Relação com África é ‘inédita’, mas comércio ainda engatinha

Lula
Image caption Para diplomatas, Brasil atingiu nível de aproximação inédito com a Áfica

Com uma política externa voltada para os países do Sul, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atingiu um nível de aproximação "inédito" com a África, de acordo com diplomatas ouvidos pela BBC Brasil.

A avaliação é de que, após dez viagens ao continente, que incluíram visitas a 24 diferentes países, o presidente brasileiro abriu caminho para uma relação mais próxima com os africanos – principalmente do ponto de vista político.

No entanto, apesar de as exportações do Brasil para a África terem crescido 267% nos últimos sete anos, o comércio com os parceiros africanos ainda engatinha em termos absolutos, sobretudo quando o resultado é comparado com a performance de outros emergentes.

Em 2009, o grupo dos países africanos comprou US$ 8,9 bilhões do Brasil, enquanto chineses forneceram US$ 50,5 bilhões em produtos, e a Índia, cerca de US$ 15 bilhões.

Além disso, dos cinco principais produtos brasileiros embarcados para a África, três são básicos: açúcar, carnes e cereais. Já os chineses desembarcam no continente africano principalmente produtos de maior valor agregado, como eletrônicos, maquinário e veículos.

Medida 'errada'

Um dos principais críticos à política externa do presidente Lula, o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE) diz que o Brasil deve manter laços com o continente africano, mas que muitas vezes a gestão atual "erra na medida".

"Algumas dessas visitas do presidente Lula à África não têm uma justificativa comercial ou diplomática clara. Muitas são contraproducentes", diz.

Para ele, existe uma "fixação" da diplomacia atual em torno de países em desenvolvimento, que acaba deixando de lado outras prioridades e outros mercados.

O chefe do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty, Norton Rapesta, diz que o Brasil está conquistando seu espaço na África de forma "gradativa", mas que existem ainda alguns desafios – o principal, segundo ele, é o transporte marítimo entre as duas regiões.

"Ainda temos poucas conexões frequentes. Muitas dessas linhas incluem uma escala na Europa, o que torna o transporte mais caro para os dois lados", diz.

Rapesta também sugere cautela na comparação do desempenho comercial brasileiro na África com o resultado chinês.

"Digamos que Brasil e China têm jeitos diferentes de fazer negócio com a África. O Brasil quer ser parceiro, quer contribuir para o desenvolvimento local, se possível", afirma.

Para o diplomata, o fato de empresas brasileiras estarem atuando diretamente em alguns países africanos – como por exemplo em Angola e Moçambique – são um reflexo de que o caminho aberto pela atual gestão "está sim dando retorno".

Diplomacia

Para o governo brasileiro, o comércio é apenas "mais uma consequência" da aproximação com os africanos, mas não chega a ser colocado em primeiro plano.

O destaque da diplomacia do governo Lula para a África, segundo o Itamaraty, é a criação de uma relação política "de confiança" e baseada em "ações concretas".

"Tivemos governos anteriores que apostaram em uma diplomacia Sul-Sul, sobretudo na década de 70. Mas dessa vez o Brasil foi além da retórica", diz o embaixador Piragibe Tarragô, subsecretário de assuntos políticos do Itamaraty.

"Estamos falando de uma gestão que demonstrou uma preocupação especial com a questão social, envolvendo a defesa de políticas especiais para a população de origem africana", diz Tarragô.

Ainda de acordo com o embaixador, as ações do governo Lula no campo interno contribuíram para uma maior "identificação" entre o Brasil e o continente africano. "Eles viram que havia uma política consistente", diz.

O professor Cláudio Ribeiro, da PUC-SP, diz que a aproximação com os africanos deve ser entendida sob a ótica da diplomacia do governo Lula de buscar uma liderança entre os países em desenvolvimento.

"É nesse contexto que a diplomacia para a África faz sentido. E o Brasil soube bem explorar o fato de que as duas regiões podem ser complementares e parceiras", diz o especialista.

Conselho de Segurança

A reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), uma das principais bandeiras da política externa brasileira, também está no cerne da aproximação com os países africanos.

Uma eventual reforma depende do aval de pelo menos dois terços dos membros da organização – ou seja, 128 países. Com suas 53 nações, a África representa quase metade desse grupo.

O embaixador Piragibe Tarragô diz que a reforma do Conselho é "mais um elemento" na relação do Brasil com a África, mas que não chega a ser a "razão de ser" dessa maior aproximação.

"É importantíssimo contar com o apoio africano, mas esse é apenas um dos temas. Além disso, existe uma convergência, porque os africanos também estão interessados na reforma do Conselho", diz o diplomata.

Já na avaliação de Jungmann, a diplomacia de Lula para a África é "claramente interesseira", com um foco estritamente sobre a reforma do Conselho.

"Ficamos obcecados com uma possível reforma do Conselho de Segurança, que nem está na agenda. É evidente que o Brasil hoje deveria ter outras prioridades", diz.

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