Vuvulanis 4 x Jabuzelas 1

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Este fim de semana que passou foi fogo aqui na Inglaterra. Agora que os franceses não estão mais por perto para nos ouvir e pensar que é torcida, podemos usar com propriedade a expressão embarras de choix, ou seja, uma tremenda opção de coisas a escolher para delas ver ou participar. A temperatura ajudou, para quem é chegado a esses tropicalismos: andou batendo 30 graus nos barômetros, e, devido à hegemonia do futebol, quase que eu digito cronômetros.

Em primeiro lugar, ficar em casa e assistir, de tardinha, depois de comer algo leve, e de preferência orgânico, ao embate Inglaterra versus Alemanha, sempre uma alegria para quem gosta de ficar na esquina espiando desastre de automóvel ou ver documentário sobre a Segunda Guerra Mundial no teatro de guerra europeu.

Infelizmente, a coisa correu muito bem, serena até, dá para se dizer, e foi um jogaço. Sempre divertido ver a Inglaterra apanhar e ouro sobre azul quando é de 4 e com gol válido anulado. Pena que tenha sido para a Alemanha.

A coisa começou na véspera quando pubs e praças se enfeitavam com telões esperando o grande acontecimento. Parecia 1939. Bandeiras davam... uai, davam bandeiras a mais não poder. Em carro, casa e cara.

No sábado, dia 26, o The Sun, um tabloide chegado a sensações violentas, estampou em sua primeira página nas proverbiais letras garrafais: Germans Terrified of Three Lions. Dissecando: a seleção inglesa também é conhecida como Three Lions, devido ao escudinho bordado no peito esquerdo da camisa contendo três garbosos leões. Reza a lenda que os ferozes felinos foram usados pela primeira vez por Ricardo Coração de Leão em fins do século 12.

Falar em Três Leões é falar da seleção, Agora, estariam mesmo os alemães aterrorizados diante da perspectiva de terem de enfrentar a seleção inglesa ?

Pouquíssimo provável, como se viu. Lendo apenas a manchete nas bancas, o torcedor sai satisfeito e já se encaminhando para a casa de apostas fazer uma bruta de uma “fezona” nos garbosos rapazes comandados pelo italiano Fabio Capello.

Nosso amigo torcedor teria lido mal. Tem que se ler tudo, do começo ao fim, de Guerra e Paz ao exemplar do dia do The Sun. Em letras miúdas, o tabloide contava a história direitinho. Parece que parte da equipe tedesca (adoto por algumas linhas o linguajar ensolarado do tabloide em questão), em visita a um parque safári em Pretória, quando viu uns leões, mesmo desses que se alimentam de spaghetti, ficou na retranca recusando-se a deixar a segurança do ônibus protegido por grades de ferro nas janelas e que fazia o passeio supostamente para relaxar os nervos das “feras germânicas”. Dessa vez passa a impossível. No entanto, é forçoso admitir ter lá sua graça.

Pena para os ingleses que o gracejo durou pouco mais que o espaço de uma manhã. Já tem gente espalhando que o tabloide em questão dá azar. Não somos nós apenas macumbeiros e supersticiosos. Pela primeira vez que, numa Copa do Mundo, a Inglaterra cai de 4. Mas, essas coisas, sacumé, a gente “cotuma”, viu, ingleses, como dizem os “preto véio”?

Ao “embaraço de escolhas”, que eu deixei desmarcado lá em cima no miolo do campo. Simples. Tinha também, no dia anterior, sábado, (domingo, não, que, no sétimo dia, cavalheiros, senhoras e senhoritas têm que descansar) o Torneio de Wimbledon, aqui no sul de Londres e, infelizmente, já quase tão barulhento quanto um estádio na África do Sul ou tão sem modos quanto uma coletiva do Dunga (por que o avô que assim o batizou não deu o nome de outro dos sete anões da Branca de Neve? Dengoso, por exemplo. Ou Atchim. Qualquer um, menos o Zangado, claro).

Parece que, ano que vem, com ou sem representante escocês, o intragável Andy Murray, que anda ganhando, os senhores responsáveis pelo torneio introduzirão a vuvuzela para se aliar aos altissonantes grunhido dos players e às berrarias da torcida. Carece de fundamento, espero, a notícia de que a Adidas anda estudando uma versão Jabulani para a tradicional bolinha amarela de tênis.

Por fim, a terceira opção. Último dia do quarentão festival de Glastonbury, outra barulheira infernal que passou por estas bandas (sim, é mesmo um jogo de palavras paupérrimo) nos últimos dias. Lá estiveram, e parece que em forma, Orbital, Rodrigo y Gabriela, Faithless e Toots and the Maytals.

O safado do Mick Jagger preferiu ir à África do Sul e, em camarote de luxo, ao lado do mais que super ex- Bill Clinton, torcer, torcer, torcer (por que não até morrer, feito no hino do Flamengo, pô?) pela seleção americana que - ainda há um deus pagão que aceita oferendas e sacrifícios - perdeu para a de Gana, que, além de jogar com uma gana (é difícil parar de escrever besteira depois de ler manchete do The Sun) e garra admiráveis conseguiu o milagre de botar o Continente Negro no mapa. Epa! Agora, exagerei.

O domingo fechou suas portas em castelhano, homenageando pra cima do México de Agustin Lara o 75º aniversário da morte de Carlos Gardel e dando de 3 a 1, também com um gol “controverso”, para sermos gentis. Vuvuzelas para Jochen Löw (com trema no O) e Maradona, que eles, realmente técnicos, merecem.