Para jornalista presa no Irã, protestos revelam 'frustração' social

Roxana Saberi (arquivo)
Image caption Roxana foi condenada a oito anos, mas a Justiça relaxou sua condenação

A jornalista Roxana Saberi, que passou quatro meses presa no Irã sob acusação de espionagem, afirma que os protestos contra os resultados das eleições no país revelam um "sentimento geral de frustração em relação às mudanças" que a sociedade iraniana espera.

Roxana, que tem nacionalidades iraniana e americana, foi presa em janeiro deste ano e libertada em maio depois que a Justiça iraniana resolveu relaxar sua condenação a oito anos de prisão. Ela nega as acusações de espionagem. "Estou fisicamente longe do Irã, mas minha cabeça está lá", disse a jornalista, em entrevista exclusiva ao programa de rádio The World, uma coprodução da BBC transmitida nos Estados Unidos. Antes de ser presa, ela havia trabalho no Irã por seis anos.

O caso de Roxana gerou repercussão internacional. Na ocasião, o presidente americano, Barack Obama, disse que ficou "decepcionado" com a decisão da Justiça iraniana, e até o atual líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, disse que a jornalista tinha direito de defesa no caso.

Leia também na BBC Brasil: 'Irã liberta jornalista presa por espionagem'

Como jornalista, Roxana Saberi chegou a trabalhar para a BBC e também contribuiu para a NPR, a rede pública de rádio dos Estados Unidos, e para a emissora de televisão americana Fox News.

Frustração

Na entrevista à BBC, Roxana diz ter se surpreendido com a postura dos manifestantes iranianos nos recentes protestos realizados no país.

"Estou surpresa com a coragem de muitos desses iranianos de se manifestar pacificamente pelos direitos que eles consideram básicos", disse.

"Creio que eles (os líderes do regime) não esperavam protestos tão massivos contra os resultados das eleições."

A jornalista conta que, de volta aos Estados Unidos, procura manter contato com os amigos no Irã, e que "alguns acham que foram enganados".

"Eles sentem que estão sendo tratados como ingênuos ou ignorantes, e que as autoridades acham que eles aceitarão qualquer coisa que for dita", diz Roxana. "Eles não gostam de ser tratados como ingênuos ou ignorantes."

"Claro que a sociedade iraniana é diversa, e muita gente apoiou Ahmadinejad, mas as pessoas com quem eu conversei acham que foram enganadas."

Regime fechado

As declarações da jornalista foram dadas em meio a denúncias de que o governo iraniano procura dificultar o trabalho da imprensa no país. Jornalistas são proibidos de circular livremente e de informar sobre as manifestações.

Na opinião de Roxana, o Irã é um país "muito difícil de analisar" porque o regime "não é transparente" e as pesquisas políticas "têm de ser vistas com certo ceticismo".

"As pessoas também são imprevisíveis: elas não dizem o que pensam ou não revelam o que vão fazer até o último minuto", avalia a jornalista.

Ela diz não descartar que a recontagem dos votos anunciada pelo aiatolá iraniano Ali Khamenei seja apenas um "truque" do regime.

"Isso pode ser um truque político para esvaziar a oposição", afirma. "Eles não disseram quem vai realizar a recontagem, se são os mesmos que fizeram a contagem anterior ou não."

Clique aqui para ouvir a entrevista de Roxana Saberi ao programa The World (em inglês)

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