Governo afegão negocia com líder rebelde procurado pela EUA

Gubuddin Hekmatyar
Image caption Líder da milícia, Gulbuddin Hekmatyar, é considerado terrorista pelos EUA

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, se reuniu com uma delegação do segundo maior grupo rebelde afegão depois do Talebã – o Hezb-e-Islami - para negociações de paz, informaram as autoridades em Cabul.

O grupo é liderado pelo ex-premiê afegão Gulbuddin Hekmatyar, procurado pelos Estados Unidos.

Um porta-voz do presidente disse à BBC que uma delegação com cinco representantes do grupo se reuniu com Karzai dois dias atrás com uma proposta, mas o presidente ainda não a respondeu.

Os dois lados já haviam esboçado contatos no passado, mas este foi o mais importante até agora, ocorrendo significativamente na capital.

Cada vez mais, a inclusão dos insurgentes é vista como essencial para um bem sucedido processo de paz no Afeganistão.

Os militantes do Hezb-e-Islami estão baseados, principalmente, no leste do Afeganistão e recentemente, entraram em choques com militantes do Talebã no norte do país.

Analistas afirmam que os contatos em Cabul podem ser apenas preliminares. O presidente convocou para as próximas semanas uma assembléia com líderes regionais programada para discutir a paz. Também neste período, os Estados Unidos devem enviar tropas adicionais ao país.

Negociações

Na sexta-feira, o ex-enviado da ONU para o Afeganistão Kai Eide confirmou que, no último ano, vinha realizando contatos secretos com altos líderes do Talebã.

Falando à BBC, Eide criticou duramente as recentes prisões de altos líderes do Talebã no Paquistão, afirmando que elas puseram fim às negociações.

Entre as supostas exigências dos militantes, estaria a saída das forças estrangeiras do Afeganistão até meados deste ano, um ano antes do prazo indicado pelo presidente americano Barack Obama para o início desta retirada.

Eles também exigem novas eleições dentro de um ano e uma nova constituição.

"A principal condição é o fortalecimento do presidente Karzai para participar das negociações e tomar decisões", disse um porta-voz do líder do grupo.

"A forças ocupantes agressivas deveriam anunciar um calendário para deixar o Afeganistão."

Choques com o Talebã

O líder do Hezb-e-Islami, Gulbuddin Hekmatyar, é uma figura altamente controversa.

Seu grupo lutou contra forças da Otan e forças afegãs no leste e no norte, nos últimos anos, enquanto o Talebã liderou a insurgência no sul.

No início do mês, autoridades disseram que pelo menos 60 militantes foram mortos em confrontos entre o Talebã e o Hezb-e-Islami na província de Baghlan, no norte do Afeganistão.

As informações são de que os choques foram causados pela disputa do controle dos impostos gerados por algumas cidades.

No passado, os dois grupos foram aliados em sua oposição ao governo central do Afeganistão e à presença de forças estrangeiras.

Junto ao Talebã, o Hezb-e-Islami foi responsabilizado por boa parte da violência de insurgentes no Afeganistão.

No passado, Hekmatyar já havia se prontificado a negociar com o governo, sob a condição de que as tropas estrangeiras deixassem o país.

Ele foi um dos líderes a receber ajuda militar americana durante a ocupação soviética nos anos 80, mas depois passou a ser criticado por seu papel na luta entre facções de mujahedeens, que causaram a morte de mais de 25 mil civis no início dos anos 90. Ocupou o cargo de premiê entre 1993 e 94 e depois em 1996.

Em 2003, ele passou a ser considerado um terrorista pelo governo americano, por seu apoio à rede al-Qaeda.

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