Tempo de sorvete

Senegalesco. É a única palavra que me ocorre para a chegada afobada, meio com enfisema, da primavera, que pulou carniça e foi direto para o verão. Neste fim-de-semana, a temperatura deve picar os 22 ou 25 graus, dependendo do jornal que você lê e do meteorologista (em geral, no feminino) que acompanha na televisão.

Tempo. Eles chamam de weather. Charme dos ingleses. Ou britânicos, se quiserem ser mais precisos. Nós temos a meteorologia e os meteorologistas. O que pode não dar em samba ou fox (Stormy Weather, por exemplo), mas impõe respeito. Que o digam nossas médias de 30 a 35 graus o ano inteiro em tudo quanto é lugar e que o Rio Grande do Sul não se atreva a ficar dizendo que lá o tempo é mais razoável. Na verdade, querem é dizer que o tempo é mais civilizado.

Maio é mais, ou finalmente, maio, afirmam as folhas. Alegre, sugerindo, que as pessoas deem uma chegada aos parques na hora do almoço, com o sanduíche habitual, um refrigerante, e aquelas notórias costas cobertas de perebas. Sim, senhor, são as sobras do inverno, o quinhão que o clima temperado lhes legou. Perebas. E boas quantidades de bebidas alcoólicas.

O weather, para continuar por aqui, de sexta em diante vai ser conforme manda o figurino, embora eu não acredite na existência de figurinos nestas ilhas. Uma senhora, ou senhorita, Rachel Vince, meteorologista do MeteoGroup UK, foi notícia na imprensa quando, procurada pela imprensa – mais, assediada, pois clima aqui é coisa seríssima – declarou que o tempo vai ser ótimo de sexta em diante, com os dias mais longos e ensolarados e, aí partiu senão para o poético ao menos para a metáfora bem servida. Rachel Vince declarou que o tempo, minto, o weather, ia ser um almost ice-cream weather.

Não especificou sabores ou marcas específicas. Se o sorvete a ser compartilhado pela população, ao menos aqui no sul destas ilhas, seria desses mais caros e beirando o complicado. Creme de mascarpone com amora, para ficar num exemplo que anda, e ainda mais andará, na moda.

Pode ser que o tempo de sorvete a que Rachel Vince se refere, e nos deseja, boa moça que é, seja desses mais simples, beirando o simplório: baunilha, morango, chocolate. Flocos, para quem quiser ser mais sofisticado.

Pela parte que me toca, e espero que pouco ou ninguém me toque, eu quero um tempo mais simples possível. Ou, pensando bem, nostálgico que sou, um tempo de sorvete do Moraes, em Ipanema, que, em sua primeira encarnação foi a Casa da Criança. Isso, aqueles sabores que são coisas nossas e nossas coisas e de ninguém mais. Açaí, cupuaçu, manga, fruta do conde, por aí.

Pensando ainda melhor, que, com esse calor, é difícil pensar direito. Eu não quero nada disso. De pés no chão, sentado no meio-fio, eu quero mesmo, e serei tola e infantilmente franco, é picolé de groselha. Se fizer um tempo de picolé de groselha (os dois têm que ser vagabundos) aí sim regozijarei. Capaz até de dar uma chegada na praça e dar uma conferida na gente boa da pereba.

Sonho, no entanto, de olhos abertos, feito o Danny Kaye naquele filme. Não há groselha aqui. Caipirinha chegou. Até água de coco comercializada que, conforme seu slogan, é só enfiar um canudinho no envólucro e tacar ficha. Agora, groselha, que é bom, nem em refresco nem, muito menos, como picolé.