Tijoladas urbanas

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Como a vida é cara no Brasil! Nesta revoada setembrista de turistas brasileiros em Nova York o assunto é preço: tudo é mais barato em Nova York do que no Brasil. Não é verdade mas "quase tudo" é mais barato: roupas, produtos eletrônicos, perfumarias, restaurantes e muito mais.

O turista fala e a Mercer confirma. São Paulo é a cidade mais cara das Américas! No mundo, São Paulo aparece em 21º, o Rio em 29º. Nova York, usada como referência com custo 100, aparece em 27º, um pouco mais cara.

Meu colega de mesa no Conexão Manhattan, Diogo Mainardi, diz que em Veneza gasta a metade do que gastava para viver no Rio. Metade talvez seja exagero do Diogo...

A Mercer, uma empresa de consultoria e pesquisa, publica todos os anos uma lista de custo de vida para multinacionais e esclarece que as cidades brasileiras, inclusive Brasília, encareceram tanto por causa da valorização do real.

A cidade mais cara do mundo é Luanda, onde o aluguel de um apartamento de dois quartos custa US$ 4.480 por mês. Em Buenos Aires, uma das mais baratas - aparece em 161º lugar - o mesmo apartamento custa quatro vezes menos, US$ 960, e você vai ao cinema pela metade do preço do que Paris: US$ 4,16. As cidades mais baratas da América Latina são La Paz e Assunção. Quem quer morar lá?

Estes números são apenas uma pequena parte de uma longa matéria sobre cidades na revista Foreign Policy que anuncia o fim da era dos países e o nascimento - ou renascimento - da era das cidades. Quais são as mais influentes e globalizadas do mundo? Quais serão as Venezas do século 21?

Das dez cidades campeãs, cinco estão na Ásia e na costa do Pacífico: Tóquio, Hong Kong, Cingapura, Sidney e Seul.

Três são americanas - Nova York, Chicago e Los Angeles - e só duas são europeias, Londres e Paris, mas as quatros líderes mundiais continuam sendo Nova York, Londres, Tóquio e Paris.

A matéria é assinada por Parag Khanna, diretor do Global Governance Institute, membro da New American Foundation e autor do livro How to Run the World, que estava preparando quando me deu uma entrevista para o programa Milênio e para a BBC, há três anos. A pesquisa examinou 65 cidades com mais de um milhão de habitantes.

A sacada do estudo é que o futuro não vai ser construído pelos tijolos dos Brics, nem China, Estados Unidos ou União Europeia, e sim, pelas cidades globais. Só a China vai ter 15 cidades com mais de 25 milhões de habitantes - a Europa não vai ter nenhuma - mas não serão as mais influentes. São Paulo não aparece entre as líderes principalmente pela desigualdade econômica. O mesmo acontece com Mumbai e Istambul, também super populosas e poderosas, mas cheias de problemas.

Quando Parag foi a São Paulo pesquisar a cidade não conseguiu contar quantos helicópteros estavam no céu enquanto malhava na academia do último andar do hotel. Para ele, os helicópteros, mais do que um sinal de prosperidade, eram uma indicação de como fugir da miséria, do perigo e do absurdo congestionamento nas ruas.

Cem cidades hoje representam 30% da economia do mundo e só a de Nova York é maior do que a de 46 países da África Subsaariana juntos. Hong Kong recebe mais turistas por ano do que toda Índia.

"Desde a revolução industrial”, escreve Parag Khanna, "as cidades ocidentais dominam os principais centros urbanos graças à educação da força de trabalho, a sistemas judiciários sólidos, empreendedores mais ousados, comércio pelos portos e aeroportos, centros de estudo, organizações políticas, embaixadas, museus e mercados financeiros. Só os de Nova York e Londres tem 40% da capitalização do mercado global".

Entre as Venezas do futuro estão também as cidades-estados Dubai, e Abu Dabi, Dalian no norte da China e Doha, capital do Catar, onde moradores de 150 países formam a maioria da população local.

No listão das 65 cidades do futuro, Buenos Aires está na frente do Rio e até de São Paulo. Que tijolada!