'Ocorreu no Chile o que nossos professores de Chicago esperavam', diz ministro da era Pinochet

Rolf Luders
Image caption Um dos pontos fortes da crítica às políticas de livre mercado no Chile tem a ver com os gestores de fundos de pensão privados

O chileno Rolf Luders é talvez o "Chicago Boy" original. Ele fez um doutorado em economia na prestigiada universidade da cidade americana onde Milton Friedman, o maior expoente do chamado "neoliberalismo", foi seu orientador.

Ele retornou ao seu país e foi ministro da Economia no governo militar de Pinochet entre agosto de 1982 e fevereiro de 1983.

Luders foi um dos protagonistas centrais desse experimento incomum que ocorreu no Chile em 1973, quando um governante militar sem nenhuma experiência ou conhecimento econômico deixou as finanças do país nas mãos de um grupo de tecnocratas recém-formados, batizados de Chicago Boys.

Os efeitos são sentidos até hoje. Condenado e elogiado por décadas, o modelo de economia de mercado impulsionado por eles agora está no centro do debate sobre a crise chilena, após o início da maior onda de protestos no país desde o retorno da democracia.

A BBC Mundo conversou com Luders, que reconhece muitos erros de sua escola na administração da economia chilena. Mas diz que, em última instância, o Chile passou pelo que os seus professores de Chicago já esperavam.

Direito de imagem AFP
Image caption Luders diz que parte dos manifestantes mais violentos querem "impor um esquema econômico e político totalitário"

BBC News Mundo - O que você acha da atual crise no Chile e a maneira como o chamado "modelo econômico neoliberal" implementado por vocês, os "Chicago Boys", tem sido responsabilizado por essa crise?

Rolf Luders - O movimento social atual tem uma origem socioeconômica e política complexa e tem se traduzido em eventos muito violentos e, simultaneamente, em maciças marchas pacíficas. Entre aqueles que pregam a violência, que são poucos, há os que desejam impor um esquema econômico e político totalitário.

No entanto, em sua grande maioria, os manifestantes são pessoas com demandas muito distintas, incluindo o desejo de mais espaços de participação na política e a mudança do que eles chamam de modelo econômico.

Eles pedem isso porque não distinguem - nem podemos pedir para que o façam - entre a implementação de um sistema político, econômico e social - nunca perfeito - e seus princípios subjacentes.

BBC News Mundo - Nas últimas décadas, o Chile alcançou um PIB per capita semelhante ao de vários países europeus e conseguiu reduzir as taxas de pobreza para um dos níveis mais baixos do continente. São conquistas que o resto da região invejaria. Por que você acha que a estratégia econômica permanece tão impopular, apesar dessas conquistas?

Luders - As explicações da impopularidade mencionada são diversas e eu gostaria de destacar três.

Em primeiro lugar, apesar do enorme progresso, a renda da grande maioria dos chilenos ainda é baixa em termos absolutos e as diferenças de renda são muito significativas.

Segundo, há o problema das expectativas. Muitos acreditam - por engano, é claro - que é possível resolver o problema econômico do país da noite para o dia, e os políticos em suas campanhas têm alimentado essas falsas expectativas. Quando essas esperanças não se concretizam, a população tende a culpar o modelo.

Direito de imagem AFP
Image caption Luders diz que quando esperanças alimentadas pelos políticos não se concretizam como prometido, população tende a culpar o modelo econômico

E, finalmente, é inegável que houve abusos que não foram devidamente punidos.

BBC News Mundo - Para muitos, a aplicação inicial dessas políticas econômicas de livre mercado está irremediavelmente associada à memória do governo militar de Pinochet. Você acha que se essas medidas econômicas tivessem sido implantadas primeiro sob um governo democrático, elas não provocariam tanta rejeição quanto está acontecendo agora?

Luders - Sim, parte disso existe. No entanto, a magnitude das mobilizações sugere que o grau de questionamento do modelo excede significativamente o de quem considera sua origem ilegítima.

BBC News Mundo - São válidas algumas das críticas que têm sido feitas no Chile contra a estratégia econômica usada nas últimas décadas? Você se arrepende de alguns dos aspectos usados ​​nessa estratégia?

Luders - Acredito que a estratégia de desenvolvimento usada no Chile tenha sido adequada e isso é demonstrado pelos resultados objetivos obtidos. No entanto, ao privilegiar o crescimento e, assim, a redução da pobreza sobre a redução da desigualdade, as preferências dos cidadãos foram mal compreendidas.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Muitos manifestantes se voltaram contra o modelo "neoliberal" da economia chilena

A falta de contato da elite com o restante da população e algumas falhas importantes na implementação, que permitiram certos abusos não punidos, também têm sido importantes.

BBC News Mundo - Você acha que o Chile continuará no caminho da aceitação das políticas de livre mercado ou, pelo contrário, que uma grande mudança na estratégia econômica esteja chegando, em direção a um modelo mais estatal?

Luders - É impossível prever isso neste momento. Grandes crises geram grandes oportunidades e, no nosso caso, podem levar a uma democracia representativa mais participativa e a uma economia de mercado social mais eficiente, justa e livre. As condições estão dadas para isso e tudo depende do processo.

Mas também é possível - espero que não seja o caso - que as preferências dos mais radicais sejam impostas à força.

BBC News Mundo - Um dos pontos fortes da crítica às políticas de livre mercado no Chile tem a ver com as administradoras privadas de fundos de pensões. Muitos aposentados afirmam que estão enfrentando pobreza na velhice por causa desse sistema. Essas reivindicações são válidas?

Luders - Sim e não. O valor das pensões é baixo em relação à renda das pessoas no momento da aposentadoria (em média, perto de 40%).

No entanto, a economia dos contribuintes foi muito bem gerenciada e o problema está relacionado à falta de adaptação das regulamentações por três fatores: aumento da expectativa de vida, forte crescimento dos salários reais e longos períodos em que muitos não contribuíram. Ou seja, outra falha do Estado.

BBC News Mundo - Você é especialista em história econômica do Chile. O que teria acontecido com o país se em 1973 a economia de mercado não tivesse mudado? Como seria a economia chilena hoje?

Luders - Muito provavelmente, estaríamos agora - em vez de liderar a região - com indicadores econômico-sociais abaixo da média.

Direito de imagem AFP
Image caption Luders diz que Chile teria indicadores econômico-sociais abaixo da média se modelo neoliberal não tivesse sido implantado no país

O PIB per capita do Chile diminuiu na maior parte do século 20 (até 1983) em relação ao do resto do mundo, dos EUA, da Europa e do resto da América Latina. Uma vez adotada a economia social de mercado, nosso PIB per capita tem se mantido - exceto agora o último - crescendo a uma taxa muito superior à das regiões indicadas.

BBC News Mundo - Avaliando os resultados obtidos quase cinco décadas depois, com as críticas e elogios que o modelo econômico chileno recebeu, o que você acha que seus professores da Universidade de Chicago diriam sobre o legado dos "Chicago Boys" no Chile? O que eles esperavam acontecer no Chile?

Luders - Em Chicago, foi feita uma distinção entre economia positiva (o que é) e economia normativa (o que é desejado) e nas salas de aula se praticava estritamente a primeira.

Assim, o que foi aprendido em Chicago e o que foi pesquisado na volta ao Chile nos permitiu entender os pontos fortes e fracos da economia chilena da década de 1960 e, posteriormente e possivelmente - para aqueles que participaram do processo de implementação da economia social de mercado - fazê-la da melhor maneira possível.

Nesse sentido, certamente o que nossos professores esperavam aconteceu.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

Tópicos relacionados

Notícias relacionadas