E viva o coco!

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

“Quem é burro pede a Deus que o mate e o Diabo que o carregue” ouvi, ainda muito moço, da boca dos mais velhos. Meio pesado, mas eles viveram mais deveriam saber de que estavam falando, dizia eu para meu time de botões japoneses de baquelite.

Lembrei-me do anexim em questão quando, há coisa de poucos anos, tomei, ou chupei de canudinho, uma água de leite de coco in natura, conforme insistem em pronunciar os latinistas. Mais de 40 anos e, brasileiro nato e em Brasil bastante vivido, eu não dava muita bola para a água de coco.

Ia de refrigerantes vários, com ou sem borbulhas, tomava Grapette e repetia, guaraná que não acabava mais (eu era fã de uma marca que acabou, a Cayru), calda de cana e, principalmente, refresco de xarope de groselha, contanto que a marca fosse Dubar.

Artificial? Artificial é a mãe, respondia eu ao mundo, com minha fleuma já demonstrando minha tendência para o sofisticado humour britânico.

Na sua devida época, passei a beber também – e serei sutilmente original – água que passarinho não bebe. Pensem numa besteira aí que dê porre. Pensaram? Pois garanto que já tomei. Nunca deixando as frivolidades de lado. Se os refrescos a que me referi no início deste texto podem assim ser chamados.

Chego, com os bofes de fora, a 2010. Repito: não sou novato em matéria de água de coco. A verdade - sempre ela! - é que gosto, ou mais que isso, eu peguei em Londres. Logo onde, Senhor! Numa cidade e num país onde a água de coco é exotismo, luxo, calma, voluptuosidade, algo assim como quis nosso bom Baudelaire.

Uma coisa me mantinha vivo, interessado e sempre na expectativa de uma água de coco dar as caras por aqui. Londres é uma cidade danada de chegada a um modismo. Quase sempre passageiro, mas sempre deixando uns arezinhos de sua breve graça. Como dizia (e eis-me de novo a empunhar o pinho do saudosismo) aquele slogan de uma casa lotérica, “Seu dia chegará”. E não é que chegou?

Refiro-me aos pacotinhos, ditos Tetra Pak, de 330 ml da água de coco Vita Coco, que, ainda esta semana, no jornal distribuído de grátis no metrô, o Metro, publicou uma matéria de duas páginas sobre o produto produzido no Ceará, sim, senhor, embora “descoberto” e bolado como empreitada comercial por dois jovens americanos.

“Amarrei” estas linhas, como dizem os jornalistas, num fato comprovado, conforme recomendam a ética e o bom senso. Não estou, portanto, fazendo publicidade de produto nenhum. Limitei-me e limito-me apenas a dar os dados pessoais e impessoais relativo à água de coco industrializada e agora encontrada por estas bandas.

Lá estava, e eu guardei o recorte, a garantia, logo no subtítulo, de que as celebridades que tomam consciência de sua saúde tomam também Vita Coco (e quase que eu sapequei lá, como ex-publicitário que sou, um arremedo de slogan). E a matéria enfileirava as celebrities em questão: Anna Paquin, Courteney Cox, Chris Pine (da série Star Trek), Jessica Simpson (quem será? Parente de Homer e Marge?) e, agora, vocês aí, podem pegar carona em outro simpático lugar-comum e… pasmar (sim, pasmar, como se fazia em 1956): Madonna, ao que parece, investiu mais de US$ 1,5 milhão na companhia, juntamente com Demi Moore, Matthew McConaughey e Anthony Kiedies, do conjunto Red Hot Chili Peppers.

Pasmaram? Pois pasmaram bem. Continuem pasmando. Eu só quero que tenha gente boa, ou, que seja, gente má, continuando a investir e que passem muito bem, já que estão afim de nutricionismo saudável uma vez que hidrata a mais não poder. Não sei o que quer dizer, mas me parece coisa bastante legal. Já há a venda, nas boas casas do ramo, em geral as especializadas em coisas ligadas à saúde, embalagens de um litro, com o conselho-slogan na parte de cima dizendo que basta botar lá na devida abertura no topo um canudinho que, pronto! eis aí um coco. E viva o Vita Coco!

Fico agora, com a boca seca e a língua meio de fora, esperando que chegue a vez do xarope de groselha. Nem precisa ser Dubara. Qualquer marca serve. Contanto que seja xarope bem vagabundo e que ninguém pronuncie a palavra “saúde” num raio de 10 metros do longamente desejado refresco. Que nem precisa hidratar, até desidratar serve.