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02 de julho, 2002 - Publicado às 11h50 GMT
Leia íntegra de entrevista que causou afastamento de Bustani
Bustani critica governos brasileiro e americano
Bustani critica governos brasileiro e americano

Leia também: Bustani está 'sem casa e sem posto'

Edson Porto

O embaixador brasileiro José Maurício Bustani, que perdeu o posto de diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq), diz que a organização está mudando sua política para favorecer indústrias químicas e países ricos.

Ele foi demitido do cargo em abril, por pressão dos Estados Unidos.

Os americanos alegaram que Bustani fez uma má administração, mas especialistas defendem sua gestão e afirmam que os americanos eram contra a sua tentativa de tornar a organização mais ampla e incluir países como o Iraque e a Líbia.

Temporariamente em Londres substituindo o cônsul-geral na cidade, o embaixador faz uma defesa ferrenha da sua administração na Opaq e criticou os governos americano e brasileiro no episódio que resultou na sua demissão. Procurado pela BBC Brasil, a Opaq não quis comentar as acusações de Bustani.

BBC Brasil - O senhor sabe o que está acontecendo com a Opaq depois de sua partida?

José Maurício Bustani - Os desenvolvimentos na Opaq desde a minha saída confirmam o que eu havia dito anteriormente sobre o destino que está sendo dado à entidade por parte dos países que mais contribuem financeiramente para a entidade, em particular os Estados Unidos, o país autor da minha demissão.

Houve uma reestruturação importante que esvazia enormemente o papel do diretor-geral da organização.

Ao lado disso, houve uma reestruturação do orçamento do ano que vem com uma ênfase diferente da que é a pedida pela convenção (que rege a organização).

O que estão propondo atualmente é um regime que discrimina em favor dos países que têm grandes indústrias químicas aumentanto incrivelmente - e desnecessariamente - as inspeções nos países do hemisfério sul, onde as empresas químicas são menos importantes.

BBC Brasil - Como isso está sendo feito?

Bustani - Com mudanças no orçamento, que está sendo reescrito desde que eu parti. Em março, uma das minhas últimas tarefas na entidade foi a preparação do orçamento para 2003 - um orçamento de acordo com os requisitos da convenção e com os recursos disponíveis.

O orçamento que está sendo montado desvirtua completamente os fundamentos da organização, o que é uma pena.

BBC Brasil - O senhor acredita que o episódio da sua demissão pode afetar o futuro da Opaq?

Durante a crise, saiu um artigo no jornal (britânico) The Guardian que mencionava que o delegado norte-americano da organização disse numa reunião privada, antes da minha demissão, que a organização estava morrendo.

Eu acho que isso é verdade, eu acho que a Opaq está morrendo e está morrendo por culpa dos Estados Unidos, que na verdade não têm interesse em fazer vingar uma organização multilateral no formato no qual eu a desenvolvi.

A política americana hoje em relação a todos os arranjos multilaterais é muito complicada.

BBC Brasil - Por que o senhor acredita que a Opaq pode morrer?

Bustani - O que atraía os países - como a Líbia, que anunciou no ano passado que iria entrar na organização - era que a Opaq era vista como uma organização séria.

Eu pergunto por que a Líbia não formalizou uma entrada na Opaq.

Eu acho que com o episódio da minha demissão a organização perdeu muito em credibilidade e vai perder muito porque qualquer diretor com o apoio norte-americano está fadado a ser percebido como um agente dos Estados Unidos.

E a receita americana é seguinte: dar informações sobre os outros países, fingir que inspeciona os Estados Unidos, diminuir a prioridade dada a países em desenvolvimento e fazer a organização se subordinar aos desejos americanos mesmo em relação à administração de pessoal.

BBC Brasil - O senhor chegou a ser elogiado pelo governo americano por seu trabalho na Opaq. Por que os elogios se tornaram críticas?

Bustani - A relação americana com as organizaçõe internacionais sempre é complicada porque eles são os maiores contribuintes, e com a Opaq não foi diferente.

Eles se acham no direito de interferir na administração das organizações e interferir nas ênfases que devem ser observadas.

Durante a administração Clinton, as relações não foram muito fáceis, mas foram corretas.

Havia por parte de algumas autoridades em Washington a percepção de que existia a necessidade de aceitar a minha proposta para a Opaq, que era o efetivo estabelecimento de uma organização que servisse a todos os países em pé de igualdade.

Quando o governo Bush assumiu, recebi uma carta do secretário Powell (o secretário de Estado americano, Colin Powell) elogiando a atuação da entidade.

A crise começou quando John Bolton foi nomeado e tomou posse como subsecretário para Assuntos de Armamento e Proliferação. Um republicano linha dura, ele é conhecido por dizer que o prédio das Nações Unidas poderia perder dez andares que não iria fazer a menor diferença.

BBC Brasil - O que mudou depois que ele entrou?

Bustani - Bolton é um conhecido antimultilateralista. Ao tomar as rédeas, ele tentou impor a sua vontade. A partir daí a crise se fez muito mais complicada e aí a única maneira que eles viram de dar outros destinos à organização era se ver livre do diretor-geral.

BBC Brasil - Como o senhor responde às várias acusações que foram feitas contra sua gestão, como a de problemas financeiros?

Todas as acusações feitas pelos americanos são inverídicas. Tão inverídicas que, durante a conferência que me demitiu, eles não as colocaram por escrito.

A crise da organização do ponto de vista financeiro é motivada por um único motivo: a falta de pagamento por parte dos maiores cotistas, os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão, que são maus pagadores crônicos da organização.

Os americanos pagaram a primeira metade de sua contribuição do ano passado no dia 25 de outubro.

BBC Brasil - Durante o processo de sua demissão e depois dela, o Ministério das Relações Exteriores disse que trabalhou pelo senhor. Mas o senhor continua crítico em relação ao empenho do Ministério.

Bustani - Eu posso dizer o que me foi dito por todos os embaixadores latino-americanos, muitos africanos e asiáticos: a América Latina se absteve de votar a meu favor porque não houve pedido por parte do Brasil.

E a África e a Ásia se abstiveram porque não fazia sentido que eles votassem a favor quando a própria região do diretor-geral não o estava apoiando.

Fora isso, eu acho que a pergunta sobre o motivo da falta de apoio deve ser dirigida ao governo brasileiro.

BBC Brasil - O senhor acredita que o fato de ter sido demitido afeta negativamente a imagem da diplomacia brasileira?

Bustani - Sim. Mostra que houve uma interpretação errônea da natureza de um organismo internacional e da importância que representa um cargo como o que eu detinha.

Foi um desgaste enorme e um país que não está preparado para lutar por um representante seu não está preparado para enfrentar as pressões que lhe serão impostas se ele se tornar um membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, coisa que eu entendo que o governo brasileiro quer hoje.

BBC Brasil - Como esse epsódio lhe afetou pessolmente?

Bustani - Me afetou muito do ponto de vista geral e particular. Profissionalmente, fiquei muito entusiasmado quando fui chamado para o cargo na Opaq, porque realmente acreditava na convenção (que criou a organização).

Era uma convenção que não discriminava os países e eu achei que era um desafio extraordinário implementar uma convenção com essas características. Um pouco de idealismo, talvez.

Mas o fato é que depois de cinco anos de esforços e do resultado de abril, percebi que não só os Estados Unidos não estavam preparados, mas a comunidade internacional também não estava preparada para fazer crescer e vingar uma organização com essas características. O que é uma pena e muito grave.

Do ponto de vista pessoal, isso (a demissão) causou um grande impacto.

Eu tive que fechar a minha casa e sair de Haia (na Holanda) dentro do prazo que meu visto oficial permitia, de modo que hoje eu me encontro sem função, sem casa e sem destino.

Leia também: Bustani está 'sem casa e sem posto'
 
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Links externos:
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