Esporte

Bairro que abrigará seleção brasileira é antítese de África do Sul pós-apartheid

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Se Nelson Mandela, símbolo da luta por igualdade racial, é a cara desta Copa na África do Sul, com seu rosto estampado em vários cartazes e propagandas por Johanesburgo, a seleção brasileira não poderia ter escolhido um lugar mais diferente e distante desta imagem como sua base na cidade.

A região de Randburg, no norte de Johanesburgo, é o completo oposto da imagem sul-africana projetada por Mandela - que abriu, na cidade, o primeiro escritório de advogados negros no país nos anos 50.

Randburg, onde a seleção brasileira ficará hospedada e treinará durante a Copa do Mundo, era, na época do apartheid, quase que exclusivamente ocupado por sul-africanos ricos e brancos. Hoje, Randburg ainda é um bairro majoritariamente branco e rico, apesar de o regime segregacionista ter sido abolido há mais de vinte anos e de a região contar com moradores da emergente classe média alta negra.

Randburg é uma mistura de área rural com zona nobre urbana. As grandes mansões e a enorme área verde dividem espaço com prédios comerciais luxuosos e ricos shopping centers.

O Brasil passará a maior parte da Copa em Randburg, já que a maioria dos seus jogos devem ser disputados em Johanesburgo.

A seleção ficará hospedado em um hotel que fica junto a dois campos de golfe em uma área luxuosa de mansões, com ruas fechadas apenas para residentes. O colégio usado pela seleção é frequentado por alunos de famílias ricas.

Escola

O colégio Hoerskool Randburg, onde o Brasil treinará, é uma das poucas escolas com currículo todo em afrikaaner, a língua falada pela minoria branca do país. Durante o apartheid, o afrikaaner era obrigatório em todas as escolas da África do Sul.

Alunos do colégio Hoerskool Randburg, onde seleção treinará

Colégio foi tomado pela 'febre do futebol', apesar da forte tradição em rúgbi e críquete

Em 1976, uma rebelião em Soweto contra o ensino obrigatório do afrikaaner - visto na época pelos negros como uma ferramenta de dominação da elite - provocou a morte de mais de 100 pessoas em confrontos com a polícia. O episódio é um dos mais violentos da história do apartheid.

Hoje a língua já não divide o país como antes. Um dos versos do hino sul-africano é cantado em afrikaaner, um símbolo da convivência pacífica entre raças, tão desejada no país.

Neste momento, outra coisa parece unir todos os sul-africanos: a "soccer fever", ou "febre do futebol", termo usado para descrever a nova mania nacional. Nesta terça-feira, os alunos da Hoerskool Randburg deixaram os livros de lado e passaram a tarde jogando bola, em um dos eventos de preparação da escola para receber o Brasil.

A professora de inglês da escola, Lynett Walters, diz que o colégio tem uma forte tradição no rúgbi e no críquete, os esportes mais populares da África do Sul, mas que a "soccer fever" tomou conta dos alunos.

Três alunos com quem falei se disseram fanáticos por futebol e falaram longamente sobre o Campeonato Inglês, o favorito de todos. Eles torcerão para os "Bafana Bafana" (apelido da seleção sul-africana) durante a Copa. Curiosamente, os três disseram que, se pudessem, preferiam ver França, Espanha ou Portugal treinando no seu colégio, e não o Brasil.

"O Brasil é muito bom, mas quem joga o futebol mais bonito hoje é a França", disse o estudante Jako Walters. Ainda assim ele se disse animado com a possibilidade de ver Robinho e, sobretudo, Kaká. É pouco provável que ele consiga, já que a parte do colégio usada pela Seleção foi totalmente isolada do resto da escola.

Sem turistas

A "soccer fever" é visível em outras partes de Randburg. Vários carros e casas foram decorados com bandeiras de diferentes países e as lojas e outdoors parecem ter apenas Copa do Mundo como tema.

O que ainda não se vê por Johanesburgo são os turistas, que devem chegar mais próximo do dia 11 de junho, quando começa o torneio. Os atletas já estão começando a chegar. Nesta quarta, a Austrália será a primeira seleção a desembarcar em Johanesburgo. O Brasil, na quinta, será a segunda.

A dez minutos de carro da Hoerskool, na vizinhança do recém-construído hotel Fairway, onde o Brasil ficará hospedado a partir de quinta-feira, o clima de Copa do Mundo é mais discreto, ou quase imperceptível. Poucos carros e casas trazem bandeiras dos países da Copa na região fechada apenas para residentes. Um dos frequentadores do clube de golfe me disse que espera que o trânsito não seja muito afetado nos dias do Mundial.

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