Desistência de opositor coloca em dúvida 2º turno no Afeganistão

O candidato da oposição, Abdullah Abdullah
Image caption Abdullah acusa governo de não tomar medidas para evitar novas fraudes

As autoridades do Afeganistão estão tentando resolver o impasse a respeito da realização do segundo turno das eleições depois que o candidato da oposição, Abdullah Abdullah, anunciou neste domingo que se retirou do pleito.

Em uma entrevista na capital afegã, Cabul, Abdullah afirmou que se retirou porque o governo se recusou a contemplar o que ele considera serem "condições mínimas" para evitar novas fraudes.

No primeiro turno, realizado em agosto, cerca de 1,3 milhão de votos foram anulados por indícios de fraude.

Com a desistência de Abdullah, a realização do segundo turno agora foi colocada em dúvida.

O único candidato restante, o presidente Hamid Karzai, que disputa a reeleição, afirmou que a Comissão Eleitoral Independente do Afeganistão deve decidir a questão.

De acordo com correspondente da BBC em Cabul Andrew North, as autoridades tentam encontrar os meios legais para resolver a situação e isto pode levar a Comissão Eleitoral Independente cancelar o segundo turno das eleições e, então, a Suprema Corte afegã determinaria que Karzai venceu as eleições.

Em seguida, segundo North, viria o processo difícil de formação de um novo governo.

Estados Unidos e Grã-Bretanha

Estados Unidos e Grã-Bretanha afirmaram que as autoridades afegãs devem encontrar uma solução para o impasse. Anteriormente os dois países eram a favor do segundo turno das eleições, depois das fraudes que marcaram o primeiro turno.

"Agora é uma questão para as autoridades afegãs, escolher uma solução para concluir este processo eleitoral de acordo com a Constituição afegã", afirmou em uma declaração a secretária de Estado americana Hillary Clinton.

"Vamos apoiar o próximo presidente e o povo do Afeganistão, que quer e merece um futuro melhor."

Clinton também pediu que Abdullah permaneça "comprometido" e trabalhe para a paz no país.

"Dr. Abdullah se retirou da eleição visando a unidade nacional", afirmou o primeiro-ministro britânico Gordon Brown.

Brown acrescentou que disse a Hamid Karzai que agora é necessário formar um "governo inclusivo" que possa enfrentar a corrupção e construir um governo local popular.

Sem boicote

Em uma entrevista coletiva na capital afegã, Cabul, Abdullah Abdullah disse, que não está incentivando seus eleitores a boicotar a votação, marcada para o dia 7 de novembro.

"Não participarei das eleições", declarou. Mais adiante, questionado por repórteres se estava conclamando seus partidários a boicotar o pleito, disse: "Não fiz este chamado".

O candidato da oposição estava condicionando sua participação no segundo turno à renúncia do diretor da Comissão Eleitoral Independente, Azizullah Lodin, que foi rejeitada pelo presidente afegão, Hamid Karzai.

Como "condições mínimas" para permanecer na disputa, Abdullah também havia pedido o fechamento de diversos postos de votação, a fim de fazer melhor uso dos monitores eleitorais.

Em vez disso, as autoridades anunciaram que abririam mais locais de votação.

Em entrevista à BBC, Abdullah afirmou que tomou a decisão "visando os interesses do país". O candidato da oposição afirmou que decidiu se retirar da disputa por "temer que (o segundo turno) não ajudaria o processo democrático, poderia não restaurar a fé do povo no processo democrático".

"Foi uma decisão difícil, uma decisão dolorosa, mas tomei esta decisão... Pensei que seria o melhor para o país se eu não participasse", afirmou.

A segunda rodada eleitoral só foi definida após a anulação dos votos fraudulentos do primeiro turno, o que reduziu de 54% para menos de 50% o percentual de votação de Karzai.

A investigação da Comissão para Queixas Eleitorais, um painel apoiado pela ONU, concluiu que apenas 49,67% dos votos do primeiro turno tinham sido para Karzai. Abdullah conseguiu cerca de 31% dos votos válidos.

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