Coronavírus: por que há mais homens que mulheres infectados

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Image caption Um estudo revelou que a taxa de mortalidade por coronavírus entre os homens é de 2,8%, contra 1,7% nas mulheres

No início de fevereiro, quando as autoridades chinesas já estavam combatendo o surto de coronavírus há um mês, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China (CCDC) realizou seu primeiro estudo com base em dados de pacientes.

A amostra era composta por 138 pessoas que haviam sido hospitalizadas com covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A idade média era de 56 anos — e 54,3% deles eram homens.

Semanas depois, quando o mesmo centro conduziu um estudo mais amplo, analisando os prontuários médicos de 72.314 pacientes, os dados mostraram uma conclusão semelhante.

Dos casos confirmados, 51% eram homens — mas o que chamou a atenção dos especialistas é que a taxa de mortalidade também era maior para o sexo masculino: 2,8% para os homens, e 1,7% para as mulheres.

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Image caption Até o momento, ainda não há vacina contra o novo coronavírus

Parte da conclusão dos médicos é que a infecção pelo novo coronavírus "tem maior probabilidade de afetar homens mais velhos com algum tipo de doença prévia".

Mais de 82 mil casos da doença foram registrados ao redor do mundo, e 2,8 mil pessoas morreram — sendo a maior parte na China.

Questão hormonal?

Para Sabra Klein, do departamento de microbiologia molecular e imunologia da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, o estrogênio — hormônio sexual feminino — pode ser a explicação para as diferentes respostas à doença.

"O estrogênio pode estimular aspectos da imunidade que são importantes para eliminar uma infecção viral e responder bem às vacinas", diz a cientista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Com base nessas informações, Klein levanta a hipótese de que o estrogênio seja um fator que contribui para a maior imunidade do sexo feminino no surto atual de coronavírus.

Mas como o surto é recente, ainda não há pesquisas que demonstrem isso de forma definitiva.

"Vários estudos realizados com camundongos infectados pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (Sars) mostraram que o estrogênio contribuiu sem dúvida para a maneira como as fêmeas controlavam melhor a infecção do que os machos."

Isso também aconteceu com o vírus da gripe comum.

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Image caption Como medida preventiva, as autoridades de saúde pedem para as pessoas lavarem as mãos constantemente

Em uma pesquisa realizada em células coletadas da mucosa do nariz de homens e mulheres, os pesquisadores descobriram que o estrogênio reduz bastante a quantidade de vírus da gripe que se replica nas células infectadas.

Isso sugere um possível efeito protetor do estrogênio no combate ao vírus.

Para Janine Austin Clayton, diretora associada de pesquisa em Saúde da Mulher no Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, essa pesquisa mostrou "a importância de estudar as células de homens e mulheres e considerar o sexo como uma variável biológica ao coletar e analisar os dados das células".

Além disso, as mulheres tendem a apresentar maior imunidade do que os homens após infecções virais, incluindo a gripe, o que poderia deixar a população feminina mais preparada para uma epidemia como esta.

Fatores culturais e sociais

Ambas as cientistas concordam, no entanto, que há vários fatores sociais e culturais que também podem estar fazendo com que a taxa de mortalidade dos homens seja mais alta.

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Image caption O coronavírus é uma grande família de vírus, mas sabe-se que apenas seis (o novo seria o sétimo) infectam seres humanos

Na China, onde 99% dos casos foram registrados até agora, a porcentagem de homens que fumam, de acordo com dados coletados pelo jornal americano The New York Times, é superior a 50%, em comparação com 2% das mulheres.

E como o coronavírus ataca os pulmões, causando pneumonia, o tabagismo aumenta o risco de complicações quando há uma infecção pelo novo coronavírus.

Os pacientes infectados apresentam vários sintomas, incluindo falta de ar, febre, tosse seca e dor muscular.

Austin Clayton lembra ainda que não devemos esquecer as diferenças de gênero, ou seja, as diferenças entre homens e mulheres em relação a comportamentos e papéis sociais. Fatores que não têm nada a ver com a biologia.

Uma grande diferença de gênero se traduz, por exemplo, no percentual de homens e mulheres que vão ao médico quando estão doentes.

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Image caption É assim que o coronavírus é visto no microscópio

"De acordo com um estudo dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, as mulheres americanas são 33% mais propensas que os homens a procurar um médico quando se sentem mal", explica.

Doenças prévias

Outros fatores que têm impacto direto na taxa de mortalidade dos homens infectados pelo novo coronavírus são a existência de doenças prévias e a idade.

Há uma incidência maior de diabetes tipo 2 entre os homens — e a pressão arterial deles costuma ser mais alta que a das mulheres.

"Nos seres humanos, embora as diferenças na imunidade possam ser um fator que contribui para responder à questão de por que as taxas de mortalidade são mais baixas nas mulheres do que nos homens, também devemos levar em conta doenças associadas a um risco maior de morte por coronavírus", diz Klein.

Por exemplo, as doenças cardiovasculares são um fator de risco "associado a piores resultados no atual surto de coronavírus, e os homens podem apresentar mais doenças cardíacas do que as mulheres nas faixas etárias em que as pessoas morrem".

De fato, as taxas de mortalidade aumentam gradualmente de acordo com a idade: para pessoas com 40 anos, é de 0,4%; de 50 anos, 1,3%; de 60 anos, 3,6%; de 70 anos, 8%; e de 80 ou mais, 14,8%.

A pesquisa do CCDC diz que cerca de 80,9% das novas infecções por coronavírus podem ser classificadas como leves, 13,8% como graves e apenas 4,7% como críticas, o que inclui insuficiência respiratória, falência múltipla dos órgãos e sepse.

No entanto, também há um inconveniente em ter um sistema imunológico mais forte.

"Embora a melhor resposta imune das mulheres contribua para uma eliminação mais rápida dos micróbios, essas respostas robustas também podem contribuir para uma maior suscetibilidade a doenças inflamatórias e autoimunes entre as mulheres", diz Janine Austin Clayton à BBC News Mundo.

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