Irã aposta na América Latina para escapar de sanções, dizem analistas

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (foto de arquivo)
Image caption Para analista, Ahmadinejad procura diversificar relações iranianas

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, chega ao Brasil nesta segunda-feira com os objetivos de ampliar suas parcerias para aliviar os efeitos das sanções econômicas impostas contra o Irã e de buscar apoio ao seu programa nuclear, segundo analistas de países do mundo árabe e persa, ouvidos pela BBC Brasil.

"A administração do presidente Ahmadinejad foi a que mais buscou novos parceiros comerciais em regiões antes ignoradas, como a África, América Latina e outros países asiáticos", disse Mahjoob Zweiri, economista e cientista político da Universidade da Jordânia.

"Ahmadinejad viu no Brasil um parceiro de negócios e também estratégico, um possível mediador com o Ocidente", disse Mohammad Marandi, cientista político da Universidade de Teerã.

"O grande interesse do Irã na América Latina é comercial, mas também joga sua estratégia para buscar apoio internacional ao seu programa nuclear", enfatizou Marandi.

Para Zweiri, as sanções econômicas dos Estados Unidos e outros países europeus fizeram o governo do Irã se lançar em busca de novos mercados, principalmente no Hemisfério Sul.

Nos últimos anos, o Irã aumentou sua presença econômica e diplomática na América Latina, com o anúncio de abertura de escritórios comerciais e embaixadas no Chile, Colômbia, Equador, Nicarágua, Bolívia e Uruguai.

<b>Acordos comerciais</b>

Ahmadinejad desembarca no Brasil nesta segunda-feira com cerca de 200 empresários que buscam negócios nas áreas de petróleo e investimentos no mercado financeiro.

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Há a expectativa de que Ahmadinejad assine 23 acordos comerciais com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o Ministério de Relações Exteriores do Irã, o país quer investir em petróleo, petroquímicos, agricultura, construção, mineração e setor automotivo.

O comércio entre Brasil e Irã gira em torno de US$ 2 bilhões por ano. O Brasil exporta comida, carros, remédios e minérios, além de ter a Petrobras operando no país. Já o Irã exporta tapetes, sal, químicos, combustível e frutas secas.

"O Irã vem ampliando acordos econômicos com países africanos, onde já possui investimentos, e busca um maior comércio com os países latino-americanos, especialmente pesos-pesados como o Brasil e Venezuela", disse Mahjoob Zweiri.

Segundo ele, a relação do Irã com a Venezuela vem desde os anos 60, quando ambos participaram da fundação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

"Os dois países, por exemplo, investiram juntos mais de US$ 200 milhões em uma empresa de cimento na Bolívia."

O professor explica que, com isso, o Irã incrementa sua presença econômica e busca maior apoio político para fugir de seu isolamento no cenário internacional com o Ocidente.

<b>Estratégia geopolítica</b>

De acordo com o diretor do Centro Libanês de Estudos Políticos, Oussama Safa, o Irã busca também maior presença na América Latina para contra-atacar a forte presença americana em dois de seus vizinhos, Iraque e Afeganistão.

"O esforço de expandir a relação estratégica com países do continente dobrou no governo Ahmadinejad. A forte aliança entre o presidente iraniano e Hugo Chavez é baseada também na ideologia antiamericana", disse Safa.

Para ele, o Irã quer atingir os Estados Unidos usando a América Latina como moeda de barganha.

"As sanções e a pressão dos EUA fizeram com que o governo iraniano buscasse terreno na região que supostamente era de influência americana e que foi ignorada pelo governo do ex-presidente George W. Bush", explicou ele.

Para Safa, o Brasil oferece ao Irã uma peso considerável, dada a importância do país sul-americano no cenário internacional.

"O Brasil já é uma potência econômica e política mundial, e é o líder em sua região. Ganhar o apoio brasileiro seria uma grande vitória política de Ahmadinejad."

Para Mahjoob Marandi, a ambição brasileira de conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU fez os dois países se aproximarem com interesses mútuos.

"O Brasil quer um assento permamente e maior participação na mediação de assuntos internacionais, principalmente no Oriente Médio. E o Irã quer ter mais interlocutores importantes a seu favor", completou.

Sanções

As sanções do governo dos EUA incluem um embargo a negócios entre empresas americanas e iranianas, à venda de aviões e peças para o Irã, de investimentos de companhias de petróleo americanas no país e a proibição de bancos iranianos de transferir dinheiro para os EUA e vice-versa. Outros produtos em uma lista podem ser comercializados desde que não sejam enviados diretamente ao Irã.

A União Europeia também congelou fundos pertencentes a bancos iranianos, incluindo o maior banco do país, e adicionou mais nomes à lista de cidadãos iranianos proibidos de entrar em países europeus.

O isolamento iraniano aumentou nos últimos anos devido a seu polêmico programa nuclear.

Os Estados Unidos e outros países ocidentais acusam o governo iraniano de tentar desenvolver armas nucleares. Mas o Irã insiste que seu programa tem fins pacíficos para a produção de energia e pesquisas médicas.

Em 2007, o presidente Lula manifestou apoio ao direito do Irã de desenvolver um programa nuclear desde que fosse para fins pacíficos.

O Brasil também criticou a imposição de mais sanções ao Irã, alegando que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deveria resolver a questão nuclear do Irã, e não o Conselho de Segurança da ONU.

Em 2008, novas sanções econômicas foram aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas como forma de pressionar o governo iraniano em relação a seu programa nuclear.

No mesmo ano, o Brasil declarou que não reconhecia sanções unilaterais impostas ao Irã e pediu ao governo iraniano que colaborasse com a AIEA para evitar mais sanções.

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