Para a imprensa árabe, Egito vive situação delicada após ataque

Palestinos tentam cruzar para o Egito
Image caption Multidões de palestinos tentavam cruzar a fronteira nesta terça-feira

A imprensa do mundo árabe e analistas ouvidos pela BBC Brasil ressaltaram nesta terça-feira a situação delicada que vive o Egito em meio à crise provocada pelo ataque israelense contra uma frota que levava ajuda humanitária à Faixa de Gaza.

Com o aumento da pressão internacional pelo fim do bloqueio de Israel a Gaza, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, ordenou na terça-feira a reabertura da passagem na fronteira do Egito com a cidade de Rafah, na Faixa de Gaza.

O governo egípcio afirmou que o objetivo da medida é permitir a entrada de ajuda humanitária no território palestino, mas não esclareceu se a decisão será permanente ou temporária.

Segundo alguns jornais, o Egito decidiu abrir a fronteira do país com Gaza para evitar que ganhassem força as críticas ao país sobre sua colaboração com Israel.

O portal do diário egípcio Egypt News diz a decisão foi motivada por um "profundo senso de constrangimento e a pressão sentida pelo governo de que ficaria com uma imagem de colaborador de Israel em um momento extremamente delicado".

"Os críticos domésticos e no exterior já estavam retratando o Egito como um cúmplice de Israel após esta mais nova crise. A decisão do presidente (do Egito, Hosni) Mubarak foi por uma necessidade urgente - ou atendia a um curso natural de revolta árabe ou ficaria com a imagem extremamente arranhada junto às massas", completou o jornal.

'Credibilidade substituída'

Para outro diário egípcio, o Al Masry al Youm, o Egito teve seu papel de mediador no mundo árabe diminuído ainda mais quando concordou em participar com Israel do "criminoso embargo a Gaza".

"A credibilidade do Egito foi substituída por Catar e Turquia, países que detém boas relações com Irã, Síria e grupos militantes palestinos e libaneses", enfatizou o jornal.

O diário libanês An Nahar qualificou a abertura da fronteira com Gaza como uma derrota egípcia por vir neste momento.

De acordo com o jornal, há muito tempo que alguns governos árabes, a Turquia e grupos humanitários vinham pedindo ao Egito que abrisse a fronteira com Gaza, sob o argumento de que o bloqueio em si era um crime contra a população palestina e sem resultados práticos em minar o poder do Hamas.

"Infelizmente, foi preciso que morressem ativistas internacionais e uma pressão da comunidade internacional para que o Egito usasse o bom senso e retirasse o bloqueio a Gaza".

Entenda o embargo à Faixa de Gaza

'Acuado'

O cientista político Fares Ishtay, da Universidade Libanesa, acredita que a posição do Egito se enfraqueceu por decisões equivocadas, especialmente durante a operação israelense contra Gaza, no final de 2008 e início de 2009.

"Os egípcios decidiram fechar sua fronteira com Gaza, atendendo a um pedido de Israel, não permitindo a fuga de refugiados. Os árabes nas ruas jamais esqueceram isso."

Para Ishtay, o Egito se sente acuado e sem credibilidade em um momento em que a Turquia e seu primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, se transformaram em heróis nas ruas árabes.

"Líderes turcos têm mais credibilidade hoje que muitos governantes árabes e palestinos", completou.

Em diversas capitais árabes, muitas bandeiras turcas eram exibidas por manifestantes que protestavam contra Israel e o ataque às embarcações humanitárias.

Analistas

De acordo com Oussama Safa, diretor do Centro Libanês para Estudos Políticos, a abertura da fronteira com Gaza, apesar de aliviar a tensão na região momentaneamente, não é uma solução duradoura.

"No que se refere a Gaza, não é apenas o bloqueio o tema central. O que se deve resolver é a relação Egito, Hamas e Israel, ou seja, três atores com relacionamentos complicados ente si", salientou Safa.

Para o professor, o Egito precisa fazer escolhas pontuais enquanto ainda pode.

"O governo egípcio precisa refletir se quer continuar a ser uma voz forte dentro do mundo árabe. E ignorar o Hamas enquanto compactua com Israel é a pior mensagem que pode passar às massas árabes".

"Neste ponto, a Turquia foi muito mais bem sucedida. Ela fez diplomacia com todos os grupos sem, necessariamente, compactuar com o Hamas", completou.