Investimentos da China na América Latina ainda não saíram do papel

Premiê chinês, Hu Jintao, no aniversário da marinha chinesa (abril 2009)
Image caption Premiê Hu Jintao prometeu uma série de investimentos na região.

Os países da América Latina e Caribe ainda aguardam os bilionários investimentos prometidos pela China nos últimos anos. Diversos compromissos firmados ainda não se concretizaram.

A expectativa é de que agora, preocupada com a crise financeira, a China volte suas atenções ao mercado latino. A região é a segunda maior consumidora de produtos chineses do mundo.

Em visita aos países latinos, em 2004, o presidente chinês Hu Jintao anunciou uma série de "compromissos", que se converteriam em investimentos na região.

No Brasil, os projetos chegariam a US$ 10 bilhões no prazo de dois anos. Na Argentina, os acordos assinados, segundo os dois governos, tinham o potencial de gerar, em média, US$ 1 bilhão por ano.

Já em Cuba, o principal projeto previa a construção de uma nova fábrica de níquel, no valor de US$ 500 milhões.

Um exemplo de projeto que não se concretizou é o da siderúrgica Baosteel, que há oito anos negocia a construção de uma planta no Brasil, em um negócio avaliado em US$ 5 bilhões.

Nos últimos anos, a prioridade dos investimentos chineses tem sido a África. Em 2006, ano mais recente com dados oficiais, a China investiu US$ 10 milhões no Brasil e US$ 30 milhões em Cuba, enquanto países como Nigéria e Sudão receberam, respectivamente, US$ 67 milhões e US$ 50 milhões.

De acordo com o Itamaraty, o assunto estará na pauta da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta semana. O governo brasileiro pretende mostrar que os investimentos chineses no Brasil estão "abaixo" de seu potencial.

Custo alto

O presidente da Câmara Brasil China, Charles Tang, diz que os chineses "ainda se assustam" com as condições de investimento na região. "O custo é alto e a burocracia não ajuda", diz.

Segundo ele, a Baosteel não investiu até hoje no Brasil em função de uma série de "impedimentos ambientais". "Cada hora é um impedimento que surge. Enquanto isso o Brasil deixa de receber um investimento bilionário", diz.

A professora do departamento de Desenvolvimento da Universidade de Oxford, Xiaolam Fu, diz que os investimentos da China no exterior têm sido "tímidos" de uma forma geral, e não apenas na América Latina.

Em 2007, os chineses investiram US$ 50 bilhões em outros mercados - pouco para um país cujo PIB chega a US$ 4,3 trilhões.

"As condições e custos de produção na China são muito favoráveis. Uma empresa chinesa tem de encontrar condições parecidas para que a produção em outros países valha a pena", diz Xiaolam.

Nova fase

Segundo os analistas, a crise financeira internacional pode mudar esse cenário. Nos últimos meses, a China fechou acordos de financiamento com países da região, com o intuito de estimular o comércio entre os dois lados.

Brasil, Argentina, Venezuela e Equador estão entre os países da região que vêm sendo cortejados com financiamentos chineses.

O governo chinês prometeu colocar a disposição da Argentina um montante de 70 bilhões de yuan (o equivalente US$ 10 bilhões), uma espécie de crédito que facilitará o comércio entre os dois países.

A China já havia anunciado a ampliação de financiamentos à Venezuela e ao Equador, nos valores de US$ 6 bilhões e US$ 1 bilhão, respectivamente.

Já o Brasil estuda um empréstimo de US$ 10 bilhões junto aos chineses, para o caixa da Petrobras. O acordo deverá ser anunciado durante a visita do presidente Lula a Pequim.

"Chega um momento em que não dá mais para explorar apenas o comércio. A China parece estar aprendendo que a relação econômica deve ir além", diz Maurício Moreira, economista-sênior do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A professora de Oxford concorda, mas segundo ela esse é um processo "gradual". "O comércio já estava consolidado. Entramos agora na fase dos empréstimos. A expectativa é de que depois venham os investimentos", diz.

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