Copa? Que Copa?

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Em 1982, (ano de Copa), tendo completado quatro de permanência no Reino Unido, uma vez que aqui cheguei para ficar em 1978 (ano de Copa), consegui no passaporte o visto que dava a permissão para quedar-me nestas bandas por tempo indeterminado, o equivalente ao Green Card norte-americano.

Tudo bem. Com isso, vinham também as responsabilidades que a estada indeterminada acarreta. Abramos o jogo (como uma defesa de seleção fracote): eu teria que pagar imposto de renda. Tudo bem. Eu já residira aqui pelo período 1968-1972 (1970 foi ano de Copa) e conhecia as regras do jogo (4-2-4).

No Brasil, onde eu ganhava muito bem no período entre 1972 e 1977 (1974 foi ano de Copa) sempre tive, como todas as pessoas remediadas, ricas ou bilionárias, devolução. Nunca entendi como nem porquê. Meu contador, o mesmo do jornaleco onde eu trabalhava escrevendo e editando, é que resolvia esses brasileirismos para mim. Qualquer coisa a ver com uma contribuição que eu dava semestral ou anualmente para uma organização de ceguinhos. (Um pequeno parêntese: por que será que nós temos essa tendência para agrupar invisuais em diminutivo?)

Os mesmos ceguinhos traziam, vez por outra, caixinhas de doces para os outros jornalistas (palavra ousada no caso, bem sei) que, como eu, desfrutavam das benesses dessa mesma situação. Para que envolver nesses esquemas marotos, já passados tantos anos, muitos de chumbo, outros de Copa, amigos queridos como o Ziraldo, o Jaguar, o Henfil etc. Não, não. Sejamos discretos. Em sinal de respeito, partamos, eu e você, leitor meu irmão, para outro parágrafo.

Resumindo: de posse do, para mim, valioso carimbo que me permitia aqui ficar pelo tempo que eu quisesse e não fizesse uma besteira que infringisse as leis da terra, havia a necessidade de rever, ou melhor, ver como ficava minha situação de contribuinte. Fui, recomendado por amigos locais, a um Mr. Hilton, de um escritório de contabilidade que, por motivos óbvios (não sei quais são, mas devem ser óbvios) quedará no anonimato.

A primeira coisa que Mr. Hilton me explicou é que os cegos (evitou o diminutivo) locais nem preparavam docinhos e nem poderiam me auxiliar a ficar isento de contribuição fiscal quanto mais receber devolução. Outras terras, outros modos, pensei eu, sempre dentro de meus habituais padrões de originalidade.

Mr. Hilton explicou-me, em voz macia e paciente, as regras do jogo (imposto de renda, nada a ver com Copa) da vigilância fiscal a que eu estava sujeito. Era complicado, como tudo que é estrangeiro. Entendi, no entanto, uma coisa: eu poderia optar entre registrar-me como residente ou como não-domiciliado em terras britânicas. No segundo caso, eu evitaria, e bastante, muito mesmo, o peso de minha contribuição ao fisco. Não chegava aos pés (não que ele estivessem batendo bola) do que eu lucrava com meus – sempre tive uma sensação de posse em relação a eles – invisuais brasileiros, mas era uma boa.

Mr. Hilton silenciou e deixou-me sozinho a matutar. Optei por uma novidade que a residência nestas ilhas oferecia, pois afinal eu estava começando vida nova. Optei, serei brutalmente franco, pela verdade. Sei que muitos de meus compatriotas se chocarão com minha atitude, mas eu era bem mais moço e queria deixar para trás hábitos contraídos durante um bom tempo de Brasil, meu Brasil brasileiro. Optei, dizia eu, por me declarar residente. Residente fiquei. Pagando direitinho todo meu IR, como me habituei a chamá-lo, com uma ponta de carinho e do calor humano que é só nosso.

Leio agora nas folhas que cinco pares do Reino, chamemo-los por suas devidas honrarias, qual seja, cinco lordes britânicos renunciaram às suas situações (quase) políticas, por se recusarem a se submeter às regras que regem sua situação contributária de “não-domiciliados”. Claro que moram, vivem e trabalham aqui. Podem passar uns tempinhos ou tempões viajando, que dinheiro para isso eles têm (podem inclusive ir assistir a uma final de Copa), mas no duro, no duro são, como eu, residentes. Lordes residentes e não lordes não-domiciliados.

Adeus, adeus Câmara Alta, entoaram eles em coro. Eles que insisto em nomear, já que não quedaram no anonimato e nem poderiam, mesmo que quisessem: lorde Norman Foster, um mais que consagrado arquiteto de renome mundial; lorde Bagri, indiano de nascimento e magnata da indústria siderúrgica; lady, ou dama, Dunn, da qual nada nem ninguém, ao que parece, sabe; lorde McAlpine, da construção civil; e lorde Laidlaw, um homem de negócios escocês (a Escócia não participou desta Copa).

Deram-se a si próprios, os “Five Non-Dom Lords”, como já estão sendo chamados pela mídia, cartões vermelhos como o arminho que fresca e injustamente usavam nas paragens doiradas da Câmara Alta.