Protecionismo americano já não preocupa siderurgia brasileira

Siderúrgica
Image caption Setor foi duramente afetado por medida protecionista em 2002

O setor de siderurgia no Brasil faz as contas para avaliar o impacto que a cláusula "Buy American" - incluída no pacote de estímulo econômico aprovado pelo Senado dos Estados Unidos nesta terça-feira - pode ter nas exportações para o mercado americano.

A cláusula originalmente previa que somente aço, minério de ferro e manufaturados produzidos nos Estados Unidos poderiam ser usados em projetos contemplados pelo pacote. A medida, em tese, prejudica o Brasil, que está entre os dez maiores fabricantes de aço do mundo.

Na semana passada, o Senado decidiu amenizar a cláusula ressaltando que a restrição "deve ser aplicada de uma maneira que contemple as obrigações dos Estados Unidos em acordos internacionais".

Leia mais na BBC Brasil: Senado dos EUA ameniza cláusula de preferência por produtos americanos

A avaliação do setor siderúrgico brasileiro, até o momento, é de que a cláusula não preocupa. "O protecionismo é sempre ruim, mas nem de longe vamos sofrer o baque pelo qual passamos em 2002, quando o mercado americano fechou as portas para o aço estrangeiro", diz Christiano da Cunha Freire, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda).

"As exportações para os Estados Unidos já vinham perdendo importância nos últimos anos. O resultado é que hoje somos menos dependentes do mercado americano." Prejuízo

Em 2002, a Casa Branca impôs uma barreira comercial ao aço importado, por meio de uma tarifa que variava entre 8% e 30%. Estima-se que a medida tenha causado um prejuízo de US$ 400 milhões à indústria brasileira. Seis anos depois, o aço volta a ser motivo para o protecionismo comercial, mas a conjuntura é diferente e favorece o Brasil. No ano passado, o Brasil exportou US$ 1 bilhão em aço para os Estados Unidos, número que representa 12,5% do total exportado. Há seis anos, o peso do mercado americano era maior, consumindo um terço das exportações brasileiras. O motivo para a mudança de curso está no crescimento da economia brasileira. De acordo com o analista Pedro Galdi, da SLW Corretora, a expansão da economia local nos últimos anos, sobretudo nos setores automobilístico e de infraestrutura, fez com que os fabricantes de aço voltassem suas estratégias de venda para o mercado nacional. "As duas principais companhias, CSN e Usiminas, reduziram significativamente suas exportações no ano passado", diz Galdi. No caso da Usiminas, 80% das vendas da empresa no ano passado tiveram o mercado brasileiro como destino. Dos 20% restante, apenas 13% foram para os Estados Unidos. Ainda de acordo com analistas, a cláusula Buy American, se realmente aprovada, pode inclusive beneficiar uma das principais fabricantes de aço brasileiras, a Gerdau. Isso porque a empresa, por ter operações no mercado americano, estaria na lista das possíveis beneficiadas. A avaliação da corretora Coinvalores é de que "o máximo que essa cláusula pode fazer é beneficiar a Gerdau". Efeito dominó Já o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia, Marco Polo de Mello Lopes, diz que o protecionismo americano preocupa mais "pelo efeito dominó que ele pode gerar". "Nem tanto pela cláusula em si, mas pelo perigo de que o protecionismo contamine as relações de comércio mundial", diz. Além disso, diz, "é preciso estar atento para que as regras da Organização Mundial do Comércio não sejam violadas, como aconteceu em 2002". O Departamento Econômico do Itamaraty já encomendou um levantamento sobre as exportações de aço para os Estados Unidos. O objetivo é descobrir a participação do aço brasileiro entre as compras governamentais americanas, que poderão ser afetadas pela cláusula do Buy American incluída no pacote. Além disso, o governo brasileiro também está atento para a regulamentação do pacote econômico, quando aí sim as condições e os detalhes de uma possível cláusula protecionista serão delimitados.

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