Chutes & Pontapés

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

A política é a pátria sem chuteiras.

Entro em campo ainda em tempo (embora de prorrogação) de Copa do Mundo. Logo receberei, devido à rispidez de minhas entradas e saídas, sem falar em meu teatro, cartão amarelo. Não deverei participar do próximo jogo.

Depois dessa firula inútil, finjo-me atingido por um zagueiro vigoroso, rolo no chão, olho para o árbitro e ergo teatralmente as mãos para os céus. Onde deverá estar Nelson Rodrigues, que não só cunhou a frase citada na primeira linha como deu o título a uma coletânea de crônicas sobre futebol que, como player desleal que sou, parafraseei descaradamente: A Pátria de Chuteiras. Qualquer coisa para falar de outra coisa do que do “pobre esporte bretão”.

Abandono a terminologia balipodal e parto para a prometida política, que citei como a pátria sem chuteiras, se ainda estão lembrados.

Falou em pátria vem-me sempre à mente os Estados Unidos da América do Norte. Aquilo é que é Pátria com maiúsculas, minha gente! No meu caso, influência do jazz, por certo. Acompanho as idas e vindas de nossos “grandes irmãos do norte” como um dia acompanhei suas big bands e seus crooners.

Tudo que eles fazem, mandem as balas que mandarem e eu estou lá, como o resto do mundo, acompanhando interessadíssimo, mas de longe, que não sou besta. De Leonardo DiCaprio a Barack Obama. E aí então chego ao meu lugar na arquibancada. Política. Arte na qual os americanos batem bem além de chutarem com as duas. Não importa quem.

Fiquei entretido, semana passada, lendo os diversos obituários que focalizaram o senador Robert C. Byrd, falecido aos 92 anos de idade, sendo assim, pois, o senador que mais tempo serviu na história dos Estados Unidos. Foram 51 anos de senadoria pelo Estado da Virgínia Ocidental.

Dentre seus feitos, certos órgãos de informação enfatizaram algumas coisas, outros outras. Fiquei sabendo que o falecido senador fora ferozmente contra a guerra contra o Iraque, o que achei muito bacaninha. Também fez a campanha pelos direitos civis americanos. Taí, legal. Alguns probleminhas porém. Certos obituários fizeram questão de lembrar que, desta forma, Byrd se redimia de um passado no mínimo controvertido, digamos assim.

Robert C. Byrd cometeu alguns pecadilhos de juventude, li no New York Times e na revista Time também. Esses dois veículos e outros, tanto americanos quanto britânicos, lembraram que anteriormente Byrd apoiara até onde possível a guerra no Vietnã e que, em sua juventude, o ilustre senador havia sido membro proeminente da organização racista Ku Klux Klan.

Frisaram, nesta instância, a juventude do senador que nos deixou, ou a eles, aos 92 anos. Primeiro probleminha então: Byrd tinha 27 anos quando participava com ardor dos movimentos da Klan. Convenhamos, 27 anos já não é tão “juventude” assim, no meu entender, confere?

Com 27 anos, muita gente boa não participou em parte alguma do globo terrestre de organização fascista ou fascistoide. Justiça lhes seja feita. Só procurando bem na net encontra-se uma declaração deste Byrd de 27 anos feita em carta dirigida a outro senador americano, onde ele escreve o seguinte, que traduzo com a maior fidelidade possível:

“Jamais lutarei ao lado de um negro nas Forças Armadas … Prefiro morrer mil vezes e ver nossa bandeira (Old Glory) pisoteada na lama e nunca mais ser desfraldada do que ver nossa pátria amada degradada por uma raça mestiça (mongrel), numa regressão ao mais negro dos espécimes selvagens.”

Curioso, curiosíssimo, alguém de 27 anos botar isso no papel e, mais estranho ainda, alguns anos mais tarde voltar atrás, rever todos seus preconceitos. Um caso a ser examinado. Terá Deus no meio? Nada li que o mencionasse.

Curioso, curiosíssimo também, o presidente Barack Obama referir-se à passagem desta para melhor do veteraníssimo senador como o fato de que o país, os Estados Unidos, “perderam uma voz de princípios e razão”.

A política, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. E expulso-me de campo.