O trabalho e o alcacelça

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Londres, em qualquer estação do ano, cada vez mais cheia de gente. Esqueçamos os turistas, que eles também acabam virando parte da paisagem a que tanto empenho dedicam em registrar nas suas câmeras. São perto de 10 milhões de habitantes. Londrinos ou aspirantes a essa condição.

Em grande parte, e sob certo ponto de vista, jurídico e léxico, legais. A maior parte trabalha e, em qualquer estação do ano, debaixo de sol ou neve, vão para um escritório ganhar a vida. Como em qualquer outra cidade. De Nova York à Cidade do Cabo.

O dia dos londrinos é, pois, dos mais comuns. Trabalho, compras, saída para o universal “comer qualquer coisinha” e estamos conversados. A luta pela condução de volta à casa. À noite, as coisas se complicam.

Noite foi feita exatamente para isso: tornar as coisas mais difíceis. Nada é simples à noite. Que é quando as mulheres (difíceis, complicadas) tornam tudo mais enredado. Força é desenredá-las, desvendar seus segredos, pedir – suplicar é chato, mas vale – para que expliquem tudo. Um logro em que todos caem.

A única hora para se entender uma senhora ou senhorita é entre 10 da manhã e meio-dia. Nesse período, respondem a tudo, tendo deixado em casa os disfarces charmosos da maquilagem e, assim desprotegidas, tornam-se mais vulneráveis a um persuasor e suave assédio.

O único perigo, em tempos hodiernos, é estarem, como virou hábito – mais: vício – munidas ou armadas de celular. Um celular é o guardião e a espada implacável das mulheres de qualquer idade. Com eles, feito as fadas, espalham mágicas e feitiços. Evitar as que se armam e vão às ruas de celular. Uma visão cada vez mais rara essa, a da mulher desarmada de celular. Em geral, feito as loucas do século passado, estão, a uma primeira vista, rindo do nada e sussurrando baixinhos segredos de fazer corar frades de pedra.

Volto ao dia dos londrinos, que nunca deveria ter deixado. Os londrinos na rua. Agora, sem mulheres com ou sem celular para atrapalhar as coisas. Os londrinos, e friso “os” e não “as”, são como todo mundo na rua. Inclusive, para acompanhar o ritmo moderno, deixaram de respeitar os sinais, ou semáforos, como dizem os latinistas de São Paulo.

O que interessa, ao menos nestas poucas linhas, são os londrinos no trabalho. Estão de ressaca. Pelo menos 500 mil deles. Em qualquer dia que se aplique um bafômetro ou um exame de sangue neles, se a lei permitisse. O dado não é opinião minha, feito as considerações que fiz mais acima a respeito da dicotomia mulher/celular.

Trata-se do resultado obtido por uma pesquisa realizada pela organização Drinkaware, que lida com o consumo devido e indevido do álcool, e que, no momento, ligou-se a uma entidade que rege programas pagos de saúde, a BUPA, afim de aconselhar empregadores sobre a melhor maneira de lidar com o problema dos 500 mil que vão pegar no pesado, ou mesmo no leve, de ressaca – seus olhos mais vermelhos que os da Capitu de nosso bom Machadinho, se é que entendi bem a célebre metáfora.

Segundo pronunciamento da BUPA, aqueles que regularmente batem o ponto, imaginário ou não, de ressaca, devem ter problemas de alcoolismo ou saúde mental.

Ora, pois, pois! O serviço nacional de saúde grátis ofereceria o mesmo diagnóstico sem cobrar nada, claro. Vou mais longe, para variar. Eu também chegaria à mesma conclusão e a ofereceria, à noite, num pub, ou qualquer boteco, ao bêbado do lado. Que, e ouso como de hábito dar uma de bruxo, bebe por causa de uma mulher que prefere um celular a ele.

Como está quase na hora de fechar, peço mais uma birinaite, a saideira, para o simpático e sobríssimo sujeito do outro lado do balcão.