ONU aprova sanções contra Irã com oposição de Brasil e Turquia

Reunião do Conselho de Segurança da ONU nesta quarta-feira (Reuters)
Image caption EUA temem que Irã esteja desenvolvendo armas nucleares

O Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou nesta quarta-feira uma quarta rodada de sanções contra o Irã para pressionar o país a interromper seu programa nuclear.

O Brasil e a Turquia, que têm vagas rotativas no Conselho de Segurança, sem direito a veto, votaram contra as sanções. O Líbano, também integrante rotativo, se absteve de votar. Os outros 12 membros do Conselho votaram a favor.

A votação, em Nova York, foi atrasada em mais de uma hora por causa da ausência dos embaixadores do Brasil e da Turquia.

Quando a reunião finalmente começou, a embaixadora brasileira na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, foi a primeira a falar e anunciou o voto contra ao dizer que o Brasil “não vê as sanções como um instrumento eficaz nesse caso”.

A embaixadora brasileira disse que as sanções “provavelmente levarão ao sofrimento do povo iraniano” e que experiências passadas, “notavelmente o caso do Iraque”, mostram que sanções, ameaças e isolamento podem ter consequências trágicas.

Acordo

Viotti voltou a defender o acordo firmado no mês passado pelo Brasil e pela Turquia com governo iraniano, pelo qual o Irã se comprometia a enviar seu urânio com baixo nível de enriquecimento ao território turco e receber em troca material enriquecido o suficiente para uso civil, mas não militar.

"O Brasil vai votar contra a resolução. Ao fazer isso, estamos honrando os propósitos que nos inspiraram nos esforços que resultaram na declaração de Teerã em 17 de maio", disse.

“A adoção de sanções, nessa conjuntura, vai contra os esforços do Brasil e da Turquia para engajar o Irã em uma solução negociada para o seu programa nuclear”, afirmou Viotti.

O acordo firmado com o Irã tinha como base uma proposta apresentada anteriormente pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) mas rejeitada na ocasião pelo governo iraniano.

No entanto, apenas um dia após o anúncio do acordo, os Estados Unidos circularam a nova proposta de resolução no Conselho de Segurança, afirmando que o pacto firmado em Teerã não era satisfatório e que o Irã não se comprometia a interromper seu programa de enriquecimento de urânio.

A representante brasileira criticou a votação das sanções antes de “sentar e conversar sobre a implementação da declaração de Teerã”.

“O Brasil lamenta profundamente que a Declaração Conjunta não tenha recebido o reconhecimento político que merece nem o tempo necessário para dar resultados”, afirmou.

Estados Unidos

Em sua intervenção, após a votação, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Susan Rice, referiu-se ao acordo firmado pelo Brasil e pela Turquia.

“A Turquia e o Brasil trabalharam muito para obter avanços”, afirmou. “Os esforços refletem as boas intenções de seus líderes em abordar as necessidades humanitárias do povo iraniano e ao mesmo tempo construir maior confiança internacional sobre a natureza do programa nuclear do Irã.”

Rice afirmou, porém, que o acordo não responde questões e preocupações "fundamentais" sobre o programa nuclear iraniano e que Irã teve diversas oportunidades de comprovar que seu programa de enriquecimento de urânio tem fins pacíficos, mas não o fez.

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Os Estados Unidos e seus aliados temem que o Irã esteja planejando secretamente desenvolver armas nucleares. Teerã nega essas alegações e diz que seu programa nuclear tem fins civis.

Rice disse que o objetivo dos Estados Unidos com as sanções é persuadir o Irã a interromper seu programa nuclear e a negociar de maneira construtiva com a comunidade internacional.

Os Estados Unidos afirmam que mantêm dois caminhos em relação ao programa nuclear do Irã, de pressão (com as sanções), mas também de disposição para o diálogo.

No entanto, em seu pronunciamento, a representante do Brasil disse que a decisão de impor novas sanções era uma demonstração de que apenas um desses caminhos está aberto.

“Ao adotar as sanções, este Conselho está na realidade optando por um dos dois caminhos que deveriam correr em paralelo – na nossa opinião, o caminho errado”, disse Viotti.

Sanções

A votação da nova resolução ocorreu depois de cinco meses de discussões entre os membros do Conselho de Segurança e sob forte resistência do Brasil, que tem uma vaga rotativa no órgão.

Os Estados Unidos queriam sanções mais duras, mas a resolução final foi um pouco suavizada por pressão da Rússia e da China, dois dos membros permanentes do Conselho, com direito a veto.

Mesmo assim, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, referiu-se às sanções como as “mais significativas” já impostas ao Irã.

As novas sanções ampliam medidas já em vigor, ao proibir a venda de várias categorias de armamento pesado ao Irã, incluindo helicópteros de ataque e mísseis.

Também fica estabelecido que todos os países inspecionem em seus portos e aeroportos cargas suspeitas de conter itens proibidos com destino ou origem no Irã.

As sanções incluem ainda 40 empresas e um alto funcionário ligado ao programa nuclear à lista de pessoas e companhias iranianas sujeitas a restrições de viagens e congelamento de ativos.

Segundo analistas, o fato de Brasil e Turquia terem votado contra as sanções prejudica a imagem de união em torno do tema que os Estados Unidos gostariam de transmitir.

As três rodadas anteriores de sanções não foram suficientes para convencer o Irã a interromper seu programa de enriquecimento de urânio.

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