Como a jovem ativista Greta Thunberg se tornou alvo de batalha ideológica

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Image caption Desde que se tornou protagonista do combate às mudanças climáticas, jovem ativista vem dividindo opiniões, tornando-se o mais novo alvo da onda de informações falsas que circula nas redes sociais

Ela é jovem, branca e nasceu em um dos países mais desenvolvidos do mundo, a Suécia.

Desde que se tornou protagonista do combate às mudanças climáticas, a ativista Greta Thunberg, de 16 anos, vem dividindo opiniões.

Também se tornou o mais novo alvo da onda de informações falsas que circula nas redes sociais. Muitos desses boatos e ataques importados de outros países chegaram inclusive ao Brasil.

O filho do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, foi um dos que aderiram à campanha de desinformação contra Greta, publicando em seu Twitter uma imagem em que ela faz uma refeição em um trem enquanto é observada por crianças africanas do lado de fora. Trata-se de uma montagem.

Além disso, o deputado também afirmou que a menina é financiada pelo bilionário húngaro-americano George Soros, vilanizado por movimentos de direita. Não há nenhuma evidência de que essa relação exista.

Outros boatos dizem que ela seria inclusive neta do filantropo. Uma imagem mostra os dois juntos. Mas o registro é falso. Na imagem original, Greta posa ao lado do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, paladino em prol da defesa do meio ambiente.

"Como você deve ter notado, os 'haters' estão mais ativos do que nunca: eles me perseguem, criticam minha aparência, minhas roupas, meu comportamento e minhas diferenças. Eles criam todas as teorias imagináveis de mentira e conspiração", escreveu Greta aos seus 2,3 milhões de seguidores no Twitter.

E não são poucos os que criticam a adolescente por ter se tornado porta-voz da juventude mundial ao pedir aos governos que implementem medidas para combater as mudanças climáticas.

Até seus cabelos loiros e tranças têm sido associados por alguns à estética "nazista".

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Image caption Manifestações pelo clima ocorreram em mais de 100 países do mundo

Resposta de Trump

Greta viralizou após fazer um discurso carregado de emoção um dia antes da cúpula climática da ONU.

De fato, as redes sociais exalam admiração, mas também rechaçam a ativista.

Uma das principais figuras a zombar de Greta foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Um tuíte em tom irônico dizia: "Ela parece uma jovem muito feliz com um futuro brilhante e maravilhoso pela frente. Foi muito bom vê-la!" (Greta Thunberg usou a frase em sua biografia de Twitter por alguns dias).

O discurso da adolescente não teve um tom feliz ou agradável.

Sua honestidade brutal é outra coisa que incomoda.

"Como você se atreve?" Essa foi uma das frases-chave de Greta na ONU que deu a volta ao mundo.

Mas ela não se limitou a dizer apenas isso.

"Honestamente, não entendo por que os adultos escolhem passar o tempo zombando e ameaçando adolescentes e crianças por destacar os argumentos da ciência, quando poderiam fazer algo bom. Acho que eles devem se sentir muito ameaçados por nós".

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Image caption "Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias", disse Greta na ONU

Bastidores

Outra das críticas mais comuns que a ativista recebe atualmente se refere à mídia e ao grupo econômico que a lançou à fama mundial.

Uma reportagem investigativa do jornal britânico The Times revelou que, por trás de Thunberg, existem diversas empresas, principalmente especializadas em lobby, acadêmicos e até um think tank fundado por um ex-ministro da Suécia "ligado às empresas de energia do país".

"Essas empresas estão se preparando para a maior bonança de contratos governamentais da história: o esverdeamento das economias ocidentais. Greta, quer ela ou seus pais queiram ou não, é o rosto de sua estratégia política", escreveu o jornal.

Segundo o The Times, Greta não é apenas uma adolescente preocupada com o mundo deixado por adultos e com a inação dos governos.

A reportagem afirma que existem poderosos interesses econômicos por trás dela e algumas empresas cujo modelo de negócios é produzir energia sem combustíveis fósseis, coletando milhões de subsídios do governo.

Sendo assim, não causa surpresa que Greta seja descrita como uma "marionete" nas redes sociais.

A ideia de fazer greve escolar toda sexta-feira, a que milhões de adolescentes aderiram em todo o mundo, pode não ter partido deles. Várias fontes citadas pelo The Times a atribuem a Ingmar Rentzhog, o fundador da plataforma social We Don't Have Time ("Não temos tempo").

Um lema que Thunberg usou incansavelmente.

Essa mesma plataforma também serviu para movimentar o debate e explica por que a voz do ativista ressoou em todo o mundo, enquanto as dos povos indígenas foram sistematicamente silenciadas.

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Image caption "Como se atrevem". Essa foi uma das frases-chave de Greta na ONU

'Discurso que não é novo'

Somente no México, 30 ativistas ambientais foram mortos entre 2018 e 2019, segundo dados da Infobae.

Alberto Curamil é um "lonko" ou autoridade tradicional Mapuche. Ele recebeu o Prêmio Ambiental Goldman por sua campanha contra a construção de duas usinas hidrelétricas no rio Cautín.

"É preciso deixar claro que esse discurso incomoda a direita por causa da ameaça de seus negócios. Mas o que Greta diz tampouco é novo", diz o deputado chileno Diego Ibáñez.

Em entrevista a um jornal local, o parlamentar lembrou que o fenômeno Greta tem relevância na mídia "porque vem do mundo europeu e encontra certos cânones que são acionáveis pela mídia".

Mas "o que Greta diz é o que o povo mapuche e os povos indígenas da América Latina vêm dizendo por mais de 200 anos".

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Image caption Mais de 1 milhão de crianças e adolescentes em todo mundo se uniram para protestar contra as mudanças climáticas

'Muito apocalíptico'

Além disso, não há poucas vozes que acusam a ativista de promover um discurso extremamente catastrófico.

"Eu não quero que vocês tenham esperança, quero que vocês entrem em pânico", disse Greta no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, em janeiro deste ano.

"Não me escutem, escutem os cientistas!", repetiu incansavelmente.

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Image caption Adolescente acusou líderes mundiais de omissão diante das mudanças climáticas

E o que ela disse em seu discurso na sessão inaugural da cúpula da ONU é que estamos nos aproximando de uma "extinção em massa" e que quase não há espaço para reverter as consequências da crise climática.

"Estamos enfrentando a sexta extinção em massa e a taxa de extinção é 10 mil vezes mais rápida que o normal", disse Greta.

Mas alguns críticos, como o colunista David Aaronovitch, do The Times, dizem acreditar que essas alegações são excessivas.

"Quando analisamos o que Thunberg diz e o comparamos com o que a ciência diz, concluímos que ela exagera", diz ele.

"Mesmo o último relatório sombrio do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (da ONU) sobre o impacto das mudanças climáticas no nível do mar não sugere tamanha destruição."

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Image caption Alberto Curamil é um "lonko" ou autoridade tradicional Mapuche; ele recebeu o Prêmio Ambiental Goldman por sua campanha contra a construção de duas usinas hidrelétricas no rio Cautín

No entanto, muitos dos relatórios científicos mais recentes refletem alarmismo no ritmo das mudanças climáticas provocadas pela ação humana.

O mesmo painel intergovernamental disse em julho que "para impedir que o aumento da temperatura do planeta exceda 1,5 graus Celsius em relação à era pré-industrial, será necessário reduzir as emissões globais de dióxido de carbono em 45% até 2030". E as etapas decisivas devem ser tomadas nos próximos 18 meses.

Quando o jornalista David Wallace-Wells, que escreve sobre mudanças climáticas para a revista americana New York, perguntou por que Greta se sentia otimista, ela respondeu: "Pelo que vi durante o último ano, durante o último mês. Nunca sonhei que algo assim aconteceria. Acho que ninguém havia previsto. Então penso: há esperança. "

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Image caption As emissões de CO2 devem cair 45% até 2030 para evitar os efeitos mais catastróficos das mudanças climáticas, de acordo com o IPCC

Apesar de tudo, Greta Thunberg não parece estar preocupado se é ou não popular.

"Me preocupo com a justiça climática e o planeta vivo".

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