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04 de novembro, 2002 - Publicado às 10h32 GMT
Português está desaparecendo em Macau
Rui Rocha diz que Portugal abandonou Macau
Rui Rocha diz que Portugal abandonou Macau

Silvia Salek, enviada especial a Macau

Nascido em uma família de nobres e ricos comerciantes portugueses, Rui Rocha vive há quase duas décadas em Macau em uma mansão no estilo oitocentista português construída em 1885.

"Falar português em Macau não dá mais o status de antes"

A mansão, conhecida como Casa Garden, abriga também a Fundação Oriente, uma instituição privada que luta pela preservação da língua de Camões na região.

A casa parece uma ilha onde a cultura, a arquitetura e a língua de Portugal sobrevivem em meio à crescente influência da China, que recebeu o território de volta do governo português em dezembro de 1999.

Nesta entrevista, Rui Rocha diz que Portugal sempre desprezou Macau e que, apesar dos 450 anos de colonização, o país nunca se esforçou pela preservação do português, que corre agora o risco de desaparecer na antiga colônia.


BBC Brasil - O português ainda é língua oficial em Macau, mas é quase impossível achar alguém que fale português nas ruas. Por quê?

Rui Rocha -
Na verdade, o português só foi realmente importante por aqui nos séculos XVI e XVII, quando era a língua franca da Ásia. Depois disso, a presença portuguesa nunca foi superior a 5% da população de Macau e apenas uma pequena parcela da população chinesa falava o português. Mas o que se vê, desde 1993, é uma redução ainda maior do papel do português em Macau, com exceção da administração pública que ainda incentiva o estudo e o uso do português ao lado do chinês.

A devolução da soberania para a República Popular da China provocou um êxodo dos portugueses que aqui viviam, muitos foram integrados à administração pública portuguesa. Além disso, os macauenses que falam o português perderam o papel de destaque que tinham na sociedade.

BBC Brasil - Por que perderam o papel de destaque?

Rui Rocha -
Porque durante o domínio de Portugal, o português era a língua da administração pública. Era um sinal de status falar o português, as portas do serviço público se abriam para os cidadãos macauenses bilíngües, que serviam como ponte entre os portugueses e os locais. Hoje, o chinês, uma variante do cantonês, é a língua da administração pública e esses cidadãos macaenses bilingües perderam muito do prestígio que tinham.

BBC Brasil - Eu acabei de chegar de Hong Kong e, lá, é muito fácil encontrar pessoas que falem inglês. O que explica a diferença entre Hong Kong e Macau?

Rui Rocha -
A partir dos anos 70, a escola modelo em Hong Kong passou a ser a anglo-chinesa. O chinês era disciplina obrigatória, mas o inglês é que era a língua de ensino na escola. Com isso, o inglês foi ensinado à população desde cedo. Em Macau, tivemos também uma escola luso-chinesa, mas nunca foi a escola padrão. 97% das escolas de Macau são privadas e têm planos curriculares completamente diferentes dos das escolas oficiais portuguesas. Se você não ensina desde cedo, fica muito mais difícil depois.

BBC Brasil - Por que quando mandavam aqui os portugueses não seguiram o exemplo de Hong Kong e tornaram o português obrigatório nas escolas?

Rui Rocha -
Por várias razões. Uma delas é a distância. Minha mãe demorava 40 dias e 40 noites de barco para vir para cá na década de 30. Mas há também questões políticas e diplomáticas. Portugal nunca apostou na Ásia, apostou no Brasil e na África. Muita gente em Portugal não sabe onde fica Macau. Macau nunca foi uma prioridade política e diplomática portuguesa. Além disso, houve sempre uma grande cautela em nunca impor o português nas escolas chinesas. Havia uma certa fragilidade nas relações entre os portugueses e os chineses daqui e, conseqüentemente, um receio de que uma imposição desse nível abalasse essa relação.


BBC Brasil - Devemos considerar também que o português é uma língua comercialmente menos importante do que o inglês. Será que os macauenses teriam algum benefício aprendendo o português?

Rui Rocha -
Esse tema desperta opiniões diferentes, mas a minha visão é de que sim, os macaenses se beneficiariam se falassem o português. Hong Kong é a porta para o mundo anglo-saxão, da Commonwealth. A língua portuguesa seria a porta para o mundo latino, para a América Latina, para a África de línguas oficiais latinas, para a Europa latina. São mercados importantes que não deveriam ser ignorados. Em uma china de mais de um bilhão de habitantes, essa seria uma forma de Macau se destacar do resto do país.

BBC Brasil - Se essa estratégia é boa, por que não convence os políticos de Macau?

Rui Rocha -
Curiosamente, essa idéia convence os políticos da China, mas não os de Macau. Tenho um exemplo: todos os anos, a Universidade de Macau promove um curso de verão de português. Em regra, esse curso tem 150 alunos. Desse total, cerca de 50% vêm da República Popular da China. De Macau, vêm apenas dois ou três. Portanto, a China reconhece a importância da língua portuguesa como uma das mais faladas no mundo, Macau não.

Em Sichuan, que é a maior província da China, com cerca de 180 milhões de habitantes, há um centro de intercâmbio para a área de saúde que escolheu a língua portuguesa como língua de cooperação. Poderiam ter escolhido o inglês, o francês, mas escolheram o português que representava um mundo lusófono com o qual tinham interesse em estreitar relações.

BBC Brasil - Será que essa resistência em Macau ao português não tem a ver com um certo ressentimento por causa dos séculos de dominação colonial?

Rui Rocha -
Esse é, sem dúvida, um fenômeno importante. Afinal, foram 450 anos de dominação colonial. O português nunca foi a língua materna dessa gente, foi a língua paterna, do colonizador. Mas além disso, a elite intelectual de Macau é, de uma certa maneira, de nível escolar. Não tem visão, há um certo paroquialismo na inteligentsia de Macau.

BBC Brasil - A devolução de Macau para a China dificultou o trabalho de pessoas como o senhor, que tentam preservar o português na ilha?

Rui Rocha -
Por incrível que pareça, Portugal teve uma oportunidade sem igual de fortalecer o português aqui no processo de devolução. Foi em 1993, quando a China aprovou a Lei Básica de Macau, que é hoje a Constituição de Macau. Nesse momento, o governo chinês e não o português declara que a língua portuguesa também é a língua oficial de Macau. O governo português de Macau deveria ter tido a preocupação de seguir essa orientação da Lei Básica e impor nas escolas portuguesas o português como a língua oficial, bem como o ensino obrigatório do chinês nas escolas oficiais portuguesas.

BBC Brasil - E o que o governo português fez?

Rui Rocha -
Não quis incomodar as comunidades chinesas, não teve coragem política de correr esse risco e acabou fazendo isso de uma forma pouco sensata, utilizando as instituições de ensino superior oficiais para impor o português como se isso fosse resolver todos os problemas do bilingüismo em Macau. Não resolveu por uma razão simples: não se constrói uma política lingüística pelo telhado da casa, mas sim pelas fundações, ou seja, pelo ensino primário.

BBC Brasil - Será que o português vai desaparecer de Macau?

Rui Rocha -
Ascensão e queda das línguas Quem poderia prever que o latim ia desaparecer. O Aramaico também desapareceu. Em Macau, há bolsas de resistência da língua que vêm não apenas dos portugueses que permanecem em Macau, mas também de chineses que querem que Macau seja diferente do resto da China. Existe um patrimônio histórico e cultural aqui muito importante. Macau pode virar patrimônio mundial pela Unesco.

Mas esse patrimônio não pode ser apenas de fachada e, infelizmente, existe o risco de o português só ser falado por um pequeno grupo. Fico muito frustrado com o abandono de Macau. Não interessa que o discurso da banalidade diga que Macau é uma sociedade multicultural. O português está nas placas, nos prédios, mas essa fachada de nada serve se ninguém entende o português. O português é como, tal qual na física quântica, aquela pequena diferença que pode fazer toda a diferença de Macau dentro da China.

Leia também: Hong Kong vira primo pobre da China
 
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