Muito velho para ser presidente? O debate em torno da idade dos candidatos à Casa Branca

O presidente americano Donald Trump discursa, em frente a um microfone Direito de imagem AFP
Image caption Donald Trump tinha 70 anos quando venceu a eleição de 2016 e agora tem 73

A pouco mais de um ano das eleições de novembro de 2020, uma questão tem dominado a campanha presidencial nos Estados Unidos: a idade dos candidatos.

Do lado democrata, as pesquisas de intenção de voto para escolher o candidato oficial do partido são lideradas pelo ex-vice-presidente Joe Biden, de 76 anos, o senador Bernie Sanders, de 78, e a senadora Elizabeth Warren, de 70.

Caso um deles seja eleito à Presidência, será a pessoa mais velha a chegar à Casa Branca para um primeiro mandato. O detentor do recorde é o atual presidente, o republicano Donald Trump, que tinha 70 anos quando venceu a eleição de 2016 e agora, aos 73, busca um segundo mandato.

O debate ganhou força no início deste mês, quando Sanders sofreu um ataque cardíaco durante a campanha e teve de ser submetido a uma cirugia para colocação de dois stents em uma artéria.

De um lado, há os que questionam a capacidade física e mental de septuagenários para desempenhar o que é considerado um dos empregos mais difíceis do mundo, comandar o governo dos Estados Unidos.

Mas críticos dizem que o foco na idade revela preconceito contra pessoas mais velhas, e afirmam que o importante são as propostas e posições políticas dos candidatos. Dizem ainda que o simples fato de Biden, Sanders e Warren enfrentarem a rotina frenética da campanha mostra que estão preparados física e mentalmente para os desafios da presidência.

"Há uma ideia de que pessoas mais velhas são membros menos viáveis da sociedade, que não podem mais contribuir. Uma crença de que, passando dos 65 anos, as pessoas se tornam mentalmente incompetentes ", diz à BBC News Brasil o historiador James Chappel, professor da Duke University, na Carolina do Norte.

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Image caption Os democratas Bernie Sanders, de 78 anos, Joe Biden, de 76, Elizabeth Warren, 70, são pré-candidatos à presidência

Segundo Chappel, que estuda questões relacionadas a idade e envelhecimento, pessoas mais velhas são mais capazes e adaptáveis do que indicam os preconceitos e estereótipos. "Na minha experiência, e também como mostram estudos, pessoas com 70 anos têm ótima memória, às vezes melhor do que pessoas mais jovens", afirma.

Experiência ou nova geração

Um candidato precisa ter no mínimo 35 anos para concorrer à presidência dos Estados Unidos. Mas deveria também haver um limite máximo de idade? Essa questão, que já rondava a eleição anterior, quando Trump concorria com a democrata Hillary Clinton, que na época tinha 69 anos, voltou a ser debatida recentemente.

No mês passado, o ex-presidente democrata Jimmy Carter, de 95 anos, entrou na discussão ao dizer que deveria haver limite de idade. "Mesmo se eu tivesse apenas 80 anos, se fosse 15 anos mais novo, não acredito que conseguiria cumprir com as responsabilidades que tinha quando era presidente", declarou, ao responder, em tom de brincadeira, se havia considerado a possibilidade de concorrer nestas eleições.

Carter, que deixou a Casa Branca aos 56 anos, em 1981, após perder a reeleição, não se referia a nenhum candidato especificamente. Mas o debate ocorre em um momento em que o Partido Democrata tenta decidir se a melhor estratégia para evitar mais quatro anos de governo Trump é apostar em um político mais experiente ou em um representante da nova geração.

As eleições legislativas do ano passado levaram ao Congresso muitos democratas jovens, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, que acaba de completar 30 anos e é considerada por alguns uma das estrelas da nova geração. Mas a liderança do partido ainda está nas mãos de políticos na casa dos 70 anos, como a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, que tem 79.

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Image caption Jimmy Carter, de 95 anos, saiu da presidência dos Estados Unidos em 1981, aos 56 anos

Líder na maioria das pesquisas, Biden entrou para o Senado em 1972, quando alguns de seus adversários na busca pela nomeação democrata ainda nem haviam nascido.

Historicamente, a média de idade dos presidentes americanos ao tomar posse é de 55 anos.

O republicano Ronald Reagan tinha 73 anos quando foi reeleito para um segundo mandato, em 1984. Quando deixou o cargo, em janeiro de 1989, Reagan era o presidente mais velho da história dos Estados Unidos, aos 77 anos. Caso Sanders ou Biden fossem eleitos em 2020 teriam, respectivamente, 83 e 82 anos ao concorrer a uma reeleição, em 2024.

Antes de Reagan, o presidente mais velho era William Henry Harrison, que foi eleito aos 67 anos, em 1840, e morreu um mês depois da posse, em 1841. Theodore Roosevelt, que assumiu o cargo em 1901, aos 42, é o mais jovem presidente da história americana.

Riscos

Entre os riscos comumente associados à idade estão o de declínio cognitivo, problemas de memória e dificuldade de processar novas informações. Estudos também afirmam que o risco de doenças como câncer, Alzheimer e problemas cardíacos aumenta com a idade.

O próprio Reagan enfrentou boatos sobre sua saúde mental nos anos finais de seu governo. Ele acabou sendo diagnosticado com o mal de Alzheimer em 1994, cinco anos depois de deixar o poder.

Mas muitos consideram problemático aplicar dados estatísticos sobre a população geral em um indivíduo em particular e afirmam que a idade psicológica é mais importante do que a fisiológica.

Defensores de Biden costumam salientar sua "excelente forma física" e o fato de que cumpre uma agenda de campanha intensa sem problemas. Lembram ainda que, se for escolhido como candidato democrata, irá enfrentar Trump, que tem quase a mesma idade e é famoso por não se exercitar e pelo apetite por fast food.

"Eu me exercito todas as manhãs", ressaltou Biden recentemente. Ele costuma dizer que os eleitores têm o direito de questionar sua idade e sua capacidade física e mental e, assim como Sanders e Warren, prometeu divulgar seus dados médicos antes das primárias, que começam em fevereiro.

Mas Biden tem sofrido críticas por sua atuação nos debates do Partido Democrata, entre elas a de que às vezes parece divagar em suas respostas, sem foco, e fazer referências antiquadas.

Seus defensores respondem que ele nunca foi muito sucinto e que esta é uma característica que não tem relação com sua idade. Também lembram que Biden sempre cometeu gafes, mesmo quando era mais jovem.

Eleitores

Até agora, as tentativas de outros candidatos democratas de chamar a atenção para a idade de Biden e dos outros líderes nas pesquisas não acabaram bem.

Um exemplo é o do pré-candidato Julián Castro, de 46 anos, ex-secretário de Habitação do governo de Barack Obama, que em um debate no mês passado perguntou repetidamente a Biden: "Você já está esquecendo o que disse há apenas dois minutos?" A reação à pergunta, considerada agressiva, foi negativa, e Castro acabou perdendo apoio.

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Image caption O pré-candidato Julián Castro, de 46 anos, foi criticado por ter feito uma pergunta agressiva a Biden, de 76 anos

O fato de que, mesmo com todos os esforços dos adversários mais jovens, Biden, Warren e Sanders continuam liderando as intenções de voto entre os 19 candidatos que permanecem na corrida pela indicação democrata pode indicar que talvez a idade não tenha tanta importância para os eleitores.

Em uma pesquisa do instituto Pew Research Center com democratas, divulgada em maio, 47% dos entrevistados disseram que a idade ideal para um presidente é em torno de 50 anos, e apenas 3% afirmaram que o ideal é cerca de 70 anos. Mas em uma pesquisa Gallup no mesmo mês, 63% dos entrevistados afirmaram que votariam em um candidato com mais de 70 anos.

O debate em torno da idade ocorre ao mesmo tempo em que o Partido Democrata discute se deve apostar em um candidato moderado, que teria mais chances de atrair eleitores que votaram em Trump mas se decepcionaram, ou em uma guinada mais à esquerda.

Enquanto Biden é considerado moderado e é popular com eleitores mais velhos, Sanders e Warren têm força entre o eleitorado jovem. Na eleição de 2016, quando perdeu a indicação do partido para Hillary Clinton, Sanders já havia se destacado pelo forte apoio entre os jovens.

"A maneira como Sanders se conecta com os jovens não é por meio de tecnologia, ou gírias, ou música. É porque ele tem ideais que foram poderosos em sua própria juventude e também são poderosos para a juventude atual", afirma Chappel.

"Isso quebra o estereótipo de que quanto mais jovem você é mais você vai atrair os (eleitores) jovens."

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