'Quid pro quo': A expressão medieval que hoje domina a discussão de impeachment nos EUA

Donald Trump, em 4 de outubro Direito de imagem EPA
Image caption Trump diz que não prometeu ajuda militar à Ucrânia em troca de investigações contra seu rival Joe Biden

"Não houve nenhum quid pro quo" é uma das frases mais repetidas pelo presidente americano Donald Trump nas últimas semanas, desde que veio a público o telefonema realizado entre ele e seu par ucraniano.

A expressão, que significa "algo dado a uma pessoa em troca de outra coisa" (na definição do dicionário de Cambridge), vem do latim e acabou ganhando um significado um pouco diferente na língua portuguesa, e o motivo disso você descobrirá ao final desta reportagem. Nos EUA, enquanto isso, essa expressão está no centro do debate em torno do pedido de impeachment que a oposição democrata abriu contra Trump.

No telefonema entre Trump e Volodymyr Zelensky, em 25 de julho, segundo documento divulgado pela própria Casa Branca, Trump pede que o presidente ucraniano "dê uma olhada" no suposto envolvimento da família de Joe Biden (pré-candidato democrata nas eleições presidenciais do ano que vem) em casos de corrupção na Ucrânia.

Trump também admitiu ter retido quase US$ 400 milhões em auxílio militar a Kiev alguns dias antes de sua conversa com Zelensky, mas negou que isso fosse para pressioná-lo — e sim para forçar a "Europa e outros países a também contribuírem" com o governo ucraniano.

Assim, quando afirma que "não houve nenhum quid pro quo", Trump defende que não usou a ajuda militar para pressionar o governo ucraniano a investigar Biden.

Mas essa linha de argumento foi colocada em xeque no último dia 3 de outubro, quando vieram à tona mensagens que indicam que alguns dos diplomatas americanos envolvidos com a Ucrânia temiam que houvesse, justamente, um "toma lá dá cá" na relação com o governo de Kiev.

No mesmo dia da ligação entre Trump e Zelensky, o então enviado especial do Departamento de Estado americano à Ucrânia, Kurt Volker, afirmou a um assessor de Zelensky:

—"Bom almoço, obrigado. Tive retorno da Casa Branca — presumindo que o Presidente Z convença Trump de que vai investigar/"chegar ao fundo do que ocorreu em 2016" (aparente referência ao ano em que um procurador-geral ucraniano foi expulso, sob pressão de Biden), vamos decidir uma data para uma visita a Washington".

A conversa foi tornada pública em 3 de outubro pelo próprio Congresso americano, junto a uma troca de mensagens de 1º de setembro entre Bill Taylor, diplomata de alto escalão na Ucrânia, e Gordon Sondland, embaixador americano na União Europeia:

—"Estamos agora dizendo que assistência de segurança e reuniões com a WH [sigla de Casa Branca] estão condicionadas a investigações?", disse Taylor em mensagem de texto a Sondland.

Depois, no dia 9 de setembro, o mesmo Taylor disse a Sondland:

—"Como disse por telefone, acho que é uma loucura reter ajuda de segurança (em aparente referência aos quase US$ 400 milhões de ajuda militar retidos à Ucrânia) em troca de ajuda com uma campanha política".

Sondland respondeu:

—"Bill, acho que você está incorreto quanto às intenções do presidente Trump. O presidente foi claríssimo sobre nenhum quid pro quo de nenhum tipo. O presidente está tentando avaliar se a Ucrânia vai realmente adotar as reformas e a transparência que o presidente Zelensky prometeu durante sua campanha e sugiro que nós paremos essa ida e vinda de textos".

Direito de imagem Reuters
Image caption Alguns democratas têm dito que não é necessário um "toma lá dá cá" explícito para dar continuidade ao processo de impeachment

'Interesse da nação'

Trump tem afirmado que essa mensagem de Sondland deixa claro que não houve quid pro quo entre ele e Zelensky. Do outro lado, democratas têm dito que a ação do presidente visava a interferência de um país estrangeiro no pleito do ano que vem, com potenciais ganhos eleitorais para o republicano. Como exemplo disso, críticos afirmam que Trump pedia, no telefonema, que Zelensky lidasse com seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, no referente às investigações sobre Biden, e não pelos canais diplomáticos tradicionais.

"Alguém acha que esse telefonema era do interesse da nação, ou do interesse pessoal e político do presidente?", afirmou em setembro o senador democrata Chuck Schumer.

Além disso, alguns democratas têm dito que não é necessário um "toma lá dá cá" explícito para dar continuidade ao processo de impeachment.

"O governo argumenta que o documento (em referência ao memorando do telefonema entre Trump e Zelensky) não contém um quid pro quo explícito. Não é preciso que haja esse 'quid pro quo' explícito para quebrar o juramento (presidencial) e a lei, quando você próprio conduziu o 'quid pro quo' e reteve ajuda militar", afirmou no plenário da Câmara dos Representantes o deputado democrata Sean Patrick Maloney.

Muitos republicanos, porém, mantiveram a defesa de Trump. "Uau. Pedido de impeachment por causa disso?", afirmou pelo Twitter o senador republicano Lindsay Graham quando a Casa Branca divulgou o memorando sobre o telefonema de 25 de julho. "Que (ausência de) quid pro quo. Os democratas perderam a cabeça no que se refere ao presidente Donald Trump."

Agora, os comitês da Câmara de Representantes envolvidos no inquérito do impeachment estão emitindo intimações para oficiais da Casa Branca e do Pentágono, em busca de informações relacionadas à retenção da ajuda militar à Ucrânia - que evidenciem, ou não, o possível quid pro quo.

Em português, quiprocó: uma confusão farmacêutica

A expressão latina vem da era medieval e originalmente se escrevia qui pro quo, o que ajuda a explicar por que na língua portuguesa acabou se transformando na palavra "quiprocó", diz à BBC News Brasil José Rodrigues Seabra Filho, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Só que, em português, a palavra tem um significado diferente: em vez de significar "dar-se algo em troca de outra coisa", como no original latino, significa, segundo o Houaiss, "equívoco que consiste em tomar-se uma coisa por outra; confusão criada por esse equívoco: 'o fato de serem gêmeos gerou um enorme quiprocó'".

Como o "toma lá dá cá" original virou uma "confusão"?

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Image caption Quando antigos boticários não tinham um ingrediente medicinal, recorriam ao livro 'Quid pro quo' para encontrar equivalentes; erros e confusões decorrentes dessa prática parecem estar por trás da versão aportuguesada 'quiprocó'

O serviço de dúvidas da língua portuguesa do Instituto Universitário de Lisboa cita uma explicação: os boticários, que eram os antigos farmacêuticos, nem sempre tinham em mãos os componentes necessários para produzir os medicamentos receitados pelos médicos.

Na ausência desses componentes, recorriam a um livro chamado Quid pro quo, que era basicamente um livro com equivalentes medicinais que pudessem substituir os ingredientes em falta.

Um dicionário datado de 1720 diz, segundo o instituto lisboeta, que "quando os boticários não têm uma droga, acham nele (livro) outra para porém em seu lugar. Daí veio o dizer 'livre-nos Deus de um quid pro quo, porque às vezes há erros nas drogas e, em lugar de (remédio), os boticários dão um veneno".

Ou seja, o quid pro quo às vezes levava a confusões cometidas em remédios, com desfechos pouco agradáveis.

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