também mostrou que "uma grande maioria das pessoas em todo o mundo gostaria que seu país fizesse mais para apoiar e proteger transexuais" - embora a Hungria e a Polônia estejam entre as exceções.

Os partidos liberais estão perdendo para os populistas?

Depende. A situação em geral é meio confusa. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, partidos populistas e nacionalistas se saíram bem na Itália, na França e na Hungria, mas tiveram um desempenho pior do que o esperado em outros países, como Dinamarca e Alemanha.

No Reino Unido, o Partido Brexit conquistou o maior número de assentos - mas, no geral, os partidos anti-Brexit tiveram uma maior votação do que os pró-Brexit.

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Image caption O Partido Brexit, de Nigel Farage, conquistou o maior número de assentos no Parlamento Europeu no Reino Unido

Houve um aumento no apoio dos eleitores a partidos de direita e populistas em muitos países - inclusive na Espanha, Itália, Áustria e Hungria. Mas outros países resistiram à tendência - incluindo a Eslováquia, que elegeu uma presidente liberal, Zuzana Caputova, em março.

A Escandinávia também parece ter seguido um padrão diferente - com Dinamarca, Suécia e Finlândia elegendo governos de esquerda no ano passado.

A ascensão do populismo "é um fenômeno - ninguém pode duvidar disso", diz Cox. "Mas a ideia do populismo tomando conta de toda a Europa e do mundo é exagerada, eu acho."

Por que Putin está dizendo isso agora?

"A posição de Putin é de que a Rússia tem um tipo específico e diferente de civilização, onde a soberania se sobrepõe à democracia, e a unidade nacional e a estabilidade estão acima do Estado de Direito e os direitos humanos", diz Cox.

"Não é de surpreender que ele não goste do liberalismo ao estilo ocidental, que ele vê como um desafio ao seu estilo de governo. Mais amplamente, ele também está tentando enviar a mensagem de que existe uma alternativa ao modelo democrático de sociedade, de estilo liberal e capitalista."

Todos os líderes, é claro, têm interesse em propagar suas visões de mundo - e falar tudo isso logo antes da cúpula do G20, num momento em que os sistemas liberais estão sob pressão, é provavelmente o melhor momento para Putin convencer os outros de que ele está certo.

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