Tribo usa internet como instrumento de integração e ativismo

Image caption Os índios usam a internet como meio de auto-afirmação cultural e política

O repórter da BBC Brasil Pablo Uchoa saiu de Londres para passar três dias com a tribo dos Suruí, os donos da reserva Sete de Setembro, na divisa de Rondônia com o Mato Grosso.

A viagem faz parte da série Superpotência que investiga o impacto da internet.

Em um projeto pioneiro, os indígenas estão usando a internet como meio de auto-afirmação cultural e política, e de ativismo contra o desmatamento da Amazônia, que ameaça a integridade das suas terras.

Acompanhe o diário.

Dia 5: Os ventos da mudança

Gasodá Suruí e Tori Tupari, chamemo-los por seus nomes indígenas, se conheceram no Orkut, flertaram pelo MSN Messenger e agora, casados, observam achando graça o aparato do jornalista que montou uma câmera de vídeo e improvisou um auxiliar técnico para segurar o microfone boom, medidas essenciais para garantir a boa captação de imagem e som e, assim, a qualidade técnica da matéria.

O jornalista, o leitor já desconfia, é esse que vos escreve. E o casal, quando a entrevista se inicia, no fim das contas nem é tão tímido assim. Pelo contrário, estão acostumados a serem o centro das atenções, na qualidade de único casal internético indígena por estas bandas.

A história deles, que o leitor conhecerá em breve, quando a BBC Brasil colocar no ar as matérias em texto e vídeo, é uma dessas narrativas pela qual vale a pena cruzar o Atlântico. As coisas estão mudando por estes lados. E ao mesmo tempo, permanecem como eram antes.

Image caption "As coisas estão mudando e, ao mesmo tempo, permanecem como antes"

No cair da tarde, com todos os moradores da aldeia de volta às suas casas, o lugar imerge em uma pacata vida comunitária. As mulheres assam a carne e pilam a farinha de mandioca para a paçoca. A mãe do líder Almir Suruí conta histórias de caçadas e pajelança para o grupo, em dialeto Páiter. As casas de madeira têm luz elétrica, mas basta caminhar 30 metros para longe delas e já se pode contemplar o céu limpo, cheio de estrelas.

Só nos 45 minutos de estrada de barro que separam a terra indígena da estrada de asfalto é que me dou conta da distância – física, é claro, mas também em vários sentidos figurados – de casa. Ao longo de toda esta viagem, a distância às vezes diminuiu, como quando Gasodá e Tori contaram sua história que, em sua essência, tirando as cores do cenário, é bastante parecida com a de qualquer casal de jovens que se conheceu na internet em qualquer lugar do mundo.

Mas Almir e Neide não esquecem de que seu mundo e o meu são mundos diferentes. Fazem questão de me escoltar até a cidade de Cacoal porque sabem que jornalistas estrangeiros aqui podem ser mal vistos por dar voz aos indígenas, que tentam manter suas raízes e preservar o meio ambiente em que vivem. Para muitos, isso é impedir o progresso.

Para além da reserva indígena, agora sou capaz de perceber a transformação que se operou por aqui. Deixo Cacoal antes da primeira luz do dia e, quando os raios de sol iluminam a estrada, o que vejo é uma paisagem que associo mais ao Pantanal que à Amazônia. Pastos e áreas de agricultura mecanizada formam uma sequência nos 500 km até Porto Velho.

No rádio do carro, os programas tocam sertanejo entre comerciais de frigoríficos e indústrias de máquinas e químicos. A música é bonita. É uma cultura de cowboys, de rodeios, de criação de gado. Em outro canal, em um programa só de músicas do Nordeste, o apresentador “acorda” os ouvintes riscando a lâmina de uma peixeira.

É um reflexo, creio, da composição social desta parte da Amazônia e de outras. O problema é que nem todas estas partes da mesma sociedade convivem em paz aqui. E eu não vou fazer chover no molhado, listando para o leitor a tensão por conta dos conflitos fundiários, ambientais e sociais da região.

Esta reportagem, que se originou a partir de uma história isolada dos Suruí e sua parceira com a internet, acabou servindo de metáfora das pressões por transformações sobre a Amazônia brasileira. Mas que reportagem não o faria? Não são poucas as divergências sobre o que deve ser esta transformação, em que ritmo ela deve ocorrer e qual deve ser o resultado dela.

Os ventos da mudança sopram forte por aqui. E ninguém sabe para onde eles vão levar em 30, 40, 50 anos.

Dia 4: O 'tempo amazônico'

Image caption As redes na casa de Almir, líder dos Suruí

Neidinha, como todo mundo chama Ivaneide Cardozo por aqui, gosta de dizer, sempre, "o tempo amazônico" é diferente.

E eu acho que qualquer um entende o que ela quer dizer com isso, em princípio. Mas só mesmo passando umas poucas e boas para saber, com todas as letras, o que é que ela chama de "tempo amazônico".

Neidinha recorda seu ditado enquanto esperamos que passe a chuva torrencial que começou a cair e não parou mais, deixando pouca opção senão estirar-nos nas redes da varanda da casa do líder Suruí, Almir, na aldeia de Lapetanha, a pouco mais de uma hora de Cacoal.

É uma espécie de pausa forçada no trabalho. Mas contra a força da natureza não há o que fazer.

Lapetanha, a aldeia mais próxima da estrada de asfalto, segue seu ritmo habitual. Poucas casas de madeira entre as quais se destacam uma ou outra maloca típica, de teto de palha seca. Sou informado de que a maior, que podia receber até 200 pessoas, pegou fogo não muito tempo atrás.

Antigamente, a aldeia se estendia até Cacoal e os índios eram 5 mil, me dizem. O contato com o homem branco, em 1969, dizimou grande parte da etnia, que chegou a ter apenas 250 membros e agora tem 1.350.

Fiz e refiz inúmeras vezes imagens das crianças que brincam na aldeia e dos cães que me olham com cara de bocejo enquanto caminho de lá para cá de tripé na mão. Adiante, uma mulher faz um colar de coquinhos enquanto ferve pupunha e castanha. Mais cedo, antes da chuva, outra lavava roupa em um tanque com uma máquina de lavar do lado.

Demos o azar de desencontrar uns membros da tribo que estão monitorando as florestas da reserva Sete de Setembro usando GPS. Agora, é preciso esperar até amanhã. O tempo amazônico.

Cabe-nos experimentar a vida na aldeia. Jogar conversa fora aqui e ali com os moradores. Os jovens demais não falam português ainda, só tupi mondé; os adolescentes e adultos jovens falam as duas línguas; os mais velhos, sempre falaram só o tupi mondé.

Do nada, a oportunidade para fazer gravações aparece, como quando Arildo, um dos coordenadores de cultura dos Suruí, disse que nos mostraria o centro de cultura do vilarejo, que possui alguns computadores.

Mal ele abriu a sala, um enxame de garotos e garotas de oito ou dez anos voou para os dois computadores nos quais um programa dá informações sobre as aves nativas e reproduz o canto dos pássaros.

Os garotos ainda são muito jovens para receber treinamento em computação, mas demonstram um entusiasmo incrível. Arildo me ajuda com o tupi mondé para conversar com um deles

Image caption A aldeia de Lapetanha

Mais tarde, repassando as gravações do dia, divirto-me com a festa de "passarinhos" que ilustra o pano de fundo. Isso foi na "hora do computador", se é que posso falar assim. Mas tudo no seu devido tempo.

Antes, quando o "tempo amazônico" da Neidinha ainda nos "impunha" a contemplação, os passarinhos que povoaram minhas gravações foram outros, os de verdade. Com o microfone em punho para captar sons para um programa de rádio que prometi para o serviço em inglês, me embrenhei no mato e deixei o equipamento "ouvir" os sons da floresta.

Foi uma sinfonia de cantos. Lembrei-me de uma rádio londrina que só toca o som dos passarinhos – a rádio <i>Birdsong</i>, vejam que criativo – e que estourou na audiência, sugerindo o quanto nossa corrida vida moderna sente falta disso no dia-a-dia.

Deixei-me levar pela suavidade dos sons, e se não fosse pela bufada de um cavalo, a coisa mais barulhenta que soou em muitos minutos, teria continuado por outros mais.

E ainda há os que não têm tempo para perceber essas coisas simples da vida. Para esses, uma boa dose de "tempo amazônico", tempo para parar e contemplar a existência, não faria nada mal.

Dia 3: Um líder indígena 'bem na foto'

"Sua câmera é bem pequeninha. Tenho medo dessas coisas assim."

Image caption Almir, líder dos Suruí, durante filmagens

Almir, o líder dos Suruí, me observa de lá fazendo cara de desconfiança. Posicionei-o para nossa entrevista a alguns metros de distância, o que no plano fechado da minha lente cria um agradável efeito de fundo, e no plano aberto mostra a grama verdinha e uma maloca indígena típica dos Suruí.

Sei que sua declaração é só charme. Ora, se há um povo indígena que percebeu muito bem a utilidade desses pequenos <i>gadgets</i> e faz uso deles de maneira pioneira e criativa, esse povo se chama Suruí. Mostrar isso não é justamente o propósito da minha visita aqui?

"Imagine", respondo. "Nisso sei que quem dá aula são vocês."

Almir me recebeu na sede de sua associação, Metareilá, em Cacoal, com uma apresentação de Powerpoint feita sob medida para o interlocutor que o escuta pela primeira vez. De um laptop pequeninho, que fez o meu trombolho passar vergonha, ele projetou as imagens do desmatamento ao redor da reserva indígena Sete de Setembro na parede de sua sala.

Internet, Picasa, Google Earth, todas essas são ferramentas de que ouvi falar uma porção de vezes conversando sobre os projetos dos Suruí.

E o xodó deles já nem é mais o computador ou o laptop, e sim os telefones que tiram fotos e enviam por internet. Um carregamento desses deve chegar em breve e permitir aos indígenas postar fotos do desmatamento na internet em tempo real, poupando o tempo do download e do envio.

Os Suruí não são os únicos nem os primeiros a utilizar a tecnologia moderna em seu benefício. Há seis anos, editei um programa de TV sobre os Kamayurá, que vivem no Xingu, e entre os diversos personagens havia um que era cinegrafista e contava como essa tecnologia vinha ajudando os indígenas a registrar suas tradições orais.

O que diferencia os Suruí é a maneira criativa e pioneira, para repetir minhas próprias palavras, de integrar estas tecnologias a um plano de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Algo que tem sido creditado à visão de longo alcance de Almir. Curiosamente, o clã dele é responsável, entre o povo Suruí, por tratar dos assuntos ligados à guerra, à diplomacia e ao meio-ambiente. Ao ‘trocar o arco-e-flecha pelo laptop’, ele revolucionou os três campos de uma só vez.

Demonstrou um notável talento político, e se o leitor me perdoa a ousadia, inclusive certa qualidade de estadista. E lá nas prateleiras da Associação Metareilá estão reportagens e reportagens, a grande maioria publicadas em jornais estrangeiros, sobre Almir e a luta ambiental dos Suruí. Inclusive uma edição da revista <i>Época</i> que o coloca entre os cem brasileiros mais influentes do país.

No fim de nossa entrevista, para efeito de <i>making of</i>, Fred, da ONG ACT Brasil, nos sugere que tiremos uma foto conjunta.

"Se até o Príncipe Charles tirou uma foto com o Almir, eu também quero", disse Fred, referindo-se a uma imagem de Almir com o príncipe herdeiro britânico exposta na sala do líder indígena.

Almir, que por acaso deve ter sabido de minhas andanças pelo mundo cobrindo as viagens de outro lider, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, não perdeu a piada.

"Então vamos. Se até o Lula tira foto com o Pablo, então eu também quero."

Sei, sei. Pode ter sido só brincadeira, mas a comparação com Lula me deixou com a pulga atrás da orelha. E me diverti pensando que pode ter sido apenas um deslize da modéstia de Almir, tentando esconder ambições maiores.

Dia 2: Na floresta verde, tapete vermelho para os convidados

Continuando viagem a aldeia dos Suruí, em Rondônia, desde muito cedo botei o pé na estrada – e quanta estrada.

Por um desses mal-entendidos de roteiro, fui pego de surpresa ao desembarcar em Porto Velho, após uma conexão em Brasília, e descobrir que ainda estava a sete ou oito horas de viagem de carro até a cidade de Cacoal, que servirá de base para as gravações com os indígenas.

A BR 364 corta a paisagem verde passando por cima de rios e do lago criado pelas águas da hidrelétrica de Samuel, que gera parte da energia de Porto Velho. É uma paisagem encantadora, mas igualmente triste para quem é capaz de decodificar os rastros da ação do homem sobre o meio ambiente.

Onde antes era floresta, troncos de árvores mortas hoje espetam para fora do lago formado pela represa, formando os chamados “paliteiros”.

Ao largo das frondosas áreas de plantio de soja e arroz e de pastagem por onde a estrada passa, aparecem solitárias, aqui e ali, as palmeiras de babaçu, que acabam sendo deixadas de pé porque resistem aos dentes das serras elétricas.

“Quarenta etnias indígenas desapareceram por conta da construção dessa estrada”, frisou a porta-voz da associação indígena Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo– ela que, junto com o representante da ONG Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil) Frederico Schlottfeldt, forma a agradável companhia neste estirão de asfalto.

“Foi construída com financiamento do Banco Mundial e foi a única vez em que o banco pediu desculpas publicamente por uma obra que custeou”, prossegue Ivaneide.

Vencemos os 450 quilômetros até Cacoal e tocamos, no sentido geográfico e simbólico, o coração da realidade desta terra.

Conversamos sobre movimento indígena e as diferentes culturas indígenas, conflitos fundiários, grilagem e desmatamento, mecanismos de desenvolvimento limpo e programas de reflorestamento e sequestro de carbono. E muito mais.

Questões que os Suruí estão ajudando a expor para o mundo com ajuda de tecnologia de ponta. É um permanente diálogo entre dois mundos.

Aqui e ali, Ivaneide pontua a conversa contando as “aventuras” dos Suruí no mundo dos “brancos”, como ela diz. Do estupor de alguns membros da etnia diante das brancas paisagens dos alpes suíços a uma prazerosa xícara de chá com o príncipe Charles em Londres. Uma intensa de viagens internacionais para angariar apoio às suas causas.

Mas são assuntos para outros posts. Deixemos de lado o mundo dos brancos, por ora. Nos próximos dias, os anfitriões são eles; eu e o leitor, os convidados.

Dia 1: Mudando conceitos

Virou lugar comum dizer que o poder da internet não conhece limites. Mas pense de novo - será? Será que a rede mundial de computadores chega nos grotões da África, nas áreas mais remotas da gélida Rússia, nos bolsões de pobreza da Amazônia brasileira?

Essa, aposto, é de fazer titubear. Porque a gente sabe, embora na maior parte do tempo nem se lembre, que a internet não vem num passe de mágica. Depende de computadores, conexões, sinais e, tão importante quanto tudo isso, educação digital. E essas condições não existem em qualquer lugar do mundo...

Este blog vai acompanhar a história de um povo indígena que tem conseguido vencer todas essas adversidades e se plugar, sim, no mundo virtual.

A tribo começou disponibilizando no Google Earth, o programa de mapas da gigante Google, um "mapa cultural" que conta a história dessa nação indígena que permaneceu incontactada até quase os anos 1970.

Se você for no YouTube, pode ver imagens de como o projeto começou. O próximo passo, dizem os Suruí, é usar programas de compartilhamento de fotos, como o Picasa, para denunciar a perda de florestas ao redor da reserva indígena. Segundo eles mesmos, a tribo está "trocando o arco flecha pelo laptop" para impulsionar sua luta social e ambiental.

Não posso esperar para saber mais sobre como vencer desafios para criar um mundo verdadeiramente conectado, e avaliar o efeito da tecnologia moderna no dia-a-dia em um povo que também se orgulha de manter suas tradições.

A gigante de informática Google é parceira do projeto, e em uma escala em São Paulo eu conversei com o gerente de produtos da empresa, Marcelo Quintella, que foi um dos que estiveram lá na reserva Sete de Setembro para dar treinamento aos índios.

"Selecionamos 20 pessoas para receber treinamento de internet. Metade nunca tinha mexido em um <i>mouse</i>. Mas, dos outros dez, uns cinco sabiam usar o computador - não eram usuários diários de internet mas sabiam - e outros cinco tinham até email e (perfil no) Orkut", disse Marcelo. Pelo visto, prepare-se para mudar os seus conceitos nos próximos dias.

E aliás: a internet também chega, sim, a grotões da África e partes remotas da Rússia. Basta acompanhar a série Superpotência, que a BBC põe no ar a partir desta semana, para conhecer as histórias por trás de cada uma das reportagens enviadas pelos nossos repórteres.

Se preferir, também pode fazer o contrário: ver como ocupantes de um edifício na Coréia do Sul, o país mais conectado do mundo, se viram sem conexão nenhuma.

Histórias que fazem pensar, talvez não seja a internet que não conhece limites. É que o desejo humano de transformar dramaticamente esse mundo, de abolir as fronteiras do acesso à informação e ao conhecimento é que é incontível.