O rio onde milhares de imigrantes arriscam a vida em busca do sonho americano

Imigrantes cruzam o Rio Grande Direito de imagem AFP
Image caption Rio Grande tornou-se um símbolo da crise migratória que assola os EUA

Na segunda-feira (01/07), uma menina brasileira desapareceu ao tentar atravessar o Rio Grande, na fronteira entre México e Estados Unidos, ao lado da mãe. Uma semana antes, os corpos de um pai e sua filha, de apenas 23 meses, foram encontrados às margens do mesmo rio, depois de tentarem cruzar as águas rumo a território americano.

Esses e outros casos transformaram o rio em símbolos da crise migratória que assola os Estados Unidos. A Patrulha de Fronteira americana diz ter feito 593.507 detenções na divisa sul do país desde outubro de 2018. No ano fiscal anterior, esse número havia sido de 303.916.

Com tantos incidentes, o presidente do México Andrés Manuel López Obrador alertou sobre os perigos das jornadas ilegais em uma declaração recente, descrevendo as mortes como "muito lamentáveis".

"As pessoas estão perdendo suas vidas, no deserto ou cruzando o Rio Grande; nós sempre condenados [esse comportamento] e não o desejamos."

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Image caption Oscar Ramirez e sua filha Valeria morreram ao tentar cruzar o Rio Grande

No ano passado, 283 pessoas morreram na fronteira dos EUA com o México, entre incidentes no Rio Grande e no deserto que fica na parte oeste da divisa. Desde 1994, 10 mil pessoas perderam a vida tentando completar o trajeto, segundo o grupo Anjos da Fronteira.

Aumento do fluxo

Números recentes indicam que o Rio Grande, que nasce no Estado americano do Colorado e segue até o Golfo do México, está se tornando o roteiro mais popular entre os imigrantes ilegais, ultrapassando o deserto.

Conhecido como Rio Bravo entre os mexicanos, ele é o quinto mais longo da América do Norte, e o 20º mais longo do mundo. São 3.000 km de extensão, dos quais 2.000 km passam pelos limites entre os dois países.

Do começo do ano até julho, a área do rio recebeu o maior volume de imigrantes na fronteira sul dos EUA, registrando quase 250 mil detenções - um crescimento de 124% na comparação com o mesmo período de 2018, de acordo com o Serviço de Alfândegas e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos.

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Image caption No ano passado, 283 pessoas morreram na fronteira dos EUA com o México

Outros dados, divulgados pelo jornal The New York Times, indicam um aumento do número de salvamentos em suas águas. De outubro de 2018 a julho deste ano, agentes de patrulha resgataram pelo menos 315 imigrantes numa extensão de 336 km - contra 12 no mesmo período do ano anterior.

Pessoas que tentavam a travessia disseram em entrevista ao veículo americano que foram convencidas por atravessadores e outros migrantes de que o rio era a alternativa mais rápida e menos complicada até os EUA, porque o trajeto pode demorar apenas cinco ou dez minutos. Em Piedras Negras, uma das cidades mexicanas que ficam às suas margens, por exemplo, a distância até o território americano é de 36 metros.

Ainda segundo os entrevistados, esta seria uma opção mais fácil do que a entrada legal, endurecida pelo presidente americano Donald Trump.

Anunciado no começo de junho, um acordo entre Estados Unidos e México prevê que muitos dos imigrantes que cruzarem a fronteira americana pelo México e pedirem asilo nos EUA aguardarão o resultado do processo em território mexicano. Antes, eles poderiam esperar do lado estadunidense.

O prefeito de Piedras Negras, Claudio Bres Garza, confirmou em entrevista ao jornal britânico The Guardian que o Rio Grande está recebendo mais imigrantes do que antes, principalmente famílias provenientes da América Central.

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Image caption Pessoas que tentavam a travessia dizem que foram convencidas de que o rio era a alternativa mais rápida e menos complicada até os EUA

"Vi as fotos do pai afogado ao lado da filha hoje de manhã. Nunca vi nada assim. Mais de oito crianças se afogaram no rio neste ano. É uma loucura", disse.

Também ao The Guardian, a agente da polícia federal local Claudia Hernandéz falou que as correntezas e redemoinhos do Rio Grande, desconhecidos dos imigrantes, contribuem para a multiplicação de desaparecimentos.

"O rio é traiçoeiro e as pessoas que não são daqui não sabem disso. Eu cresci aqui ao longo do rio Río Bravo (Rio Grande) e não entraria naquela água nem para tomar banho ou nadar. Há fervedouros e redemoinhos e quando a corrente leva você, pode puxá-lo para baixo e você não voltará a superfície. Eu estive de guarda no rio nos últimos dois meses e é muito triste ver tantos pais arriscando suas vidas com seus filhos. Isso acontece o tempo todo."

Centros superlotados

Além dos acidentes de travessia, a região do Vale do Rio Grande, no sul do Texas, ficou conhecida nos últimos meses pela superlotação e más condições em seus centros de detenção de migrantes.

Nesta terça-feira, imagens divulgadas pelo Departamento de Segurança Nacional mostram centros lotados, com imigrantes amontoados numa estrutura semelhante a uma jaula na cidade de McAllen. Em outra foto, 88 homens estão detidos em uma cela em Brownsville, enquanto as próprias autoridades americanas afirmaram que a capacidade do espaço é de apenas 41 pessoas.

Em junho, durante a visita dos representantes do governo norte-americano, havia 8 mil detidos na região.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem pressionado parlamentares para aprovar novas leis sobre pedidos de asilo, em uma tentativa de estancar a crise. Na semana passada, o Congresso americano aprovou um orçamento de US$ 4,6 bilhões destinados à atividades na fronteira do México. O dinheiro será investido nas instalações ao longo da divisa, para melhorar os alojamentos.

Tolerância zero

Tudo isso acontece em meio a uma política de menor tolerância à imigração por parte do governo americano. Nos últimos dois anos, Trump pôs em prática diversas medidas restritivas, tanto contra migrantes irregulares como contra refugiados.

A medida mais controversa até agora é separação de crianças migrantes de seus pais e sua detenção em centros específicos, como parte de uma política de "tolerância zero" contra a migração ilegal.

"As crianças estavam famintas, sujas, doentes, assustadas e todas as que eu entrevistei estavam detidas por mais do que as 72 horas limitadas por lei. As crianças não tinham acesso a sabão para lavar as mãos. A maioria não tomava banho havia semanas, desde que cruzaram as fronteiras. (...) Suas roupas estavam sujas de fluidos humanos, de catarro e muco. Suas calças tinham urina", disse na ocasião a advogada Elora Mukherjee, diretora da Clínica de Direito dos Imigrantes da Escola de Direito Universidade Columbia.

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