Evo Morales x Carlos Mesa: 3 possíveis saídas para a crise política na Bolívia após a eleição presidencial

Protestos na Bolívia Direito de imagem Reuters
Image caption Os partidários de Carlos Mesa acusam o governo boliviano de ter alterado a contagem de votos da eleição presidencial

Ruas bloqueadas com troncos de árvores, pedras e latas de lixo. Barulhos de explosão de dinamite e bombas de gás lacrimogêneo. Manifestantes tomam as ruas de várias cidades da Bolívia.

Nove dias se passaram desde a controversa eleição presidencial em que Evo Morales foi reeleito em primeiro turno para seu quarto mandato consecutivo — e as denúncias de suposta fraude e manipulação dos resultados não diminuem.

Greves, panelaços noturnos e bloqueio de ruas e avenidas são alguns dos recursos usados pela oposição boliviana para expressar sua rejeição à vitória do presidente.

Em paralelo, Morales convocou partidários dos sindicatos dos operários e camponeses, assim como funcionários públicos, a demonstrar seu apoio.

E foi assim que simpatizantes do governo e da oposição acabaram medindo forças nas ruas.

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Image caption Militantes do governo e da oposição medem forças nas ruas da Bolívia

As maiores manifestações ocorreram na segunda-feira nas cidades vizinhas a La Paz e El Alto. Mas também houve protestos a favor e contra o presidente em praticamente todo o país.

Os manifestantes pró-governo afirmam que "vão defender a democracia" e o novo mandato de Morales, enquanto partidários da oposição prometem que vão fazer seu voto ser respeitado e não vão permitir que o atual presidente governe a Bolívia por mais um mandato.

"Ou vou para a prisão, ou vou para a presidência", declarou o ex-presidente Carlos Mesa, candidato da oposição que ficou como segundo colocado, diante de uma multidão na segunda-feira, alegando que a contagem dos votos foi manipulada, quando o resultado indicava que a disputa iria para o segundo turno.

Diante deste cenário, há, por enquanto, três saídas possíveis para a crise política, que custa milhões de dólares por dia ao país e já revela suas primeiras cenas de violência, protagonizadas por ambos os lados — pelo menos 30 pessoas ficaram feridas até agora.

1. Auditoria e segundo turno

A Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia (UE) e alguns governos da região defendem a realização de um segundo turno como a melhor saída para a crise.

Eles acreditam que este é o melhor caminho para as autoridades conseguirem recuperar a legitimidade.

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Image caption Carlos Mesa insiste que Morales não venceu no primeiro turno das eleições

O duro questionamento de organismos internacionais e subsequente pedido de segundo turno tiveram origem na maneira como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fez a contagem dos votos, o que levou a suspeitas sobre a transparência do processo.

No dia da votação, o sistema de transmissão rápida de resultados foi suspenso abruptamente com 83% das urnas apuradas, quando o resultado parcial indicava um segundo turno.

Vinte e três horas depois, o sistema foi reativado com 95% das urnas apuradas, sinalizando a vitória de Morales no primeiro turno — mudança que foi classificada como "inexplicável" pela OEA.

Depois que o resultado oficial foi divulgado, o governo comemorou a vitória, enquanto a oposição foi para as ruas, sem reconhecer a conquista de Morales.

Diante da pressão local e dos questionamentos internacionais, o governo boliviano convidou a OEA, a UE e diferentes países para fazer parte de uma auditoria dos votos da eleição de 20 de outubro.

Na manhã de terça-feira, o governo boliviano também chamou Carlos Mesa para participar da auditoria, que ainda não tem data marcada, "para esclarecer suas dúvidas".

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Image caption Evo Morales comemorou a vitória, mas disse que estava aberto a uma auditoria dos votos

O governo anunciou que aceitaria participar de um segundo turno se as denúncias de manipulação de votos fossem confirmadas — e que a auditoria da OEA teria caráter vinculante.

"Que todas as urnas sejam verificadas. Se a fraude for comprovada ao final do processo, iremos para o segundo turno", afirmou Morales.

Essa opção, que passa por uma conciliação ou negociação, é a única saída política não violenta na opinião do cientista político Fernando Mayorga.

Em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, ele afirma que o tempo é um fator-chave, dada a escalada de violência que o país já está enfrentando.

"O importante é que o conflito seja direcionado ao campo político e que os protagonistas sejam os partidos de Morales e Mesa, e não aqueles a favor de uma ruptura (oposição mais radical)", diz o especialista.

2. Triunfo do movimento de oposição

Entre os grupos civis da oposição e partidários de Carlos Mesa, cresce a ideia de que um segundo turno não é aceitável, se for comprovado que houve manipulação de votos a favor de Evo Morales.

Durante a manifestação em massa de segunda-feira em La Paz, a reivindicação de novas eleições se multiplicou entre os participantes, assim como o pedido de julgamento do presidente boliviano e das autoridades do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela suposta fraude.

Na entrevista coletiva em que foi anunciado o resultado final da eleição, as autoridades eleitorais declararam que estavam agindo de boa fé, com transparência e idoneidade, apesar das duras críticas recebidas.

Na opinião do analista político Yerko Ilijic, o movimento de oposição que não reconhece a vitória de Morales tem uma natureza diferente dos conflitos que o governo enfrentou ao longo dos últimos 13 anos.

"A mobilização atual é despolitizada, não é militante, é bastante civil e tem muitos jovens", afirmou o pesquisador à BBC News Mundo.

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Image caption Nove dias após eleição, denúncias de suposta fraude e manipulação dos resultados não arrefecem

Ilijic destaca que esses grupos mobilizados têm a particularidade de ganhar força a partir de diferentes regiões da Bolívia e não se originaram em La Paz, como acontecia tradicionalmente, o que desnorteou a reação do governo.

O analista cita como exemplo Santa Cruz de la Sierra, a cidade mais populosa do país e que está há mais dias paralisada. Na opinião de Ilijic, a cidade recuperou o protagonismo que havia perdido na última década.

"Santa Cruz pode continuar dando o exemplo a outras regiões, e a mobilização pode continuar crescendo pelas frustrações que se acumularam e tiveram seu ápice com o que aconteceu após as eleições", conclui.

Morales advertiu que US$ 3,5 milhões são perdidos diariamente em decorrência da "greve política" realizada por Santa Cruz.

3. Evo 2020-2025

Se os movimentos de oposição mostraram sua força em Santa Cruz e La Paz, entre outras cidades, o governo não ficou para trás com uma enorme manifestação realizada em El Alto na segunda-feira.

Na cidade de Aymara, localizada a mais de 4 mil metros de altura e onde Morales sempre vence, dezenas de milhares de pessoas se reuniram para expressar seu apoio ao presidente.

Horas antes, um protesto de mineiros cruzou o centro de La Paz, detonando dinamites e entoando palavras de ordem em favor do governo.

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Image caption A Bolívia vive em tensão permanente desde as eleições de 20 de outubro que deram vitória a Evo Morales

Na avaliação do analista político Fernando Mayorga, os seguidores de Morales respondem dessa maneira à mobilização da oposição.

"Evidentemente, as duas coalizões apostaram nas ruas e, em grande parte, o governo faz isso em resposta ao que Carlos Mesa esboçou no dia seguinte às eleições", diz o especialista.

Desde a semana passada, Evo Morales convocou suas bases para "defender a democracia" e denunciou que as manifestações da oposição faziam parte de um plano de golpe de Estado com apoio internacional.

As organizações sociais que apoiam o presidente não hesitaram em atender à convocação de Morales — e agora as ruas bolivianas se tornaram o local em que governo e oposição medem forças.

Há décadas que uma eleição presidencial na Bolívia não se traduzia em protestos nas ruas e ameaças de violência. Muito menos em uma crise política ainda com final em aberto, na qual uma saída conciliatória parece ser a opção mais distante.

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