Príncipe Andrew deixa funções reais; entenda o escândalo sexual que abala a família real britânica

Príncipe Andrew, à esquerda, e Jeffrey Epstein, no Central Park, em Nova York Direito de imagem News Syndication
Image caption Príncipe Andrew disse que encontro com Epstein em 2010 foi para terminar amizade

O príncipe Andrew, terceiro filho da rainha Elizabeth 2ª e duque de York, anunciou nesta quarta-feira (20/11) que vai se afastar dos deveres reais devido às repercussões de sua amizade com Jeffrey Epstein, bilionário americano que cometeu suicídio na cadeia após ser acusado de exploração sexual de menores.

Andrew disse que seus vínculos com o criminoso sexual condenado se tornaram um "grande problema" para a família real.

Em um comunicado, ele disse que simpatizava com as vítimas de Epstein e "todo mundo que foi afetado e quer alguma forma de encerramento para o caso".

Isso acontece num momento em que o duque enfrenta uma reação crescente após uma entrevista que ele deu à BBC.

A empresa de telecomunicação BT é apenas a mais recente de uma série de organizações que se distanciariam do príncipe Andrew após a entrevista.

Em um comunicado, a BT disse que trabalha com o iDEA - organização ligada ao duque de York que ajuda as pessoas a desenvolver habilidades digitais, comerciais e de emprego - desde 2017, mas "nossas negociações são com seus diretores executivos e não com o patrono".

"À luz dos acontecimentos recentes, estamos revisando nosso relacionamento com a organização e esperamos poder trabalhar mais com eles, no caso de uma mudança no patrocínio", disse uma porta-voz.

Em agosto, Epstein foi encontrado morto dentro de um presídio nos EUA, enquanto aguardava julgamento sob acusações de tráfico sexual e abuso de menores.

E, após virem à tona imagens que pareciam mostrar Andrew na mansão de Epstein em Nova York, a imprensa britânica passou a cobrar uma explicação sobre o quanto o príncipe sabia a respeito dos crimes hoje atribuídos ao bilionário americano.

Na entrevista ao programa Newsnight, da BBC, Andrew falou sobre suas relações com o bilionário americano.

O príncipe Andrew já havia defendido seu relacionamento com Epstein antes, inclusive após o suicídio dele. No entanto, na entrevista à BBC, o príncipe deu mais detalhes sobre por que "ainda" não se arrependia da amizade.

Ele disse que conhecer Epstein teve "alguns resultados muito benéficos", num momento em que o príncipe deixava sua carreira na Marinha e iniciava outra como representante especial do comércio e da indústria.

"As pessoas que eu conheci e as oportunidades que tive para aprender, por ele ou por causa dele, foram realmente muito úteis", disse o príncipe Andrew.

Visita formal cancelada

O duque está sob crescente pressão após a entrevista de sábado, na qual respondeu pela primeira vez perguntas sobre sua amizade com o financista americano Epstein.

Ele "categoricamente" negou ter qualquer contato sexual com Virginia Giuffre.

No entanto, empresas com as quais tinha vínculos começaram a se distanciar dele, assim como fez a BT recentemente. O Standard Chartered Bank e a KPMG anunciaram que retirariam o apoio à iniciativa de mentores de negócios do duque, Pitch @ Palace. Fontes disseram à BBC que as decisões foram tomadas antes da entrevista.

Quatro universidades australianas também disseram que não continuariam sua participação no Pitch @ Palace Australia.

O príncipe Andrew cancelou uma visita planejada às áreas atingidas pelas inundações de Yorkshire na terça-feira, três dias após a exibição da entrevista, informou o jornal Sun.

A entrevista

Sobre o encontro com Epstein em 2010, quando já havia ocorrido a primeira condenação do bilionário, o integrante da família real disse que fez a visita para explicar que a amizade deles havia terminado.

Ele disse que considerou falar com Epstein por telefone, mas decidiu encontrá-lo pessoalmente "para mostrar liderança".

"Achei que fazer isso por telefone não era a maneira adequada. Eu tinha de ir vê-lo e conversar com ele", disse.

Direito de imagem Mark Harrington/BBC
Image caption Em entrevista à BBC, príncipe Andrew falou sobre amizade com Jeffrey Epstein, bilionário americano acusado de tráfico sexual de menores

Andrew também foi questionado, durante a entrevista, sobre as declarações contra ele feitas por uma das acusadoras de Epstein, Virginia Giuffre (então conhecida como Virginia Roberts). Giuffre disse que conheceu o príncipe em 2001, quando eles jantaram juntos, dançaram em uma boate em Londres e fizeram sexo na casa de Ghislaine Maxwell, em Belgravia.

A entrevistadora, Emily Maitlis, notou que as acusações de Giuffre eram muito específicas e que ela disse, inclusive, que o príncipe estava "suando muito".

O príncipe negou ter tido qualquer relação sexual com Giuffre. Ele respondeu que um "problema" com a história de Giuffre era que, por uma questão médica, ele não poderia estar suando.

"Eu não suava na época porque havia sofrido o que descreveria como uma overdose de adrenalina na Guerra das Malvinas, quando fui baleado e eu simplesmente... era quase impossível eu suar", disse ele.

O príncipe Andrew revelou que investigou a possibilidade de uma foto — ou parte dela — fornecida por Giuffre ser falsa. Uma das razões que ele apresentou foi o traje. "Não acredito que seja uma foto minha em Londres porque, quando saio em Londres, uso terno e gravata", disse.

"Isso é o que eu descreveria como... essas são minhas roupas de viagem, (que uso) se eu estiver indo para o exterior", acrescentou. "Ninguém pode provar se a fotografia foi ou não manipulada, mas não me lembro de ter sido tirada."

Direito de imagem Virginia Roberts
Image caption Virginia Giuffre afirma ter tido relações sexuais com o príncipe Andrew, o que o Palácio de Buckingham nega

Como eles se conheceram?

O príncipe Andrew sempre disse que conheceu Jeffrey Epstein em 1999, por meio da então namorada do americano, Ghislaine Maxwell, uma socialite bem relacionada.

Maxwell, filha do falecido magnata dos jornais Robert Maxwell, tem mantido a discrição desde que começaram a surgir acusações contra Epstein.

O príncipe disse que se encontrou com ela no início deste ano, no Reino Unido, antes de Epstein ser preso e acusado de tráfico sexual .Ele disse que eles não discutiram o caso do bilionário durante o encontro.

"Não havia nada para discutir sobre ele, porque ele não estava no noticiário."

Andrew enfatizou durante a entrevista que ele e Epstein "não eram tão próximos".

'Deprimente'

O príncipe tem enfrentado críticas pela entrevista ao Newsnight.

Advogado de uma das acusadoras de Epstein, Spencer Kuvin disse que o príncipe Andrew deveria "se desculpar por sua amizade com o agressor sexual condenado Jeffrey Epstein".

Ele disse que "a realeza falhou" em relação às supostas vítimas de Epstein e chamou a entrevista do príncipe Andrew à BBC de "triste" e "deprimente".

"O simples fato de ele (o príncipe Andrew) ser amigo de um criminoso sexual condenado e optar por continuar seu relacionamento com ele, isso mostra uma falta de reconhecimento da amplitude do que esse homem (Epstein) fez com essas garotas", disse Kuvin.

Kuvin disse que o foco dos acusadores de Epstein agora se voltou para pessoas que possivelmente atuavam com ele. Isso levou a perguntas sobre o possível papel da ex-namorada Ghislaine Maxwell na busca de meninas menores de idade. Maxwell nega ter cometido qualquer irregularidade.

O príncipe Andrew disse à BBC que nunca suspeitou do comportamento criminoso de Epstein durante as visitas às três casas do americano.

Kuvin, no entanto, disse que "não achava possível" o príncipe ter evitado ver o que estava acontecendo, "com garotas sendo levadas para dentro e para fora dessas casas".

Pessoas próximas ao príncipe Andrew disseram que ele queria abordar as questões de frente e fez isso com "honestidade e humildade" durante a entrevista.

Jonny Dymond, correspondente da BBC especializado em família real, disse que o príncipe ficou "muito prejudicado" e que a tentativa de limpar seu nome "falhou muito".

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