Queda de avião no Irã: o que levou EUA e Canadá a dizerem que Boeing ucraniano foi abatido por míssil

Avião da Ukranian International Airlines Direito de imagem Reuters
Image caption Avião da Ukranian International Airlines levava 176 pessoas quando caiu perto de Teerã, na quarta-feira

(Texto atualizado às 05h25 de 10/01/2020)

A investigação sobre a queda de um avião ucraniano com 176 pessoas a bordo no Irã passou por uma reviravolta desde a tragédia na quarta-feira (8).

Naquele dia, o governo ucraniano falou em "falha no motor por razões técnicas" e afastou a possibilidade de um ataque terrorista, versão reafirmada pelo Irã. Mas na quinta, autoridades americanas e canadenses passaram a afirmar que a aeronave havia sido atingida por um míssil iraniano, possivelmente por engano.

O Irã, por outro lado, disse que a acusação "não tem lógica" e é "cientificamente impossível que um míssil tenha atingido o avião ucraniano".

O que baseou então a nova versão sobre a queda do Boeing 737-800 da Ukrainian International Airlines, horas depois de o Irã disparar mísseis contra duas bases militares que abrigam forças americanas no Iraque?

Vídeo mostra míssil atingindo avião

A hipótese de que o avião havia sido abatido surgiu nas redes sociais logo depois da queda em forma de rumores, mas ela se tornou oficial quando informações de órgãos de inteligência foram divulgadas na mídia americana.

Segundo a rede CBS News, fontes no setor de inteligência americano apontaram que satélites dos EUA detectaram dois lançamentos de mísseis pouco antes de o avião ucraniano explodir.

O jornal The New York Times publicou um vídeo em seu site que mostra um míssil atravessando o céu de Teerã e depois explodindo ao tocar em um avião. Dez segundos depois, é possível ouvir o barulho de uma explosão desde o solo. O avião continua voando em chamas.

De acordo com a revista Newsweek, a aeronave ucraniana pode ter sido atingida por um sistema de mísseis terra-ar Tor M-1, construído na Rússia, conhecido como Gauntlet pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). E o abatimento pode ter sido acidental, segundo fontes ouvidas pela publicação, porque sistemas antiaéreos do Irã provavelmente estavam ativos após seus ataques às bases aéreas dos EUA, na mesma noite (horário local).

Para o analista de segurança da aviação Todd Curtis, ouvido pela BBC, a aeronave "estava muito fragmentada (no solo), o que significa que houve um impacto intenso no solo ou algo aconteceu no céu".

Em pronunciamento na quinta, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, reforçou a possibilidade de a queda ter sido não intencional e cobrou uma investigação rigorosa do caso.

A hipótese de acidente foi reafirmada pelo presidente americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. "Alguém pode ter cometido um erro", disse Trump.

Havia cidadãos de sete nacionalidades no avião, entre eles 82 iranianos, 63 canadenses e 11 ucranianos.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson afirmou que há um "conjunto de informações" sugerindo que um míssil derrubou o avião, "mas pode ter sido também não intencional", reconheceu. Johnson acrescentou que o Reino Unido está trabalhando de perto com o Canadá e outros países na investigação sobre o episódio.

O governo da Ucrânia afirmou que o míssil é uma das quatro hipóteses que considera no momento — as outras são a colisão do avião no ar com um drone ou algum outro objeto voador, a explosão de algum equipamento por problemas técnicos e um ataque terrorista dentro na aeronave.

O que o Irã afirma?

O chefe da Organização de Aviação Civil do Irã, Ali Abedzadeh, diz que é "cientificamente impossível que um míssil tenha atingido o avião ucraniano, e esses rumores não têm lógica". A declaração foi citada pela agência oficial iraniana Isna.

Abedzadeh deu uma versão diferente para explicar a queda da aeronave. "O avião, que inicialmente foi para o oeste para deixar a zona do aeroporto, virou à direita após um problema e estava voltando ao aeroporto no momento do acidente."

Ele acrescentou que testemunhas viram a aeronave "pegando fogo" antes do acidente e que os pilotos não fizeram nenhum pedido de socorro antes de tentar retornar ao aeroporto Imam Khomeini.

"Vários voos domésticos e estrangeiros estavam voando no espaço iraniano à mesma altitude de 2.400 metros. A informação de um impacto do míssil na aeronave não pode ser verdadeira de forma alguma", disse ele.

Direito de imagem EPA
Image caption Todas as 176 pessoas a bordo morreram

Abedzadeh afirmou, ainda, que as descobertas iniciais foram enviadas para a Ucrânia e para os Estados Unidos, onde a Boeing tem sua sede.

A Suécia e o Canadá também receberam as conclusões apontadas pelo Irã, pois havia pessoas desses países a bordo, acrescentou.

Na quarta-feira, o país persa havia dito que não entregaria as caixas-pretas do avião para investigadores externos, mas depois passou a abrir espaço para isso.

Quem está investigando o acidente?

Normalmente, o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA teria uma participação em qualquer investigação internacional envolvendo modelos fabricados no país. Mas o órgão deve agir com permissão e de acordo com a legislação do país estrangeiro em questão.

Em comentários publicados pela agência de notícias Mehr do Irã, Abedzadeh disse que o país não iria repassar as caixas-pretas aos fabricantes ou investigadores americanos. "Esse acidente será investigado pela organização de aviação do Irã, mas os ucranianos também podem participar", disse ele.

Abedzadeh disse que ainda não está claro qual país analisará as informações das caixas-pretas, como a gravação da conversa dos pilotos na cabine e dados de voo.

Anteriormente, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que "uma investigação completa e independente será conduzida de acordo com o direito internacional" e que ele conversaria com os líderes iranianos para intensificar a cooperação na apuração do acidente.

Nesta quinta-feira, a Ucrânia decretou um dia de luto nacional por conta do acidente.

A Boeing disse que está "pronta para ajudar de maneira que for necessária", enquanto o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, afirmou que seu país espera participar da investigação e ofereceu assistência técnica.

Direito de imagem Getty Images

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