Coquetel Nova York

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Calor tropical, umidade amazônica durante o dia e percevejo na cama durante a noite. Este é o coquetel novaiorquino. Mas tente conseguir um quarto de hotel nesta cidade .

Os últimos três meses foram os mais quentes da história de Nova York, é oficial, e o momento certo para o lançamento do livro Hot Time in Old Town (Tempo Quente na Velha Cidade, em tradução livre) , de Ed Kohn, professor de História Americana na universidade de Bilkent , na Turquia.

O trimestre é recordista de calor, mas já tivemos um agosto muito pior, o de 1896. Dez dias assassinos com temperatura de 40º C, umidade acima de 70%, terceiro ano de depressão econômica, uma invasão de imigrantes pobres da Europa concentrados no Lower East Side em prédios infames, sem água corrente, aquecimento ou ar condicionado, onde dormiam cinco ou seis num quarto mal ventilado.

Mesmo sem o calor, seus moradores já morriam mais cedo do que no resto da cidade, mas a onda quente matou com números epidêmicos. Quase 150 pessoas por dia, na maioria, crianças e velhos. Milhares de cavalos e animais mortos ficavam dias nas ruas, aos cuidados dos ratos.

Na época, era proibido dormir nos parques da cidade. Os moradores subiam para os tetos, dormiam nas escadas de incêndios e nas docas. Muitos morreram de quedas ou afogados no Hudson. Jovens mal nutridos, entre 20 e 30 anos, morriam de exaustão.

Apesar dos números trágicos, com mais mortes do que nos motins de 1863, os piores na história da cidade, ou do que no grande incêndio de Chicago, de 1871, a onda de calor nunca entrou na lista das grandes tragédias americanas.

Os políticos achavam que não era responsabilidade do governo cuidar do povo.

Além de não suspender a absurda proibição de dormir nos parques, só no último dia houve uma reunião de emergência para enfrentar a crise. Quem se saiu bem dela foi o chefe de polícia de Nova York, Theodore Roosevelt, mais tarde governador do Estado e presidente .

Na época, a fabricação de gelo era um monopólio, mas Roosevelt deu um calor nos fabricantes, que foram obrigados a distribuir suas preciosas pedras entre os pobres. Roosevelt policiava a distribuição e depois ia para os prédios ter certeza de que os adultos estavam dando o gelo lixado para as crianças. Salvou milhares de vidas e veio daí sua vocação de urbanista interessado em resolver os problemas dos pobres e contra os monopólios.

Naquela época, o percevejo de cama - não deve ser confundido com aquele verde, fedorento, com gosto de coentro - era tão comum que nem era notícia. Esta semana, além das camas, ocuparam páginas inteiras dos jornais.

Os insetos marrons com seis pernas, ferrão enorme e olhos esbugalhados, ampliados, parecem monstros nas telas de televisão. Só de pensar em passar a noite com um deles dá coceira, mas há quem esteja dividindo a cama com centenas, milhares deles. A picada é infernal.

Já invadiram várias vezes o país, mas foram praticamente extintos na década de 50 pelo DDT e outros pesticidas que foram banidos a partir dos sessenta. Ameaçaram uma reaparição na década de 90, sumiram misteriosamente e agora, da mesma forma, estão de volta.

Nova York é a campeã, seguida de Filadélfia, Detroit, Cincinnati, Chicago e Denver. Washington aparece em nono lugar e Los Angeles em décimo. Se seu destino é uma destas cidades, boa sorte.

O governo nunca se interessou por eles porque não espalham doenças como mosquitos, pulgas, carrapatos e piolhos. Cientistas brasileiros foram os únicos que conseguiram infetar um rato de laboratório com a doença de Chagas depois de um percevejo ter mordido um rato selvagem, mas isto não despertou interesse fora do Brasil.

Defensores do meio ambiente batem o pé contra a liberação de inseticidas porque podem ser mais perigosos do que os percevejos, mas vítimas dos ferroes gostariam de trancar ambientalistas num prédio infestado.

Solução? Cães farejadores de insetos, super aspiradores de pó nas frestas, plásticos em volta dos colchões, lençóis e colchas secadas em alta temperatura, mas nada garante vitória contra os insetos, que chegam trazidos até pelo vento. O Empire State Building está infestado, bem como alguns dos melhores e piores hotéis da cidade, que não reconhecem a presença dos malditos hóspedes.

Este fim de semana, temos o fim não oficial do verão com o feriado do Labor Day e o bafo vai diminuir, mas no coquetel Nova York, nesta sexta pode entrar Earl, o furação e, no próximo fim de semana, teremos o aniversário do 11 de setembro, quem sabe com um splash de Osama bin Laden. Nem leão aguenta esta dose.