Em imagens: As pessoas que se recusaram a abandonar Chernobyl

Direito de imagem Andrej Krementschouk
Image caption Fotógrafo Andrej Krementschouk visitou Chernobyl a partir de 2008 para realizar dois livros

“Este lugar simboliza aquilo que a humanidade é capaz de fazer consigo mesma: destruir o que ela própria construiu”, diz o fotógrafo russo Andrej Krementschouk, autor de dois livros sobre a tragédia na usina nuclear de Chernobyl, ocorrida em 1986.

Desde 2008, Krementshouck vem visitando o local e a zona de exclusão em um raio de 30 quilômetros em torno do reator que explodiu.

Suas imagens mostram a devastação e a renovação no local que foi palco do pior desastre nuclear do mundo. “Há até algumas pessoas ainda vivendo em Chernobyl, que não foi tão contaminada com radiação como Pripyat (cidade próxima à usina)”, conta ele.

Os que ficaram

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Nos livros Chernobyl Zone I e Chernobyl Zone II, as imagens de Krementschouk revelam tanto a tragédia do que foi perdido no desastre quanto a esperança das pessoas que decidiram ficar.

No segundo livro, Esther Ruelfs, especialista em fotografia do Museu de Arte de Hamburgo, descreve: “As fotos confundem a expectativa que temos a respeito de uma paisagem pós-apocalíptica, mostrando casas cobertas por uma vegetação luxuriante, a grama crescendo por entre as rachaduras das ruas e ervas daninhas de um metro de altura iluminadas pelo sol poente”.

Vida rural

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Chernobyl Zone I reúne as fotos que mostram paisagens rurais e retratos de pessoas que se recusaram a abandonar suas casas depois do desastre, apesar do risco de radiação.

“Observamos um mundo pacífico e tranquilo, um idílio pré-industrial paradisíaco: as pessoas vivendo em simbiose com os animais, o abate feito em casa, maçãs amadurecendo no parapeito da janela...”, relata Ruelfs.

Vestígios do passado

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Ainda assim, apesar de algumas das imagens de paisagens parecerem quase bucólicas, há algo de inquietante nas fotos de Krementschouk. “A água que corre no riacho é preta. E o amarelo tóxico da água da piscina onde as crianças brincam nos lembra da destruição por trás dessa calma”, diz a especialista.

As ruínas de Pripyat

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Já o livro Chernobyl Zone II reforça a ausência das pessoas na região e não mostra a vida humana. Krementschouk fotografou o centro abandonado de Pripyat, a apenas 4 quilômetros do reator, e evacuada em 27 de abril de 1986.

Na época, essa cidade ucraniana tinha 49 mil habitantes. “O que sobrou nos faz lembrar de nossa própria mortalidade”, diz o fotógrafo. “Chernobyl é o nome que associamos à catástrofe, mas Pripyat é o verdadeiro lugar intolerável.”

Vida pós-humana

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A evacuação foi realizada tão rapidamente que os moradores só puderam levar seus pertences em uma mala de mão. A foto acima, publicada em Chernobyl Zone II, chama a atenção por retratar o abandono. Uma jovem bétula irrompe por entre os ladrilhos do piso de uma sala estéril, que não tem mais vidraças nas janelas.

“Os moradores nem se preocuparam em arrumar os bancos e as cadeiras. O torpor aqui é tão infernal que as árvores tomaram o lugar dos prédios. Uma cena perturbadora de como será o planeta depois que não estivermos mais aqui”, descreve o especialista Wolfgang Kil, no livro de Krementshouk.

Memórias de infância

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Até mesmo nas imagens do que parece ser uma cidade-fantasma, os objetos abandonados trazem lembranças de outra era. “Os pertences deixados para trás são de um tempo que não existe mais. Tudo está mofado, rasgado, desbotado”, diz o fotógrafo. “Encontrei coisas nas casas que eu lembro de ter visto na infância, nos anos 70 e 80. Foi como adentrar no passado. Ali, no meio da zona de exclusão, consegui reconhecer o país onde nasci.”

O mundo antes da catástrofe

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“Ir a Chernobyl é encontrar uma parte do passado em que aquelas pessoas foram felizes”, afirma Krementshouk. Para o especialista Kil, o trabalho do fotógrafo abre as portas para o mundo antes da catástrofe.

A coragem de permanecer

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As imagens de Krementschouk não revolvem apenas no horror do que ocorreu. “Há algo mágico na zona de exclusão. A natureza é exuberante e os animais selvagens se reproduzem”, conta o fotógrafo.

Suas fotos mostram a coragem daquelas pessoas que ficaram. “Eles voltaram para suas casas, onde podem se sentir livres. Tendo nascido ali, elas se recusam a ir embora, mesmo que isso signifique morrer mais cedo”, diz.

Agradecimentos

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Para o fotógrafo, Chernobyl não pode ser resumido com palavras. “Conforme risco uma palavra após a outra, tudo o que me resta é apenas uma. Uma palavra que não posso deixar de pronunciar quando penso em todas as pessoas que me ajudaram, as pessoas que eu tive a sorte de conhecer naquela terra desolada de Belarus e da Ucrânia: obrigado.”

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