Atentado é ‘mensagem’ para novo presidente da Colômbia, dizem analistas

Local da explosão em Bogotá/AP
Image caption A explosão feriu nove pessoas na capital colombiana

O atentado com um carro-bomba no centro financeiro de Bogotá, nesta quinta-feira, que atingiu a sede da rádio Caracol, uma das principais emissoras da Colômbia, é visto por analistas como uma mensagem para o novo presidente, Juan Manuel Santos, que vinha dando sinais de distensão tanto na política interna como na externa.

Ainda que as autoridades suspeitem que o atentado seja de responsabilidade das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a principal guerrilha do país, analistas políticos ouvidos pela BBC Brasil consideram que o ataque também pode ter sido orquestrado por grupos de extrema direita, como um sinal para que Santos radicalize sua postura logo no início do governo.

"A mensagem é para Santos, não contra a Caracol", afirmou a analista política Laura Gil, ao afirmar que "ou são as Farc tentando medir a reação do novo governo ou setores ilegais de extrema direita" que enviam uma mensagem para "que Santos volte a se uribizar", disse, em uma referência ao ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.

Temor

O analista político Camilo González, diretor da organização não governamental Indepaz, concorda. Apesar das suspeitas apontarem imediatamente para as guerrilhas, a seu ver, o atentado pode ter sido provocado por grupos descontentes com o nível de distensão gerado por Santos nos primeiros dias de governo.

"O atentando pode ser uma advertência e um fato para gerar temores suficientes que justifiquem um discurso muito mais radical", afirmou.

"A rádio Caracol serviu como alvo, como alto-falante, para dar visibilidade à ação", acrescentou.

Em menos de uma semana à frente da Presidência, Santos, que assumiu uma postura mais pragmática que seu antecessor Álvaro Uribe, disse que o diálogo com a guerrilha "não está fechado com chave", porém condicionou uma virtual negociação à libertação incondicional dos reféns em poder dos guerrilheiros e o fim de "atos terroristas".

Radicalização

Ainda na política interna, a distensão veio no primeiro dia de trabalho, quando Santos afirmou aos magistrados da Justiça que não contestará suas decisões - como fez Uribe ao longo de seu mandato.

Em seguida, o novo presidente restabeleceu relações diplomáticas com a Venezuela, dando fim a uma das piores crises da história entre os vizinhos.

O ex-candidato presidencial Gustavo Petro também vê no atentado uma intenção de pressionar o novo governo a um maior grau de radicalização.

"Atrevo-me a afirmar que a bomba tem um claro objetivo: levar o atual governo à postura do anterior", escreveu Petro em seu perfil no Twitter.

"Se nos deixamos manipular, continuarão colocando bombas", advertiu o ex-candidato, que tem dado sinais de aproximação com o governo Santos. "Exijamos a verdade na investigação, não mais manipulações", disse.

O ex-vice ministro de Justiça e analista político, Rafael Nieto, discorda da hipótese de que grupos paramilitares tenham a intenção de pressionar o governo, porque, a seu ver, "não existe a mínima possibilidade" de que ocorra um diálogo entre governo e guerrilhas a curto e médio prazo.

"Não há clima para que um grupo de extrema direita quisesse sabotar um processo que não existe", afirmou.

A seu ver, o atentado é parte da lógica da guerrilha de demonstrar força e capacidade de desestabilização para levar o governo à mesa de negociações.

"As Farc estão fazendo uma demonstração de força, mostrando ao governo colombiano que, ao contrário do que pensam, continuam sendo atores que podem desestabilizar e gerar perigo", afirmou Nieto.

"Isso (a desestabilização), a partir da ótica das Farc, deveria ser um incentivo para abrir canais de negociação".

Dias antes da posse de Santos, o líder máximo das Farc, Alfonso Cano, chamou o governo para "dialogar" sobre uma saída negociada para o conflito armado.

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