O artista Tony Blair

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Não. Claro que eu não estou trocando as bolas. Óbvio que sei que Tony Blair foi durante 10 anos (1997-2007) primeiro-ministro do Reino Unido. Impossível escapar a ele e aos diversos e controvertidos fatos que representou durante sua década no poder.

Insisto, no entanto, velhusco que sou, em empregar o termo “artista” para descrevê-lo, conforme se usou durante um bom pedaço de tempo, talvez uma década ou mais, feito ele. Artista. Como os havia, como se dizia. Era ligeiramente pejorativo, admito. “Fulano é um artista”, dizíamos, e não estávamos comparando o homem em questão nem a Portinari nem a Da Vinci.

Deem uma chegada ao Houaiss e lá encontrarão, entre as principais acepções, a de “pessoa que sabe gozar a vida” e também “indivíduo enganador, finório”. Usava-se, friso, com um certo malemolente bom humor.

Tony Blair nunca me enganou. Político nenhum me enganou. Não é por nada que meu título de eleitor estampa, desde minha habilitação para exercer o propalado dever cívico, o nome de meu partido, minha crença, meu candidato: “Justificou a ausência”.

Já contei. Entregava os papéis à excelente figura humana de meu despachante (haverá ainda a espinhosa profissão?), o Messias, e alguns dias depois ele voltava com tudo em ordem, carimbado, estampado, firma reconhecida e toda essa bobagem de “eleição”, ou fosse qual fosse o nome dado à farsa à época, ficava resolvida.

Eleição? Sou virgo intacto. Com muita honra.

Divertido, no entanto, não tendo nada melhor a fazer (a Amazonainda não mandou o livro, não há nada que preste na televisão), acompanhar políticos, politiqueiros e politicagens. Sim. São uns artistas.

Volto a Blair já que ele também voltou – até um certo ponto – à moda. Parou por uns tempinhos de acumular dinheiro, que ele adora (tem sete propriedades, uma fortuna incalculável, segue à risca o circuito vice-presidencial de bancos e firmas várias, além das conferências en petitcomité, conforme o exemplo dado por seu amigão, outro artista, o Bill Clinton) e publicou suas memórias políticas, a que deu o título insinuante de A Journey (“Uma Jornada”).

E que viagem, meus senhores, que viagem! 700 páginas. Tá tudo lá! Não tá nada lá! Aquela mágica em que os políticos conhecidos são mestres. Só responder a qualquer pergunta com o recado que se quer dar. Por aí. Jogadas artísticas. A jornada de Blair é no céu e nas estrelas. Sem Lucy mas com diamantes, para citar os Beatles, que ele (diz) admirar.

Domingo passado, Blair deu uma entrevista tête-à-tête, sem estar ao redor do espaguete, para Andrew Marr, o principal comentarista político da BBC. Meninos, eu vi! Que artista! Tudo que se pensar em matéria de indefensável ele mandou para corner (vá lá que seja, escanteio) e deu o recado decorado em uma década.

O artista Tony Blair estava acabando de voltar de uma tarde de autógrafos em Dublin, na Irlanda, onde manifestantes jogaram ovos, sapatos e o que mais estivesse à mão, ou ao pé, como sinal de apreciação. Talvez os protestantes (possivelmente católicos, como o resto da população) tentassem uma manifestação – artística também, um happening, para quem estiver lembrado – contra a invasão do Iraque em 2003. Ou então pela “subserviência” (eles lá que usam a palavra) do ex-premiê em relação aos Estados Unidos.

Talvez ainda continuassem se corroendo com a fúria das chamadas “negociações de paz” com o nexo IRA/Sinn Fein, quando, de um golpe de pena, 4 mil terroristas foram libertados. O que não deixa de ser estranho também, uma vez que se tratavam, em sua maioria, de irlandeses mais para papa que para premiê. Difícil entender irlandeses. São também, em sua maioria, uns artistas. No sentido que já tentei explicar.

Dos 60 minutos da tal entrevista dominical, uma coisa apenas ficou clara para mim. Tony Blair está envelhecendo bem. Aqueles olhos de gazela ferida perdida numa clareira da floresta cederam lugar ao olhar firme e penetrante de um alce disposto a qualquer embate físico, mesmo contra inexistentes armas iraquianas de destruição em massa.

Exato. De política, basta olhar fundo nos olhos do cidadão ou cidadã. Lá está, para o bom e escolado perscrutador, tudo que é necessário saber. Daí justificar ausência em qualquer escrutínio que surgir pela proa.

São todos uns artistas.