Fracasso na Copa põe em dúvida 'era Dunga' e cria dilema para 2014

Dunga durante jogo da Holanda nesta sexta-feira (AFP)
Image caption Técnico disse que não tem planos de continuar à frente da seleção

A eliminação brasileira na Copa do Mundo da África do Sul põe fim a um ciclo de mudanças radicais na seleção que começou em 2006. Com o possível fim da "nova era Dunga" - caso se confirme a saída do treinador brasileiro - a CBF passa a ter um dilema sobre como preparar o time que jogará a próxima Copa do Mundo, disputada no Brasil.

A primeira decisão a ser tomada pela CBF é sobre quem deve treinar a seleção brasileira de agora em diante. Há quatro anos, a CBF optou por Dunga, que modificou não só algumas das práticas da seleção brasileira - como a relação de jogadores com imprensa - como também alterou características tradicionais do futebol brasileiro.

Em vez de times mais ofensivos e talentosos, Dunga formou uma equipe com maior qualidade defensiva, de atletas mais humildes e não necessariamente tão conhecidos. O próprio treinador admitiu, antes da eliminação do Brasil, que seu trabalho à frente da seleção nos últimos quatro anos seria julgado de acordo com o sucesso da equipe na África do Sul.

Com a derrota brasileira, a CBF tem pela frente um dilema: a seleção pode continuar nos próximos quatro anos seguindo uma filosofia semelhante à implantada por Dunga ou optar por um técnico que traga de volta outros valores mais associados ao futebol brasileiro.

Era Dunga

A derrota brasileira na Copa passada, contra a França nas quarta de final, deu início a uma série de mudanças no Brasil, que culminaram na indicação de Dunga como treinador. Mesmo sem experiência prévia como treinador, Dunga foi chamado para "moralizar" uma seleção brasileira que estava desgastada pelo que se considerava falta de comprometimento dos jogadores e excesso de privilégios de alguns no grupo.

Inicialmente visto como um técnico interino no cargo, Dunga acabou se consolidando no cargo. Os bons resultados e os novos valores introduzidos pelo técnico formaram a base da filosofia da CBF para tentar vencer a Copa do Mundo na África do Sul.

Para impor seus novos valores - de trabalho e comprometimento - Dunga alterou práticas passadas da seleção e desafiou alguns críticos. Ele resistiu às pressões para convocar jogadores considerados mais talentosos, e apostou apenas em atletas da sua confiança.

Na Copa, o técnico deu poucas folgas aos jogadores e tentou evitar a exposição dos atletas ao assédio da imprensa. Em vez das baladas de Copas passadas, os jogadores ficaram confinados na concentração da seleção.

Image caption Dunga e Jorginho implementaram uma nova mentalidade no time

"Poucas vezes a seleção ficou 52 dias sem folga e sem reclamar. Ou não ter nenhuma polêmica, como costuma ser. Muitos jogadores viam essa Copa do Mundo como uma oportunidade [para as suas carreiras]", disse Dunga nesta sexta-feira, ao fazer uma espécie de balanço dos últimos quatro anos, após a derrota brasileira para a Holanda.

Dunga disse que seu principal legado é a volta do "comprometimento" e da "vontade de se jogar pela seleção brasileira".

"O maior resultado foi o resgate da vontade de se jogar pela seleção brasileira", disse Dunga.

O técnico também mudou a forma como a seleção se relaciona com jornalistas. Perguntado sobre seu estilo de trabalho, o treinador defendeu as decisões que tomou à frente do grupo.

"Todas as decisões que tomei foram em prol da seleção. Tinha que ter privacidade para treinar. Eu respeito o trabalho da imprensa. Imprensa é impresa, seleção é seleção. Não fizemos nada muito diferente que outras seleções fizeram nesta Copa do Mundo."

Mesmo atraindo críticas de torcedores e imprensa por ter mudado as características tradicionais da seleção brasileira de ofensividade, Dunga sempre contou com o amparo do presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Durante a passagem brasileira pela África do Sul, o dirigente jamais interferiu ou criticou o trabalho do treinador abertamente.

Agora, a CBF precisa decidir se manterá todas essas mudanças trazidas por Dunga ao longo dos últimos anos, ou se tudo o que foi feito precisa ser novamente mudado. Na próxima Copa do Mundo, que será disputada no Brasil, a seleção estará sob pressão ainda maior para vencer diante da sua torcida.

Até a sexta-feira, o assunto não era debatido pela direção da CBF, já que todos os esforços estavam voltados para a Copa do Mundo na África do Sul. No próximo dia 8, Ricardo Teixeira estará em Johanesburgo para o lançamento oficial da logomarca da Copa de 2014, quando deve falar sobre os planos do Brasil para sediar o torneio.

Mas certamente antes disso, neste fim de semana, a CBF já estará começando o trabalho paralelo de preparar a seleção brasileira que jogará a Copa daqui a quatro anos.

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