Israel perdeu a Turquia, seu único aliado muçulmano na região?

Image caption Protesto em Istambul contra Israel

Menos de três anos atrás Shimon Peres se dirigiu à Grande Assembléia Nacional Turca – o Parlamento do país – em Ancara.

Foi a primeira vez que um presidente de Israel se dirigiu a legisladores em um país muçulmano, gesto que deixou evidente a relação extraordinária entre Israel e Turquia – uma relação que remonta ao reconhecimento turco do Estado judeu em 1949.

Exceção entre países muçulmanos na região, a Turquia tem fortíssimos laços comerciais com Israel.

As Forças Armadas turcas compram armas de Israel e treinam com as Forças Armadas israelenses, e, em 2008, a Turquia recebeu mais de 500 mil turistas israelenses - o país se tornou um dos destinos favoritos de israelenses de férias.

O que deu errado?

Ao longo dos últimos 18 meses, os dois países entraram em crises diplomáticas sucessivas, culminando na resposta furiosa da Turquia, na segunda-feira, ao ataque de Israel à frota que tentava furar o bloqueio imposto a Gaza.

Toda cooperação militar foi congelada, e turistas israelenses estão cancelando viagens planejadas à Turquia.

E agora, milhares de turcos sitiaram o consulado de Israel em Istambul aos gritos de “Allah uh akbar” (Deus é grande), carregando posters com mensagens de ódio contra o país.

“Deveríamos cancelar nossos acordos”, disse um jovem chamado Bunyamin. “Israel não pode ser nosso amigo, é nosso maior inimigo”.

Acontecimentos em Israel e nos territórios palestinos são parte da explicação. A operação israelense contra Gaza no fim de 2008 provocou condenação e revolta internacional, mas a reação da Turquia foi mais forte do que muitas.

Em um episódio memorável, o premiê turco, Tayyip Erdogan, abandonou o palco do Fórum Econômico Mundial em Davos, acusando um atônito Peres, com quem dividia a plataforma, de “saber matar muito bem”.

Isso transformou Erdogan em herói instantâneo em muitas cidades árabes, e também na própria Turquia.

Na verdade, a explosão de Erdogan foi parcialmente motivada por uma sensação de traição pessoal, afirmaram funcionários do governo turco.

Um charuto para Olmert

Durante semanas antes da operação em Gaza, ele mediou pacientemente conversas entre Israel e Síria, ao ponto de pedir a um assessor para comprar um charuto, a pedido do premiê israelense Ehud Olmert, apesar de ser um apaixonado militante contra o tabaco.

Ele sentiu que estava conquistando a confiança dos dois países. Mas quando as forças de Israel lançaram a Operação Chumbo Fundido, a Turquia não recebeu qualquer advertência, e Erdogan se sentiu profundamente decepcionado.

Mas o mais importante para a mudança nas relações entre os dois países, entretanto, foi a mudança na própria sociedade turca, uma mudança que vem acontecendo há décadas.

Após a declaração da república da Turquia por Mustafá Kemal Ataturk, em 1923, demonstrações de fervor islâmico foram desencorajadas, vistas como opostas à missão modernizante de Ataturk.

Nos últimos anos, entretanto, muçulmanos devotos vêm se sentindo mais confortáveis em demonstrar sua devoção - mais notadamente na maneira com que se vestem, ou em sua capacidade de se associar religiosa e politicamente.

Eles se tornaram um eleitorado poderoso – cerca de metade da população se descreve como sendo fervorosamente religiosa.

Eles ajudaram o Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan a obter duas maiorias no Parlamento.

E Erdogan se considera como um deles, um homem que admite abertamente que se sente muito mais confortável ao lado de muçulmanos do que de não muçulmanos.

Apoio do governo?

Image caption Barcos militares de Israel se aproximam de embarcação que integrava comboio de ajuda a Gaza

A organização de caridade turca IHH, que liderou a última tentativa de furar o bloqueio a Gaza, aproveitou essas mudanças na sociedade turca. Fundada em 1990, envolveu-se em grandes causas islâmicas da hora, como ajudar muçulmanos nos conflitos de Bósnia e Chechênia.

Algumas vezes suas atividades despertaram a suspeita das autoridades turcas, e a organização foi acusada por Israel de apoiar abertamente movimentos islâmicos como Hamas e Irmandade Islâmica.

Mas sua defesa energética da causa palestina, em particular do sofrimento do povo em Gaza, fez eco junto a muitos turcos.

Uma multidão se reuniu no estreito de Bósforo para ver partir o Mavi Marmara, o navio da IHH que liderava o comboio rumo a Gaza, e a partida foi amplamente coberta pela mídia turca.

Então o choque da notícia dos confrontos violentos com as forças de Israel a bordo do navio – um confronto filmado por jornalistas turcos – foi violento na Turquia.

O governo turco não deu qualquer apoio oficial ao comboio, mas deixou claro que apoiava a missão da IHH.

O chanceler Ahmet Davutoglu disse que vinha tentando, através de pressão diplomática, conseguir abrir passagem para o barco chegar a Gaza.

Muitos turcos acreditam que a IHH obtem bastante apoio extra-oficial de simpatizantes dentro do partido governante turco.

O resultado é que a Turquia se encontra envolvida no mais sério racha diplomático com Israel até hoje – acredita-se que a maioria dos mortos e feridos seja turca.

É o ápice dramático de uma deterioração lenta das relações com Israel, desenvolvida à medida que a Turquia busca laços mais próximos com vizinhos como Síria, Iraque e Irã.