Do infinito besteirol dos ditados populares

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

“O que arde cura, o que aperta segura”, repete o Zé Povão há séculos. Todos os provérbios populares não passam da maior besteira possível.

Sejamos francos, por um instante, e deixemos a máscara da hipocrisia de lado. O povo não entende bulhufas dessas coisas que aprenderam no colo de alguma tia ou ouviram da boca de uma pessoa com mais de um sapato no pé e camisa com quase todos os botões.

Basta parar e pensar um pouco, disciplina das mais árduas para quem nasceu para acreditar em saci e mula-sem-cabeça. O Zé Povão é bom de escalar a seleção brasileira ideal e votar naqueles candidatos que fizeram uma mediazinha com eles. De resto, vou te contar.

Dissequemos o provérbio citado mais acima. Em primeiro lugar, o que arde cura. É mesmo? Feito água-viva? Pimenta nos olhos? Tãotá. O que aperta segura. Sem dúvida. Feito o guarda que tacou algemas no malfeitor atravessador de maconha e o encaminha para a viatura policial.

Ninguém me fale em iodo na ferida ou torniquete no braço atingido por bala. Nenhuma das duas coisas pegou Ibope nos meios a que convencionamos chamar de “populares”, que é para não despertar a ira dos politicamente corretos e dos poucos membros da classe de Zé Povões que conseguiram, até um certo ponto (tudo é “até um certo ponto” com os pobres de espírito; logo acrescentando que há muito pobre riquíssimo de espírito entre eles), não embarcar nessa canoa furada dos provérbios.

E olha outro lugar-comum, suplicando para virar provérbio: canoa furada. Só o perfeito imbecil, de que tanto tratou o fabuloso Nelson Rodrigues, entraria numa canoa sem antes conferir sua navegabilidade, mesmo sem fazer parte de flotilha a caminho de uma ajuda humanitária a Israel.

Outras besteiras que ouvi a vida inteira e que sempre me irritaram, pois nasci cético e desconfiado de frase feita ou remendada:

* Quem ri por último, ri melhor. (Uma inverdade das mais flagrantes. Qualquer hora é hora de se rir de nosso semelhante até cair no chão.)

* Quem tem telhado de vidro não atira pedra no vizinho. (Tolice da grossa. Basta atirar a pedra na moita e se mandar, esperando que a culpa caia em outra pessoa, como é sempre o caso.)

* Cão que ladra não morde. (Ah, é, bebé? Então vai lá e dá um pontapé no traseiro do bicho, pra você ver uma coisa.)

* Homem prevenido vale por dois. (Tolice da grossa. É mais um a ser assaltado na subida do morro. E assaltado possivelmente por esse segundo homem prevenido. Pensem bem nisso.)

* De pequenino é que se torce o pepino. (Torcer pepino é das ocupações mais inúteis de uma pessoa é capaz. Experimente, hoje mesmo, pegar um pepino pequeno e torcê-lo. Não dá, não é mesmo? Só vira uma porcaria dos diabos.)

* Não conte com o ovo dentro da galinha. (Conto, sim. Esse é que o bom, o quente, o orgânico. Omelete baveuse só com o ovo que o galináceo ainda não pôs.)

* Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. (Não se mete a colher em briga de dois marmanjos armados de navalha. Em se tratando de homem e mulher, não tem por onde: é ficar do lado dele, repetindo, "É isso mesmo, Eudócia, foste uma leviana!".)

* Quem tudo quer, tudo perde. (Experimente dizer isso para qualquer chefe de estado ou bem-sucedido empresário. Ele vai rir às bandeiras despregadas.)

* E por falar em bandeiras despregadas… Mas não, nessa eu não me meto. Ficarei em casa com a bandeira dos Camarões desfraldada e torcendo adoidado. A Copa é nossa. Ou deles.