O que prega o grupo extremista islâmico suspeito de ataque que matou 76 pessoas na Somália

Militantes do Al-Shabab em fevereiro de 2012 Direito de imagem AFP
Image caption Al-Shabab signfica, em árabe, "A Juventude"

Ao menos 76 pessoas foram mortas por um carro-bomba detonado na manhã deste sábado (28) durante a hora do rush na capital da Somália, país que fica na região conhecida como Chifre da África.

A explosão aconteceu próxima a um ponto de inspeção em um cruzamento movimentado em Mogadíscio. Mais de 90 pessoas ficaram feridas.

Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado até agora, mas o grupo extremista islâmico al-Shabab, aliado da Al-Qaeda, foi apontado como o principal suspeito em razão das características do ataque e de ele atuar nessa região.

O presidente Mohammed Abdullahi Farmaajo afirmou que o objetivo é desencorajar o povo somali, mas, segundo ele, os jihadistas nunca serão capazes de parar a reconstrução do país.

Em 2020, a previsão é que o país tenha suas primeiras eleições, com sufrágio universal, desde 1969.

O que é o al-Shabab?

Al-Shabab significa, em árabe, "A Juventude".

Surgiu como uma parte radical de um grupo que já não existe mais, União das Cortes Islâmicas, que controlava Mogadíscio em 2006, antes de serem expulsos por forças etíopes da capital em 2011.

Há diversos relatos de jihadistas estrangeiros de países próximos à Somália, ou dos EUA e da Europa, que foram para o país e aderiraram ao al-Shabab.

É um grupo terrorista banido pelos EUA e Reino Unido que tem, acredita-se, entre 7.000 e 9.000 integrantes.

O Al-Shabab defende o wahabismo, movimento do islamismo sunita ultraconservador. O grupo impôs uma versão rígida da lei Sharia em áreas sob seu controle, inclusive com apedrejamento de mulheres acusadas de adultério ou amputando as mãos de ladrões.

Quais são as conexões com outros jihadistas?

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Image caption Tropas das Somálias teriam treinamento pobre para derrotar os aliados da Al-Qaeda

Em um vídeo divulgado em fevereiro de 2012, o então líder do al-Shabab, Ahmed Abdi Godane, disse "prometer obediência" ao líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri.

Também há relatos de que o al-Shabab pode ter formado conexões com outros grupos extremistas da África, como o Boko Haram na Nigéria e a Al-Qaeda no Magreb Islâmico, baseado no deserto do Saara.

Houve, também, discussões internas sobre se deveriam ser leais ao Estado Islâmico depois que este surgiu em janeiro de 2014. Mas rejeitaram a ideia, o que levou uma pequena facção a se separar do grupo.

Atualmente, o Al-Shabab é liderado por Ahmad Umar, também conhecido como Abu Ubaidah.

Os Estados Unidos oferece uma recompensa de US$ 6 milhões (R$ 24 milhões) por informações que possam levar à sua captura.

Quão perigoso é o grupo?

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Image caption O Al-Shabab já provocou ataques na Somália e em países próximos

O governo da Somália culpou o grupo por matar ao menos 500 pessoas em um bombardeio em um caminhão em Mogadíscio em outubro de 2017. Foi o ataque mais fatal do Leste africano. O grupo, no entanto, não assumiu a autoria do atentado.

Mas confirmou outro ataque massivo: à base militar do Quênia no município el-Ade, na Somália, em janeiro de 2016. No ataque, cerca de 180 soldados morreram, de acordo com o então presidente da Somália, Hassan Sheikh Mohamud. As Forças quenianas questionaram o número, mas não divulgaram quantos haviam sido mortos segundo seus cálculos.

O grupo extremista também já levou a cabo diversos ataques no Quênia, inclusive um massacre na Universidade Garissa, daquele país, perto da fronteira com a Somália. Um total de 148 pessoas morreram quando atiradores entraram na universidade e alvejaram estudantes cristãos.

Em 2013, atiradores entraram em um shopping em Nairóbi, deixando 67 pessoas mortas.

Quanto da Somália o Al-Shabab controla?

O Al-Shabab ainda mantém o controle sobre grandes áreas rurais da Somália, e leva a cabo ataques em centros urbanos.

A maior parte deles ocorre em Mogadíscio e em regiões próximas à capital.

Há poucos ataques no norte do país, embora do nordeste alguns grupos leais ao Estado Islâmico estejam ativos.

Em anos recentes, o grupo mudou sua abordagem de confronto militar direto para táticas de desestabilização, como bombardeios, ataques e assassinatos de funcionários somalis e estrangeiros.

Também é bem-sucedido com a geração de receita de clãs locais, na cobrança de impostos e na execução de tribunais fora das áreas controladas pelo governo.

"O Al-Shabab foi removido fisicamente da maioria dos principais centros populacionais, mas sua influência nas cidades está aumentando novamente", diz Michael Keating, chefe da Missão de Assistência das Nações Unidas na Somália (UNSom) entre 2016 e 2018.

O governo da Somália não divulga estatísticas sobre assassinatos por militantes.

No entanto, o Projeto de Locais de Conflitos Armados e Dados (Acled) coleta dados sobre ataques do al-Shabab, usando fontes locais e internacionais.

Sua coleta indica que 2019 já é um dos anos mais altos registrados em mortes por ataques da al-Shabab.

Está logo abaixo da figura para todo o ano de 2017, no qual mais de 500 pessoas foram mortas em um ataque em Mogadíscio envolvendo duas bombas em caminhões.

O que está acontecendo na Somália?

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Image caption Muitos somalianos viveram pela seca, fome e em meio a conflitos

A Somália não tem um governo nacional eficiente há mais de 20 anos, durante os quais grande parte do país tem sido uma zona de guerra.

O Al-Shabab ganhou apoio prometendo segurança à população. Mas perdeu credibilidade quando rejeitou ajuda humanitária com alimentos para combater a fome e seca em 2011.

Com Mogadíscio e outras cidades agora sob controle governamental, muitos somalianos estão otimistas e retornaram do exílio trazendo dinheiro e habilidades.

Serviços básicos como luz elétrica e coleta de lixo voltaram à capital.

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